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007 – SEM TEMPO PARA MORRER | CRÍTICA

Tudo o que James Bond queria com sua aposentadoria era uma vida pacata ao lado de Madeleine, a mulher a quem ama. Longe de segredos, mentiras, tiroteios e perseguições. Mas o destino não é tão bondoso assim, e traz consigo mais segredos, mentiras, tiroteios, perseguições e organizações secretas que forçam Bond a se separar de Madeleine. Só que a coisa consegue piorar ainda mais, quando Felix Leiter pede a ajuda de Bond para capturar um cientista que também é alvo do MI6. A missão falha e Bond fica na mira de um vilão misterioso, munido com uma arma biológica de proporções inimagináveis. Porém, o que Bond não contava era que Madeleine fosse a peça central dessa trama maligna. Agora, Bond terá de correr contra o tempo para salvar o mundo, recuperar sua amada e tomar a decisão mais importante de sua vida. Este é o Plot de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, quinto e último filme da franquia 007 estrelado por Daniel Craig, que estreou no último dia 30 de setembro.

007 – SEM TEMPO PARA MORRER é uma proposta ousada, que tece uma carta de despedida para os fãs da franquia, mostrando que um novo ciclo se inicia. E este é, de longe, o maior dos problemas deste filme. Não só isso, como também o maior vilão, visto que Rami Malek é a personificação da coisa mais caricata e sem sal que já passou por toda a franquia e, se não fosse o desfecho do último ato, sequer pode ser considerado um vilão.

Se você se impressionou com o parágrafo acima, não se preocupe. Fica ainda pior. Não bastasse a ideia de “um novo Bond, para uma nova era”, 007 – SEM TEMPO PARA MORRER consegue dar um tiro, de bazuca, nos próprios pés com sua campanha de marketing, que promete “X” e entrega “F”. E você aí achando que JOHN CATER teve uma campanha de marketing ruim, né?

Quando somamos a proposta de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER com sua campanha de marketing, percebemos o tamanho do problema que foi criado com este último filme, por mero proselitismo político-ideológico. Com isso, conseguimos avaliar o estrago causado pela vontade de atender a agenda progressista no cinema. E quando nos deparamos com este fato ficamos confusos. Sabe por quê? Porque 007 – SEM TEMPO PARA MORRER não é um filme ruim. Tampouco é um “filme lacrador”, como foi vendido. Só que também não é um filme espetacular. É médio. Novamente, por mero proselitismo político-ideológico.

Ficou sem entender nada, né? Pois é… Vamos destrinchar essa história toda!

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER e discorrer como a vontade de agradar a gregos e troianos pode ser um baita Cavalo de Tróia, que você mesmo constrói, coloca pra dentro da sua própria cidade e causa um baita prejuízo no próprio bolso.

Diferente da esmagadora maioria das críticas deste site, esta contém spoilers. Mas pode ficar despreocupado, pois a sessão de spoilers se encontra abaixo da nota do nosso veredito, ao final do texto. E é preciso clicar no local indicado para ler. Assim, se você não gosta de spoilers, pode ler a crítica sossegado.

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JAMES, O DESTINO NOS REUNIU MAIS UMA VEZ. AGORA O SEU INIMIGO É MEU INIMIGO.

A coisa toda com 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é tão bagunçada que, diferentemente das demais críticas aqui do LEPOP, onde abordamos as questões de Storytelling e sua importância de forma educativa, desta vez teremos de deixar o Storytelling de lado pra nos focar em outras questões: ideologia, proposta, marketing e como o público reage a essas questões. Necessariamente nesta ordem. Porque pra entendermos o estrago causado nesse filme, precisamos entender como a vontade de querer enganar duas audiências distintas, concomitantemente, resulta em saldo negativo no bolso.

