COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA | CRÍTICA

Cinema| Visitas: : 325

Antes mesmo de estrear COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA, adaptação do livro homônimo do humorista Danilo Gentili, já dividia opiniões – e causava alvoroço entre os críticos do comediante. O livro que deu origem a adaptação chegou a ser retirado das livrarias e posteriormente recebeu classificação indicativa para maiores de 18 anos (o que acabou por alavancar as vendas); e até mesmo um dos garotos que protagonizam o filme recebeu um ultimato por parte do diretor da escola que frequentava – na tentativa de impedi-lo de participar do longa.

Já na semana de lançamento, por outro lado, COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA recebeu críticas de portais que mais expressavam opiniões pessoais ao humorista do que ao filme propriamente dito.

No meio de tanta discussão em torno da película, o fato é: ou você vai amar esta comédia, ou vai odiá-la.

Como de costume, você que acompanha o LE|POP já sabe, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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EU ESTAREI SEMPRE ABERTO A VOCÊS E ESPERO QUE VOCÊS TAMBÉM ESTEJAM ABERTOS PRA MIM

COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA narra a trajetória de dois garotos, Pedro (Daniel Pimentel) e Bernardo (Bruno Munhoz), amigos e colegas de classe, estudantes numa escola bastante conceituada e que sempre foram bons alunos, mas num dado momento, entretanto, o pai de Pedro morre e o garoto passa a questionar seu esforço para ser um bom aluno, bem como a incerteza futura dos resultados de seu empenho. Em quê aquilo realmente o ajudaria – e se ajudaria. É partindo desse questionamento que o jovem passa a não dar mais tanta importância aos estudos.

Conforme suas notas se deslocam ladeira a baixo, Pedro, não só desmotivado, mas desesperado, vê-se perdido ao dar de cara com a dura realidade dos exames finais – em que precisaria passar com louvor para não repetir de ano. É então que “na sarjeta” o estudante encontra uma caixa com pertences de um ex-aluno que havia estudado naquela mesma escola nos anos 80 e dentre os pertences está um caderno que mais serve de manual de como se tornar o pior aluno da escola, inclusive com técnicas de cola. O garoto vê naquilo a solução para seus problemas e junto com Bernardo partem em busca do tal Pior Aluno para um curso intensivo de COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA.

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QUERO QUE VOCÊ ME VEJA COMO SEU BROTHER

Definitivamente, COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA se destaca, e muito, das demais obras cinematográficas nacionais produzidas até o momento que, mesmo com certo esforço de sua produção, em uma hora ou outra aludem a estética das telenovelas. Incluindo obras ousadas como Tropa de Elite, Dois Coelhos e Operações Especiais, que embora não sejam comédias, tentaram ser um ponto fora da curva das demais produções nacionais, mas mesmo assim em certos momentos de suas narrativas apresentaram estética de telenovela – especialmente nas tomadas de discussão entre os personagens de suas respectivas tramas.

A estética de Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola alude muito a produções internacionais oitentistas e noventistas. É possível perceber influências de títulos como Te Pego lá Fora, O Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado, Dennis, o Pimentinha… E se você parar pra pensar é até uma sátira com Karate Kid. Nas palavras do próprio Danilo Gentili, “um Karate Kid da zoeira”.

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A estética do longa talvez seja um de seus maiores pontos fortes. É despretensiosa, descontraída. Sem intenção de ser uma “revolução audiovisual” ou mesmo um concorrente a algum grande prêmio da indústria cinematográfica. Como Se Tornar o Pior Aluno Escola é mais uma tentativa de reavivar o espírito de irreverência das produções dos anos 80 e 90. Fabrício Bittar, diretor do longa, assume isso em entrevista. O diretor disse que durante o processo de roteirização de Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, Gentili e ele pensaram muito em incorporar no texto coisas que gostavam de ver nos filmes que marcaram a infância e adolescência de ambos.

Como o livro que inspirou a obra não continha uma história – era na verdade um manual (literalmente) com dicas, layouts, esquemas detalhados e uma série de instruções passo a passo de como se tornar o pior aluno da escola – surge então o maior obstáculo do enredo: como montar a história que comporia a película? Como fazer do livro parte dessa narrativa? A resposta veio da maneira mais natural possível: e se alguém que está se desiludindo com a escola encontrasse o livro?

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WE’RE NOT GONNA TAKE IT ANYMORE

A qualidade técnica de Como Se Tornar O Pior Aluno da Escola é impressionante. De longe o ponto alto da obra. Direção, edição, som, trilha sonora… São um show a parte. Aqui quero destacar o trabalho de Bruno Nunes, editor do longa, que, ao que parece, é estreante (pelo menos no cinema) como editor e teve uma participação importantíssima para dar o ritmo certo da história com toda a irreverência que a mesma precisava.

