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A MENSAGEIRA | CRÍTICA

Nick Murch é um jovem que testemunhou um assassinato a sangue frio cometido pelo poderoso chefe do crime Ezekiel Mannings. Murch então é colocado em programa de proteção e se dispões a testemunhar via conferência online, em um abrigo especial, através de uma maleta com todos os equipamentos necessários e criptografados para garantir sua segurança. A entrega dessa maleta é feita por uma mensageira misteriosa de uma empresa especializada. Contudo, o que Murch e a Mensageira não esperavam, era que Mannings tinha infiltrados dentro da Interpol, cuidando desta operação. Agora, Murch e a Mensageira terão de lutar pelas próprias vidas, num jogo de gato e rato, presos no estacionamento do prédio que serve de abrigo a testemunhas. Com este Plot, A MENSAGEIRA estreou recentemente nos cinemas brasileiros, com Olga Kurylenko, Amit Shah e Gary Oldman no elenco.

A MENSAGEIRA (The Courier, no original), é um suspense de ação que estreou em 2019 nos EUA, mas que só chegou no Brasil no último dia 28 de outubro. E qualquer semelhança com GATORA DA MOTO, muito provavelmente, não é mera coincidência. É possível ver claramente de onde o longa nacional tirou tantas referências estéticas, inclusive algumas ideias para cenas de ação. E, assim como o título brasileiro, A MENSAGEIRA também é repleto de altos e baixos. Num resultado um pouco mais positivo, é verdade, mas ainda assim com altos e baixos.

Cenas de ação viscerais, combates corpo a corpo de tirar o fôlego, música imersiva, enredo intrigante, algumas ótimas atuações… Só que somado a antagonistas caricatos, desenvolvimento narrativo atravancado, certas cenas de ação mal executadas e algumas atuações tão exageradas que chegam a destoar completamente do resto da produção.

Em outras palavras, A MENSAGEIRA é uma bagunça. Ora acerta de forma épica, ora erra catastroficamente. Quando acerta, é de encher os olhos. Mas quando erra, meu amigo…

Para entendermos como é possível um filme acertar e errar tanto, é preciso irmos direto à raiz do problema, a quantidade mão que escreveram esta história.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de A MENSAGEIRA e discorrer como ter cinco roteiristas pode ser uma péssima ideia no cinema.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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VOCÊ TÁ FAZENDO A COISA CERTA. LOGO, TUDO ISSO ACABA.

A MENSAGEIRA, antes de qualquer coisa, não é um filme ruim. Mas é um filme muito mal executado no todo. Tem ótimos momentos que definitivamente valem o ingresso, só que os tropeços da película não são de deixar passar batido.

Um grande problema de A MENSAGEIRA é, infelizmente, seu vilão, Ezekiel Mannings, que é interpretado por ninguém menos que Gary Oldman. E ter Oldman no elenco, como vilão, e conseguir transformar isso num problema… É de ficar admirado – no mau sentido.

O roteiro de A MENSAGEIRA tentou fazer de Oldman uma espécie de super criminoso, superinteligente, superculto, super rico, super procurado, mas que ninguém consegue pegá-lo no flagra. Nessa, criaram um vilão que, de forma caricata, se veste de preto, passa o dia escutando música clássica, cita frases de políticos e, durante todo o filme, comete UM único assassinato. Depois, passa o resto da trama falando ao celular. Em outras palavras, é como se você estivesse vendo um antagonista dos anos 90 – especialmente pelo visual.

É bem verdade que A MENSAGEIRA abre mostrando ao espectador manchetes e notícias investigativas sobre os inúmeros crimes de Mannings, de como ele é suspeito; bem como nos dá acesso aos arquivos secretos do passado militar da Mensageira (que não tem seu nome revelado em momento algum). Entretanto, isso não é o suficiente para fazer o público crer que Mannings é um criminoso super perigoso, com recursos vastos, porque o enredo te FALA sobre Mannings, em vez de te MOSTRAR como ele realmente é em ação.

E olha o bom e velho Show, Don’t Tell aí novamente!

Uma forma simples de resolver esse problema seria ter usado flashbacks de Mannings e seus capangas cometendo estes mesmos crimes e saindo impunes, enquanto as notícias dizem não existirem provas contra o mesmo. Assim, seria possível mostrar corrupção, suborno, ameaças, mortes, tudo com cenas curtas, que aproveitariam muito melhor o talento de Oldman, dando ao público as informações necessárias para crer no quão temível e poderoso o personagem realmente é, seu verdadeiro grau de influência e poder financeiro para comprar policiais, agentes especiais, juízes, procuradores… Mas não. Em vezes disso, colocaram Mannings para ficar falando ao celular e escutando ópera.

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O QUE FOI, MINHA QUERIDA?