Partindo do começo, o primeiro problema que 007 – SEM TEMPO PARA MORRER enfrenta é a barreira ideológica vigente não só em Hollywood, mas sim, mundialmente, em toda a produção em massa de cultura pop de modo geral. A vontade de introduzir, no mau sentido, progressismo goela abaixo no consumidor (especialmente o acusando com algum “ista” ou “fóbico” no sufixo) virou uma tendência tão chata e desgastante, que o grande público passou a adotar um questionamento muito simples como filtro de consumo:

Esse filme (ou essa série) é lacrador(a)? Porque tá com cara. E na dúvida, é melhor não arriscar.

Pode parecer besteira, mas tem gente que só quer consumir uma forma bacana de entretenimento, sem ter de engolir ideologia de forma forçada, ou ser adjetivado pejorativamente por votar em alguém que não agrada os estúdios, ou produtoras, ou roteiristas, diretores, atores, atrizes etc. Para isso, começam a fazer uma filtragem cada vez mais radical do conteúdo a sua volta. A pergunta acima vem bem a calhar, especialmente se você analisar que quanto mais progressista o conteúdo, menos interesse do grande público ele tem. É possível analisar isso por diversos lados, seja na literatura, no cinema, nas séries, HQs… A lista segue.

De um lado, estúdios e produtoras dispostas a adotar a agenda progressista como modelo de negócio (resguardados, é claro, por sites e portais também progressistas que vão fazer toda sorte de malabarismo para exaltar o produto desses estúdios e produtoras, caso paguem o pedágio ideológico; mas que vão acusá-los de ser o satanás na Terra, caso não paguem o pedágio ideológico), enquanto que do outro lado temos o consumidor que não quer saber de progressismo – que curiosamente é a esmagadora maioria do público.

Em outras palavras, temos empresas tentando empurrar para o pagante produtos que o pagante não quer comprar. O resultado é bem previsível.

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Não é como se o público progressista não existisse. Pelo contrário, esse público também existe, mas é uma minoria. Uma minoria barulhenta nas redes sociais, só que vive com o escorpião no bolso na hora de apoiar as causas que tanto empurra (forçadamente) nos outros. E os críticos desses portais que tanto endossam a ideia de “desconstruir padrões” na luta contra o capitalismo também não pagam pelos ingressos daquilo que vão criticar. Maravilha de cenário!

Ou seja, os críticos (que julgam por viés ideológico) não pagam pra consumir o produto analisado. Os militantes que querem forçar ideologia na produção de conteúdo (e criminalizar quem discorde) não só não consomem este mesmo produto, como são uma pequena minoria. Isso quer dizer, economicamente não fazem diferença. E o público que consome, a maioria das pessoas, que é quem realmente paga pelo produto, é atacada pelos estúdios, produtoras, artistas, críticos, sites e portais, e, claro, pela militância.

Se você criticar este “modelo de negócio” vai passar dias recebendo adjetivos “pitorescos” terminados com “ista” ou “fóbico”. Sem falar que, muitas vezes, pode ser adjetivado pelo próprio filme que está consumindo. Em resumo, é pagar pra apanhar. O problema é que se o público pagante não for entusiasta de BDSM, essa estratégia pode ser pouco lucrativa.

Agora que você viu o panorama ideológico, fica bem fácil de ligar os pontos.

Foi vendo esse impasse, por anos, observando os prejuízos de seus concorrentes, que algum(a) executivo(a) deve ter concebido a seguinte ideia brilhante: Que tal enganar os dois públicos? Afinal, o que é que poderia dar de errado, né? Até porque é muito mais inteligente enganar ambos, do que tentar agradar o lado que realmente paga. Não tem como dar errado!

É então que surge a proposta do “James Bond para a era pós #MeToo”.

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É DIFÍCIL SEPARAR O BEM DO MAL, O VILÃO DO HERÓI HOJE EM DIA.