Outro destaque vai para o artista de foley (foley artist) Mauricio Castañeda e a editora de foley (foley editor) Patricia Sanchez Cruz, que tiveram um papel crucial na produção, pois são os responsáveis pela sonorização de tudo o que ocorre no filme. Desde o barulho de passos, rabiscos, farfalhar de roupas… Enfim, toda ambiência sonora. Castañeda é famoso por trabalhos em títulos como Bata Antes de Entrar, O Matador, A História de Um Urso, dentre outros. Já Cruz traz em seu currículo títulos como Animal Político e O Matador, dentre outros. Assista a algum desses títulos e preste atenção no cuidado com a sonorização que ambos esses artistas têm e vai entender o motivo de serem destacados nessa crítica.

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A trilha sonora cai como uma luva. Uma seleção rock and roll que vai deixar qualquer fã do estilo musical feliz. Interessante observar que a trilha não apenas gera ritmo como também conversa e ajuda no desenrolar da trama. Todos os momentos de incivilidade, bagunça, descoberta, surpresa, descontração, perseguição, tensão e afins foram muito bem valorizados com a escolha das músicas da forma que foi feita. Pra se ter ideia, a cena de perseguição onde vemos Pedro e Bernardo sequestrando uma Van escolar (como vimos no trailer) foi agraciada com uma composição que alude muito a música que ouvimos na luta final de Snatch – Porcos e Diamantes. É eletrizante, intensa, imponente, precisa. Somada ao trabalho de edição de Bruno Nunes ficou impar. É um dos pontos mais empolgantes do filme e da edição.

Fabrício Bittar, que já havia trabalhado com Gentili na série Politicamente Incorreto, tem uma direção muito feliz em Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola. Ao mesmo tempo em que consegue trazer uma nova roupagem para as comédias nacionais, alude a grandes títulos clássicos da comédia internacional. Conseguindo fazer a maioria dos personagens principais se situarem muito bem em seus papeis e se desenvolverem de maneira simples e precisa ao longo da obra. Fora que mesmo com problemas de orçamento (que ocasionou o corte de algumas cenas que gostaria de ter incluído na película), conseguiu um resultado muito positivo de maneira geral, mesmo tendo de improvisar uma cena ou outra (como admitiu em entrevista).

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10,2

Como nem tudo são flores, alguns problemas acompanham a narrativa. Um deles é o personagem de Carlo Villagrán, que interpreta o atual diretor da escola, Ademar F. Melquior.

Melquior que seria um dos antagonistas de Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, não tem um impacto desse tipo na narrativa. Ele não chega a ser um diretor ranzinza e pentelho que chega a causar medo, aversão ou mesmo raiva nos alunos. Seu personagem é mais um hipócrita com delírios de grandeza do que alguém que inspira medo nos alunos. Alguém que acha que fala a linguagem dos jovens, não um sargento rabugento. Isso não incomoda, mas causa estranheza ao final da narrativa, especialmente quando o enredo te dá a informação do passado entre O Pior Aluno (Danilo Gentili) e Melquior.

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A atuação de Villagrán não é ruim, definitivamente. Contudo, seu papel é um pouco light para um vilão e também menos físico do que se imaginaria. Embora seu personagem se desenvolva bem, ele não é tão controlador como se esperaria desse tipo de papel. Um bom exemplo de diretor pentelho e mandão nesse gênero de filme é o diretor Edwar R. Rooney de Curtindo a Vida Adoidado, interpretado por Jeffrey Jones. Ronney chegou a invadir a casa dos Beuller para provar que Ferris era um mau aluno, já Melquior é mais do tipo que faz censura branca e caga regra no cardápio da cantina, por isso o descrevo como “menos físico”.

Melquior não é do tipo que ameaça ou chantageia alunos. Faz mais o tipo que se acha o espertão.

Por outro lado, papeis como os de Rogério Skylab, Joana Fomm e Moacyr Franco estão impagáveis. Moacyr tem, de longe, o personagem mais divertido. Carrancudo, boca-suja e matreiro. Interpreta um servente que foi amigo de classe do famoso Pior Aluno e ajuda Pedro e Bernardo a entrarem em contato com o mesmo.

Bom, quanto aos demais personagens é muito difícil entrar em detalhes sem dar spoilers. Por isso fica aqui o convite para que tire suas próprias conclusões no cinema.

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VEREDITO

COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA é uma comédia que definitivamente vem na contramão das demais produções nacionais, de maneira geral. Não é contida, não tem pretensão de levar uma mensagem ao mundo ou mesmo de querer ser a inovação do cinema nacional. É simplesmente uma comédia despojada – basicamente a zoeira pela zoeira – e talvez esse seja o segredo de estar indo tão bem nas bilheterias.

Com um elenco excepcional, humor em varias camadas, referências a diversos títulos da cultura pop, irreverência e uma ótima aceitação de público, COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA foi de encontro ao gosto dos fãs de filmes de besteirol escolar em ver algo do tipo na terra da zoeira.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola
Lançamento: 12 de Outubro de 2017
Direção: Fabrício Bittar
Argumento e Roteiro: Fabrício Bittar, Danilo Gentili, Andre Catarinacho
Música: Léo T. Motta

Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola é uma adaptação do livro homônimo de Danilo Gentili.