Outro problema de A MENSAGEIRA está na edição dos primeiros 20 minutos do longa. Justamente a faixa de tempo que tem de prender a atenção de quem assiste, com todas as forças, pra fazer com que esta pessoa não queria sair da cabine e ir até a bilheteria brigar por seu dinheiro de volta.

Estes 20 minutos iniciais de A MENSAGEIRA só funcionam por causa da música, não pela trama. E isso é curioso, porque um dos roteiristas, James Edward Barker, também é o compositor do filme.

Muito embora a edição passe bastante dinamismo nessa faixa da minutagem, o grande problema é que a história não avança, não se desenvolve em absolutamente nada nesse ponto. É basicamente como se tivessem colocado mais material logo no início de A MENSAGEIRA pra aumentar minutagem final do produto.

Resumidamente, acompanhamos cinco ocorrências nestes primeiros minutos: Mannings ser capturado e condenado à prisão domiciliar, em Nova York, até sua sentença; Murch sendo escoltado, em Londres, pela Interpol até chegar no prédio em que a perseguição vai acontecer; o júri se reunindo, em Nova York, para aguardar a transmissão do depoimento de Murch; Mannings, no celular, dando ordens a um infiltrado para que cuide da situação e, entre cada uma destas cenas, a Mensageira de Olga Kurylenko pilotando uma moto BMW pelas ruas de Londres, com uma mochila, até chegar ao local do abrigo de testemunhas.

Lendo a descrição dos acontecimentos, você pode achar bastante dinâmico. Mas não é. Na verdade, há uma rebarba muito incômoda em A MENSAGEIRA. Isso por um motivo, era possível fazer com que todas estas cenas, em vezes de 20 minutos, ocupassem apenas 10 – se muito. Porque embora a edição seja bastante dinâmica e a música seja imersiva e cheia de suspense, a sensação que se tem é que a história não anda e que o filme está tentando te enrolar criando tensão onde não há necessidade. Ou seja, enchendo linguiça pra acrescentar mais 10 minutos ao total da película.

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– AQUI VAMOS NÓS. OLHOS ABERTOS, PESSOAL.

As cenas de ação de A MENSAGEIRA são uma gangorra. Ora são cruéis, brutas, impactantes; ora são caricatas, sem intensidade alguma. São mal elaboradas em alguns pontos, mas feitas com maestria em outros. A edição, assim como em GAROTA DA MOTO, ajuda muito nesses acertos. É repleta de cortes e dinamismo, para fazer o público crer que a personagem de Kurylenko seja capaz de derrubar adversários com dobro de sua massa corporal. Ao mesmo tempo, de contrapartida, o roteiro não tenta insinuar que ela seja mais forte que os capangas, mas que é uma sobrevivente, inteligente e que também boa de briga. Ela sente o impacto de cada golpe (um em questão que vai fazer a mulherada se contorcer nas poltronas) e não hesita em mostrar dificuldade em se mexer após certos golpes, o que dá muito realismo nessas cenas.

Por outro lado, há cenas que são tão caricatas (especialmente ao Terceiro Ato), que você não acredita que está assistindo ao mesmo filme que instantes antes te entregou uma cena incrível. Muitos desses problemas são “malandramente” mascarados por conta da atuação intensa de Olga Kurylenko, que não dispensa selvageria em suas ações e na forma de olhar.

Entre uma cena de ação e outra, A MENSAGEIRA apresenta, ainda, mais um problema sério não só de ritmo, mas como também de tom: as cenas de Ezekiel Mannings. Você sabe o que é ter Gary Oldman em seu elenco e fazer com que ele seja a parte mais insossa da história? Consegue perceber o problema disso? Não que a atuação seja ruim, pois de fato não é. Mas é que o personagem é tão cartunesco e mal estruturado, que nem mesmo Oldman se esforçando muito conseguiu extrair alguma tangibilidade do vilão.

Todos estes tropeços de A MENSAGEIRA se devem ao fato de ter tantas mãos assinando o roteiro. E isso é perceptível. É nítido. Dá pra sentir como o tom da narrativa muda drasticamente, várias e várias vezes, ao longo dos 99 minutos da película. Dá pra perceber que cada um dos cinco roteiristas (um deles, o diretor) quis um rumo diferente para essa história. Porque A MENSAGEIRA é um filme sobre uma testemunha que está prestes a destronar um criminoso superperigoso. Como também é um filme sobre uma ex-comando das forças especiais que perdeu o irmão, também comando, e agora busca por um novo rumo, longe de problemas. Também é uma história sobre uma mimada filha de um criminoso que faz de tudo para que o império do pai não caia em ruínas. Além disso, é uma história sobre dois estranhos que ficam presos no estacionamento de um prédio e precisam unir forças para saírem vivos. E, ainda, é uma história sobre um vilão esteticamente preso nos anos 90 que não faz nada além de dar ordens pelo celular enquanto escuta música clássica. Isso sem mencionar que A MENSAGEIRA também é uma tentativa de filme de “espionagem” com gadgets descolados, como armas que reconhecem unicamente as impressões digitais de seus donos, drones equipados com óculos de mira de precisão, capacetes de motociclismo com visão noturna, GPS e velocímetro no visor, com conexão celular via internet, e maletas contendo dispositivos de ponta que soltam gás cianeto.