O #MeToo, embora tenha dado voz a atrizes que realmente foram vítimas de assédio sexual por anos em Hollywood, veio com um Cavalo de Tróia bem inconveniente para a elite iluminada de artistas que gostam de fazer vitrine de virtudes diante das câmeras e nas redes sociais: não eram apenas os homens que cometiam assédio sexual. E dentre as atrizes que foram a público expor os ultrajes que passaram, algumas também incorreram nos mesmos atos impróprios que denunciavam. Inclusive acusações envolvendo menores de idade.

Curiosamente, após esses “incidentes” virem à tona, os sites e portais que viviam de publicar notícias e mais notícias sobre “a importância do movimento #MeToo para a sociedade” se calaram. Não tocaram mais no assunto e voltaram a cobrir outras pautas. Intrigante…

Pensando em minimizar possíveis comentários futuros para a franquia do espião mais famoso do mundo (e evitar alguns processos milionários também), veio a ideia de associar o pós-MeToo com o brilhante conceito de ludibriar ambos os públicos. Dá até pra imaginar a reunião de pauta de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER:

Olha, vamos fazer o seguinte: a gente mantém o Bond exatamente do mesmo jeito, só que vamos retirar as senas de sexo. E pra justificar a retirada das cenas de sexo, a gente faz dele um cara comprometido e fiel, daí só precisa gravar uma ou duas cenas mais insinuantes e tá tudo certo. Então, pra gente se proteger de qualquer comentário futuro nas gravações, vamos pegar alguma ativista feminista famosa e trazer ela pro time de produção pra educar os atores a como se comportarem nessas cenas. Melhor, vamos deixar ela roteirizar algumas coisas também! Daí, dá pra fazer o marketing inteiro com foco no empoderamento feminino, mesmo que não ocorra no filme. A gente edita os trailers todos pra parecer que castraram moralmente o Bond. Tipo, “ponha-se no seu lugar, macho escroto”. E em vez de um Bond metido a garanhão, pegador, a gente coloca só mulheres que não se sentem atraídas por ele nessa história. Só que ele continua sendo o Bond, então ele não liga se essas mulheres não se sentem atraídas por ele, porque ele também não se sente atraído por elas. Tão conseguindo entender? É genial! Os críticos vão adorar os trailers e falar bem do filme pro público progressista. Já quem não é progressista ainda assim é fã, e um ou outro vai no cinema assistir ao filme, daí vai ver que o filme não tem nada de “lacrador”, vai espalhar pra geral e essa galera vai vir correndo pras cabinas assistir aliviada. Não tem como dar errado! Ainda mais com o Tema de sacrifício no enredo, que é um apelo ao macho e ao heroísmo! É double win total! Vamos ganhar de todos os lados! #Confia!

Parece piada. Mas quando você sai da sala de cinema é exatamente essa impressão que se tem de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER.

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O problema, prezado leitor, é que este é o 007 mais caro de ser produzido de toda a história da franquia nos cinemas. U$ 900 milhões. Você não leu errado. Este filme custou 900 milhões de dólares pra ser produzido. Quase 1 bilhão de dólares. Isso quer dizer que o filme precisa arrecadar 900 milhões de dólares pra ficar no zero-a-zero. Pra só então começar a ver algum saldo positivo nas contas dos produtores. Se você adicionar a essa equação o pequeno detalhe de que só é considerado “lucro” quando um título arrecada o triplo do valor investido… A coisa fica ainda pior.

Mas calma, porque piora ainda mais. Sabe por quê? Porque o público não-progressista já tá tão de saco cheio de proselitismo naquilo que consome, já tá tão desgostoso de ser enganado que não quer mais se arriscar a pagar pra ser ofendido. E com a crise sanitária mundial tiveram o incentivo perfeito pra ficar em casa. Consegue imaginar o resultado? É… É isso mesmo. Bilheteria lá embaixo.