Elenco: Daniel Pimentel, Bruno Munhoz, Danilo Gentili, Carlos Villagrán, Moacyr Franco, Raul Gazzola, Joana Fomm, Rogério Skylab, Fábio Porchat.

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme.

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  • Luis Ricardo Freitas

    Ótima análise, Leo, vim aqui ler a sua a fim de ver se o meu estigma de professor caía por terra. Não gosto do Danilo Gentili, nem dessa ideia de chamar tudo de “mimimi”, mas o que odeio mais ainda é o preconceito. Vou assistir e prestar atenção nos detalhes mencionados da trilha sonora. E como gosto do Curtindo a Vida Adoidado, espero que esse seja um filme na contramão das comédias chatas e forçadas que os atores globais protagonizam.

    • Lepopblog

      Fala aí, Luis!
      Muito obrigado pelo feedback. É muito importante pra gente.

      Aqui no site a nossa maior preocupação é ignorar completamente fatores/opiniões/posicionamentos politico-ideológicos, sejam eles quais forem. Por isso nós simplesmente ignoramos quais quer matérias e/ou conteúdos ligados a cultura pop que expressem ideologia política. O LE|POP tem a única e exclusiva missão de falar sobre cultura pop. É justamente isso que nos difere dos demais ditos “sites nerds” que têm por aí, que mais servem pra propagar agenda politico-deológica ultimamente. Infelizmente…

      Quanto ao filme, de fato ele não apresenta posicionamento político. É um filme irreverente ao melhor estilo anos 90. E pra quem cresceu nessa época bem sabe que chegava a passar “Porky’s” no Cinema Em Casa, ao meio-dia, com a família toda reunida na frente da TV, rindo e sabendo separar ficção e realidade.

      Hoje em dia parece que o pessoal (de maneira geral) está preocupado mais em querer que um filme, HQ, música, livro, série, manga, anime e afins se enquadre exclusivamente nos aspectos de suas ideologia do que em esperar que aquilo proporcione entretenimento.

      O filme é um filme de besteirol escolar que, como tal, não tem nenhuma pretenção de ser “a pedra de reseta” da crítica social, ou que com pretenção de passar uma “moral da história” ou ainda “denegrir a classe de professores e o ensino enquanto tal”. Não. É um filme de zoeira. E é literalmente a zoeira pela zoeira. Pura e simples.

      (SPOILER ABAIXO)

      Não espere uma “moral da história”, porque não tem. Hahahahahahahahahahah

      • Luis Ricardo Freitas

        Boa, kkk. Esperar “moral da história” em filme de comédia já é além do bom senso. A preocupação era com a imagem adotada para o ensino escolar que já não anda bem das pernas há 30 anos… Enfim, como estou bem cansado de buscar sentido em tudo, espero poder achar graça nas zoeiras do filme, isso sim. E outra coisa a parte… A palavra “denegrir” significa “tornar negro”, mas foi adotada com conotação pejorativa como se ser/estar negro fosse algo ruim. Abraço e vida longa ao LePop, amo esse site.

        • Lepopblog

          Muito obrigado pelo carinho.
          Estamos batalhando bastante pra fazer o site crescer. É um trabalho de formiguinha.

          Quanto ao “denegrir” há uma confusão que geralmente é feita por se assimilar “cor” a “etinia”.
          No caso de palavras como “denegrir”, “enegrecer”, “escurecer”, “obscurecer” e similares o sentido da frase é o de “eximir a luz”, “desonerar a claridade”, “retirar o esclareciento de”, “tornar turvo”, “tornar dúbio”, que no caso se refere a maldizer outrem atravez de argumentos turvos, dos quais provavelmente o ouvinte não vai tentar ir atras de outras fontes para esclarecer o assunto em questão.

          A lingua portuguesa é cheia de expressões linguísticas (pejorativas ou não) que fazem alusão a cores, não necessariamente a etinias. Como por exemplo “deu banco”(esquecimento), “amarelou”(acovardamento), “vemelho de raiva”, “torcedor roxo”, “verde de fome”, “de noite todo gato é pardo”, “cor de burro quando foge”, “fiquei rosa-chiclete”, “branco de medo”, “no escuro é mais gostoso”, “branco de susto”, “sorriso amarelo”, “branco de fome”, “azul de inveja”, “ganhou uma grana preta” e por aí vai.

          Mais uma vez, muito obrigado por acompanhar o nosso trabalho. A ideia é melhorar cada dia mais e conseguirmos reerguer o espaço onde amantes da cultura pop possam falar de cultura pop e não de tretas político-ideológicas – baita trampo. Hahahahahaha Mas estamos indo. Hahahaha.

          Abraço, mano!