Consegue ver o problema?

Por mais que seja possível amarrar tantos elementos distintos e sub tramas num mesmo enredo, no caso de A MENSAGEIRA a coisa não funciona tão bem assim, porque cada roteirista quis puxar a corda para um lado abissalmente distinto dos demais. Isso culminou numa colcha de retalhos intermináveis. Porém, não dá pra dizer que A MENSAGEIRA é um filme ruim, porque ainda assim o diretor Zackary Adler conseguiu um bom resultado no final das contas. Bagunçado, mas satisfatório.

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EU SOU SÓ A MENSAGEIRA.
ISSO NÃO É BOM O BASTANTE.

Não são só as cenas de ação de A MENSAGEIRA que são uma verdadeira gangorra, mas os diálogos também. Há trechos em que os diálogos são perfeitos, entregam informações importantes de forma plausível, natural, muito bem arquitetados. Mas há outros trechos em que os diálogos são rasos, chochos, expositivos, e se você somar isso a atuações caricatas então, a coisa só piora. O mesmo vale para algumas atitudes dos personagens. A própria Mensageira mesmo, por exemplo, ora é meticulosa, calculista, ora é boba e porra louca (e não é a única com esse problema de desenvolvimento).

Em outras palavras, A MENSAGEIRA é uma proposta excelente, executada de forma desordeira. Porque os pontos altos são realmente altos, são realmente imersivos, tocantes, empolgantes, contagiante. Mas os pontos baixos são desanimadores, acabam com a imersão narrativa, acabam completamente com a experiência do espectador nestes trechos. É o bom e velho “acerta, erra, acerta, erra” que já falamos aqui no site em outras críticas.

O grande triunfo de A MENSAGEIRA são as atuações de Olga Kurylenko e Amit Shah, principalmente nos pontos altos das cenas de ação, porque definitivamente valem o ingresso. Por outro lado, a maior tristeza é ter dado um papel tão insosso para alguém como Gary Oldman.

Isso é o que acontece quando se tem tantos roteiristas pensando em direções diferentes para uma mesma história. Se isso já é um problema para séries, onde é possível entregar uma quantidade específica de episódios para cada diretor envolvido, quem dirá no cinema, onde se tem uma minutagem muito mais restrita para entregar uma história que precisa ser muito mais impactante.

É realmente uma pena, porque A MENSAGEIRA poderia ter galgado um resultado muito, muito melhor.

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VEREDITO

Dinâmico, visceral, bagunçado e com rebarbas, A MENSAGEIRA é um longa de ação que diverte bem, mas que poderia ter sido muito melhor, se não tivesse tantos roteiristas envolvidos, querendo fins diferentes para os mesmos personagens.

Com algumas figuras caricatas e outras bem escritas, A MENSAGEIRA é uma verdadeira bagunça, um sobe e desce de acertos e erros que continua ao longo da história toda, mas que mesmo assim entrega bons momentos de escapismo e boa diversão a quem assiste.

A MENSAGEIRA já está disponível nos cinemas nacionais, porém não em tantas salas. Não deixe de conferir a programação do cinema mais próximo para ver se o filme está na grade.

Veredito 4 - BOM

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Courier
Lançamento: 28 outubro de 2021
Distribuição: Playarte
Direção: Zackary Adler
Roteiro: Zackary Adler, James Edward Barker, Andy Conway, Nicky Tate, Andrew Prendergast
Trilha Sonora: James Edward Barker, Tim Despic
Edição: Nick McCahearty
Cinematografia: Michel Abramowicz

Elenco: Olga Kurylenko, Gary Oldman, Amit Shah, Alicia Agneson, Greg Orvis, Craig Conway, William Moseley, Dermot Mulroney, Calli Taylor, Lee Charles, Gordon Alexander, Neil Chapelhow, Renars Latkovskis, Al Holland, John Sharpe, Pablo Casillas, Freddie Mason, Dan Fredenburgh, Joel Michaely, Barry Wilson, Jamie Satterthwaite, Dominic Mandy, Michael Fatogun, Ty Hurley, Obie Matthew, Robert Louis Medina, Chris Pearson

Trailer:

A Mensageira | Trailer Legendado

Como sempre enfatizamos: no final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não da obra.

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Muito obrigado e até a próxima.


LLeo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.