007 – SEM TEMPO PARA MORRER é um flop? De maneira alguma. Mas não está nem perto de 200 milhões até o momento da publicação desta crítica. Você pode conferir direto no BoxOffice Pro clicando no link. 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é um “filme lacrador”, um filme que faz proselitismo progressista? Não, embora exista sim uma proposta progressista que será detalhada nos spoilers. Mas definitivamente, aquele Bond emasculado dos trailers NÃO EXISTE no filme. Aliás, está bem distante disso.

007 – SEM TEMPO PARA MORRER está longe de ser um filme ruim, porém, pelo que será abordado nos spoilers, também está muito longe de ser um filme espetacular, digno de final de ciclo, como se espera. E se esse encerramento de ciclo, com Daniel Craig, não consegue superar o final de ciclo de 007 – UM NOVO DIA PARA MORRER (2002), com Pierce Brosnan, então tem-se um problema sério!

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ANTES DAVA PRA ENTRAR NUMA SALA COM O INIMIGO, E AGORA O INIMIGO FLUTUA NO VAZIO…

Mas a cereja do bolo do desastre é mesmo a campanha de marketing de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER. Porque por conta da proposta do “Bond da nova era, para uma nova geração”, apostaram em uma ação que promovia uma propaganda enganosa. Pra todos os públicos. Um baita tiro nos dois pés.

Quando o público se sente enganado, qual você acha que é a reação natural? Defender ou atacar quem o enganou? Louvar ou maldizer quem o ludibriou?

O que mais me espanta é a incapacidade de perceber o óbvio, que a época em que você simplesmente podia sentar com seus amigos e conversar por horas sobre as coisas que gostam em comum se foi. Nunca mais vai voltar. Hoje, as amizades são medidas por compatibilidade política. Os relacionamentos são medidos por compatibilidade política. Você não senta mais com amigos “pra jogar conversas fora”. Você senta com quem tem compatibilidade política e conversa sobre política, enquanto políticos estão pouco se lixando pra sua existência. Seria trágico, se não fosse cômico.

A ala progressista forçou tanto a coisa, especialmente com a sanha dos cancelamentos, que obrigou tudo a se resumir a política. Agora, quem só quer um entretenimento de qualidade se vê forçado a adotar um lado, mesmo que não queira nenhum. As empresas seguem no mesmo caminho.

E falando de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, o curioso é que nessa de pegar propostas abissalmente distintas de um James Bond e combiná-las debaixo do mesmo projeto, não tenha despertado o alerta dos produtores de que essa era a ideia mais absurda que poderia existir.

Em outras palavras, faltou coragem (e muita) aos executivos para decidir se iriam pelo caminho 100% progressista, ou pelo caminho 100% não-progressista. Teria rage de um dos lados? Sim. Muito? Provavelmente sim. Mas seria algo honesto com AMBOS.

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ELA AINDA TE AMA. VOCÊ SABIA DISSO?

Agora que falamos sobre a bagunça envolvendo ideologia, proposta, marketing e reação do público a estes fatores de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, vamos entrar um pouco na questão de Storytelling. Até porque o “vilão” de Malek merece seu destaque negativo, pois o desperdício do papel dele é tamanho, que não há nada de icônico nem em sua atuação, nem na construção de seu personagem, ou em seu desenvolvimento. Tampouco de lógico. É praticamente um assassino “good vibes” que metralha à queima roupa, mas que não gosta de violência (?).

Sem mencionar que a Oposição Temática entre o “vilão” de Malek e o Bond de Craig é, no mínimo, ridícula. Por quê? Porque ela não existe. Bond cai de gaiato na história e acaba sendo um arqui-inimigo de última hora para Malek. A única pessoa com quem Safin, o “vilão”, tem Oposição Temática é com Madeleine. Bond é apenas um empecilho qualquer momentâneo. E muito embora o final do embate entre Bond e Safin seja até tocante, pelas consequências, não é tão impactante como poderia ter sido se Bond fosse o alvo da Oposição Temática de Safin, não Madeleine.

E você, prezado leitor, vai gostar mesmo é de saber como a tal arma biológica foi desenvolvida. Se você achou tudo até aqui sem pé nem cabeça, assista o filme (ou leia os Spoilers) pra saber como essa belezinha de arma tremendamente mortal foi desenvolvida.

A questão é que tudo o que envolve 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é uma bagunça tão grande, que você se espanta como esse projeto foi aprovado pra ser um final de franquia. É uma pena…

Novamente, se você achou que 007 – SEM TEMPO PARA MORRER se trata de um filme “lacrador” você está enganado. Há, sim, uma proposta progressista no longa, que será abordada mais abaixo, na zona de spoilers. Mas o título em si não é, nem de longe, aquilo que os trailers pintaram. Vale a pena ver 007 – SEM TEMPO PARA MORRER nos cinemas? Definitivamente. Contudo, não espere uma conclusão épica, imponente. É um final marcante, tocante e ousado. Isso não é nem bom, nem ruim – infelizmente. É médio, justamente por conta da proposta progressista que é esmiuçada nos spoilers.

James Bond em 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é, em partes, em poucas palavras, aquilo que He-Man deveria ter sido em MESTRES DO UNIVERSO, a série animada da Netflix. Essa só vai entender quem assistir ao filme, ou ler os spoilers.

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VEREDITO

Bagunçado, ousado, divertido, porém perdido, 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é um encerramento de franquia um tanto quanto chocho, que fica na média por abraçar questões ideológicas e colocá-las acima da honestidade para com os fãs da franquia e do personagem.

Apostando em agradar gregos e troianos, 007 – SEM TEMPO PARA MORRER investe em uma publicidade enganosa, que retira o interesse de ambos os espectros da fanbase do espião mais famoso do mundo. A consequência disso já está sendo escancarada nas bilheterias. E querer fazer “contenção de danos” depois, com declarações de Craig pra tentar acalmar os fãs no desespero de leva-los ao cinema, não melhora o cenário…

Agora, é torcer para que a proposta da próxima franquia seja pelo menos honesta com o público e se descida se vai abraçar o progressismo de vez, ou não. Indiferente da escolha que façam, que tomem 007 – SEM TEMPO PARA MORRER como exemplo, porque se nem Jesus agradou a todos, quem dirá um filme de uma indústria que decidiu adotar viés político-ideológico.

SESSÃO DE SPOILERS – CLIQUE AQUI PARA LER

Ok, vamos aos Spoilers.

1 – DA ARMA BIOLÓGICA

007 – SEM TEMPO PARA MORRER traz um recurso nano tecnológico chamado “Projeto Hércules”. Trata-se de uma solução de nano robôs que atravessam a sua pele e passam a fazer parte de você, do seu código genético. Não tem reversão. Não podem ser expelidos do seu corpo. São ativados por DNA. Isso traz duas situações:

A ) Se o seu DNA não for O DNA previamente programado para aquele conjunto de nano robôs como “alvo”, nada de mal vai te acontecer. Mas você pode servir de transmissor para o hospedeiro correto, porque ao menor toque da sua pele com a pele da pessoa que possui o DNA alvo, esta pessoa fica infectada e morre em instantes, pois os robôs são programados para destruir o DNA da pessoa. E quantas mais pessoas tiverem o DNA cruzado (grau de parentesco) com o infectado, também morrem se tiverem contato físico com o mesmo;

B ) Se o seu DNA for o alvo e você for infectado, há duas variações de ataque dos nano robôs, a primeira é te matar na mesma hora e te tornar altamente contagioso pra quem mais possuir o mesmo código genético que você. A segunda é deixar você vivo, mas tornar você um perigo imenso para as pessoas que você ama. Por exemplo, se você tiver um filho e o DNA do seu filho foi usado para codificar os nano robôs injetados em você, você nunca mais poderá tocar no seu filho, no seu cônjuge, na sua família, nem em ninguém da família do seu cônjuge.

Bond é infectado com essa segunda variação do vírus. Como ele descobre que tem uma filha com Madeleine, e que o DNA da filha foi usado como código dos nano robôs, você já consegue imaginar o que acontece, né?

Então, a questão curiosa envolvendo essa arma biológica é que ela foi criada pelo MI6, pelo próprio M, contra os conselhos de Bond, anos atrás. E o melhor de tudo, é que segundo o próprio M ele “não imaginava que isso pudesse vivar uma arma de destruição em massa se caísse em mãos erradas”.

Puta que pariu! O chefe da inteligência secreta de uma nação é imbecil o suficiente a ponto de não considerar que desenvolver uma porra dessas (sem um antídoto) jamais cairia em mãos erradas e jamais seria usado para mal. É muita fé na bondade dos vilões infiltrados mesmo. Vou te contar…

2 – SOBRE BOND SER O QUE HE-MAN NÃO FOI, E A PROPOSTA PROGRESSISTA

He-Man, em “Mestres do Universo” da Netflix, foi um desastre em diversos níveis do que tange Storytelling. Especialmente por ter sido escrito por alguém que eu considero um ótimo roteirista, Kevin Smith. Aliás, várias vezes aqui no site já indiquei a leitura de uma saga do Demolidor (Marvel Comics) escrita por ele, publicada aqui no Brasil em meados dos anos 2000, em seis edições, dentro da coletânea “Marvel 2000”, intitulada “Diabo da Guarda”. Que, em minha opinião, é uma das melhores histórias do Demolidor já escritas até hoje. E quando você pega “Diabo da Guarda” e compara com “Mestres do Universo” vê a degradação que a ideologia pode fazer com alguém. Porque o nível de diferença de tratamento com ambos os personagens é colossal, especialmente porque nos tempos áureos da “Marvel 2000” Kevin Smith não era um ideólogo que tentava empurrar sua visão de mundo, goela abaixo, nos outros, principalmente desrespeitando ícones e personagens tão queridos. Mas os tempos mudaram. E como mudaram…

O que acontece com He-Man, é que Kevin Smith primeiro faz uma depravação da figura do príncipe Adam, que não era um imaturo, inseguro e desajeitado que se transforma em alguém experiente, confiante e ágil quando invoca os poderes de Grayskull. E o segundo ponto é que Smith utiliza o conceito de “sacrifício” da maneira mais desonesta e infame possível, por mera conveniência ideológica, para abarcar no enredo agenda feminista. Fazendo dos dois sacrifícios de He-Man na série algo completamente vazio, sem nenhum peso dramático, sem nenhum heroísmo, sem nenhum fim maior/nobre da parte do personagem ao entregar sua vida (duas vezes). Nem parece que é a mesma pessoa que deu uma verdadeira aula de Storytelling em “Diabo da Guarda”.

O sacrifício de morte de um herói não tem como intenção “passar a tocha”, como tacanhamente foi feito com He-Man em “Mestres do Universo”. O sacrifício de um herói tem como intuito fortalecer a ideia de que a luta pelo bem, pela verdade, pela liberdade, pelo que é certo, ainda que cause a sua morte, vale a pena. O sacrifício de um herói serve para criar um símbolo atemporal de ideal a ser perseguido, como inspiração de virtudes a alcançar. Não se trata de “entregar o manto a outra pessoa”, mas sim de fazer prevalecer a defesa dos mesmos ideais que aquele que se sacrificou defendeu com a vida. E mais: é fazer, dali pra frente, da vida do sucessor uma extensão da vida do herói. Esse é o ponto do sacrifício de morte de um herói. É um sacrifício mútuo. Porque o herói encerra sua jornada, enquanto que seu sucessor abdica da própria vida pra dar continuidade ao legado do herói. Não existe absolutamente NADA disso em “Mestres do Universo”.

Contudo, em partes, isso é melhor retratado em 007 – SEM TEMPO PARA MORRER. Mas é preciso deixar bem claro que “em partes”.

Sacrifício é o Tema central de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER. Em vários níveis. Bond sacrifica seu emprego, sua liberdade, relacionamento, amizades, reputação, credibilidade… E o mesmo vem ocorrendo com boa parte dos personagens da história. Por fim, como conclusão do Terceiro Ato, Bond sacrifica a própria vida pra que sua amada Madeleine e sua filha possam viver em paz, visto que ele não suportaria uma vida sem poder tocá-las.

Há uma homenagem póstuma à pessoa de Bond no MI6, onde enaltecem sua figura e dão uma pincelada, bem por cima, de seus ideais. Em seguida, somos apresentados a uma cena em que Madeleine está dirigindo o Aston Martin de Bond com a filha deles ao lado; ela prepara a filha pra ouvir histórias sobre o pai que mal conheceu e o filme acaba.

Ok, qual é o ponto aqui?

007 – SEM TEMPO PARA MORRER, diferente de “Mestres do Universo”, pelo menos tenta trazer algum significado maior ao sacrifício do protagonista da obra. Primeiro, por não modificá-lo de seu ideal original. Afinal, ainda é o mesmo Bond, só tentou uma vida de casado. Segundo, embora o sacrifício final de Bond não seja para construir um legado (e já vamos entender melhor os motivos), ainda assim é um pouco mais honesto com o personagem, não transformando sua morte, diretamente, em um palanque ideológico.

Acompanhamos, Bond tentando reconstruir seu amor com Madeleine e descobrir que agora é pai. Vemos que a surpresa para ele é intrigante e positiva, e que por mais que Madeleine lhe diga que a filha não é dele, Bond sabe que na verdade é. Que Madeleine está tentando proteger a filha. Isso tem significado na vida de Bond.

Em seguida, uma perseguição e Bond precisa defendê-las sozinho de vários assassinos. Mais significado na vida do agente 00.

Ou seja, manter-se vivo, agora, para Bond é algo extremamente importante, pois ele tem inimigos espalhados pelo mundo. Se alguém descobrir que ele virou pai, sua esposa e filha estão em perigo. Ele precisa se manter vivo a todo custo para defende-las. É aqui que reside a honestidade do tratamento e do sacrifício nesta história.

Em 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, o sacrifício de James Bond é algo que vem sendo prenunciado durante toda a trama. Há um diálogo entre Bond e Nomi (Lashana Lynch) onde ela deixa claro que ele foi “substituído”. Que ele “ficou no passado”. Mais adiante, antes de invadirem a ilha de Safin, enquanto Bond e Nomi são instruídos por M e Q em um avião que sobrevoa o local, Nomi pede licença a M e solicita permissão para que Bond seja reintegrado como 007 e M assim concede.

Você deve estar se perguntando qual a relevância disso para a história, não é? Pois bem, este é o exato momento em que os roteiristas (que são 4, aliás) enfatizam que o destino de Bond está selado. Tanto isso é verdade que o Mis-em-cène se preocupa até em refazer, mais adiante, a icônica cena das aberturas dos filmes da franquia, onde Bond caminha em um cenário branco e bem iluminado, sob a mira de uma arma que forma um túnel e ele então atira. Só que dessa vez, na cena em questão, que se passa em um túnel real da ilha de Safin, toda a ambientação escura e funesta indica o que está por vir. Deixando claro que Bond pode até matar, mas não há brilho de esperança sobre si.

Há ainda uma cena em uma balada onde Bond e Felix estão conversando e as luzes do local projetam a figura distorcida do crânio de uma caveira sobre o rosto de Bond. Você pode inclusive ver essa cena no trailer abaixo, aos vinte e cinco segundos. Sem falar de outros diálogos, ao longo da trama, que evidenciam o vindouro fim da vida de Bond.

Em suma, o espectador é preparado, o tempo todo, para o encerramento de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER com a morte de Bond. Só tem um pequeno problema nessa morte: a proposta.

Durante toda a produção de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER tivemos vários pronunciamentos das atrizes, do diretor, produtores e etc. sobre “o Bond da era pós-MeToo”, “um Bond sem masculinidade tóxica”, “um novo Bond para uma nova geração”, “um novo Bond para uma nova era”. Pois é…

Acontece que a morte de James Bond em 007 – SEM TEMPO PARA MORRER não se trata só de um sacrifício, mas de uma mensagem. Uma escolha inclusive dos produtores. Mensagem essa bem clara: Não pode haver James Bond para essa geração. E se houver, terá outros moldes.

007 – SEM TEMPO PARA MORRER não é uma história de encerramento de ciclo de uma das maiores e mais cultuadas franquias da história do cinema. Trata-se de uma nota de distanciamento de tudo o que o personagem representa. É uma comunicação com os fãs de que tudo o que eles conheceram do 007 nunca mais será visto nos cinemas.

Nomi não entrega o título de 007 novamente a Bond em respeito à sua pessoa, ou por finalmente entender seus valores. Não. Nomi abre mão de ser chamada de 007 para que o título morra com Bond, para que nada de seu legado seja perpetuado. Que nada relacionado a seus feitos heroicos vá adiante.

Bond não se ajoelha perante Safin pedindo perdão à toa, ou somente para implorar pela vida de sua filha. Até porque ele não implora pela vida da filha na cena. Tudo o que ele faz é pedir perdão. Várias e várias vezes. É quase um “desculpa por ser homem”.

Aliás, a cena em si é bastante esquisita. É desnecessariamente longa durante o momento em que Bond está com o rosto no chão pedindo desculpas. O que só levantaria ainda mais as suspeitas de um vilão tão inteligente de que tinha coisa errada naquele pedido de desculpas e era só pra ganhar tempo, pra agir de outra forma. Isso só reforça que a cena tem outro propósito. Que o pedido de desculpas não é para o vilão.

Toda a simbologia de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é de que o tempo do James Bond, do jeito que conhecemos, se encerrou e provavelmente nunca mais vai voltar. O que vamos ter daqui pra frente, possivelmente, é uma franquia focada em ideologia. Só pra variar as produções atuais…

O que vemos em 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é uma narrativa muito clara de que não pode haver um James Bond pós-MeToo. Esta é a proposta.

FICHA TÉCNICA

Título Original: 007 – No Time to Die
Lançamento: 30 de setembro de 2021
Distribuição: Universal
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Edição: Tom Cross, Elliot Graham
Cinematografia: Linus Sandgren

007 e todo o universo de suas histórias é uma criação de Ian Fleming.

Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Rami Malek, Lashana Lynch, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomie Harris, Rory Kinnear, Jeffrey Wright, Billy Magnussen, Christoph Waltz, David Dencik, Ana de Armas, Dali Benssalah, Lisa-Dorah Sonnet, Coline Defaud, Mathilde Bourbin, Hugh Dennis, Priyanga Burford, Joe Grossi, Nicola Olivieri, Pio Amato, Javone Prince, Davina Moon, Mattia Lacovone, Giansalvatore Duca, Amy Morgan, Lizzie Winkler, Andrei Nova, Ernest Gromov, Gediminas Adomaitis, Andy Cheung, Brigitte Millar, Hayden Phillips, Winston Ellis, Adnan Rashed, Rae Lim, Chi Chan, Denis Khoroshko, Lourdes Faberes, Philip Philmar, Raymond Waring, Eliot Sumner, Rod Hunt, Michael Mercer, Gemmar Mcfarlane, Leighton Laing, Kimo Armstrong

Trailer:

007 - SEM TEMPO PARA MORRER | Trailer Final Oficial - BR

Como sempre enfatizamos: no final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não da obra.

E já que você gosta de cinema e séries:

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Muito obrigado e até a próxima.


LLeo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.