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BARRABÁS | CRÍTICA

Era costume do povo judeu, na Páscoa, libertar um criminoso perdoando completamente seus atos. Tão logo, o indivíduo podia retomar sua vida ao que era antes, sem julgamentos – desde que não cometesse novos crimes. E naquela ocasião do século I, um assassino confesso foi levado a público para uma decisão (como tentativa de acalmar uma turba enfurecida): crucificar Jesus de Nazaré, ou conceder a liberdade novamente a Barrabás, o assassino em questão. Você já conhece a história, já sabe o que sucedeu. Barrabás foi solto enquanto Jesus foi crucificado. O que você provavelmente não sabe é o que ocorreu com Barrabás após aquele dia. Não sabe o quanto sua mente tentou buscar respostas por ter sido solto mesmo sendo culpado, enquanto um homem inocente morria em seu lugar. Este é o Plot de BARRABÁS, drama que estreou ontem, quinta-feira, 12 de dezembro, nos cinemas nacionais. Adaptação do Best-seller homônimo escrito por Marie Corelli.

BARRABÁS é uma produção russa que explora, sob uma ótica curiosa, o que aconteceu com o próprio Barrabás depois de sua liberdade readquirida. E a partir daí, o que o espectador encontra não é apenas um drama, mas também um suspense investigativo protagonizado por um homem intrigado com a busca da verdade. Quem, de fato, era aquele inocente que morria em seu lugar? Era realmente o filho de Deus? Realizava os milagres que diziam? Nasceu mesmo de uma virgem? E por que, apesar de inocente, não hesitou em dar sua vida?

Com uma trama enredada e envolvente, BARRABÁS consegue fisgar o espectador logo nos primeiros minutos da película e mesmo com um segundo ato meio arrastado, ainda garante uma boa experiência narrativa. Muito disto se deve não só às ótimas atuações de grande parte do elenco, mas em especial à trilha sonora da obra, que de longe é uma das mais belas já produzidas nos últimos anos. Aliás, a trilha sonora de BARRABÁS é um personagem ativo no enredo.

Nesta crítica, vamos abordar os pontos altos e baixos de BARRABÁS e discorrer sobre como uma boa trilha sonora eleva ainda mais um filme.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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– SE DEUS VIVEU NA TERRA, ERA ELE.

BARRABÁS é um daqueles filmes que te promete pouco, mas entrega muito. E de cara já devo confessar que não esperava lá grande coisa deste título pelos aspectos de sua produção, a julgar pelo que vi no trailer: figurino mediano, locações pouco interessantes, tomadas mais intimistas, efeitos visuais também medianos… Tudo isso evidenciava o baixo orçamento, mas curiosamente, em contrapartida, o mesmo trailer me apresentou uma fotografia bonita, apesar da escolha de algumas das locações, trilha sonora tocante e também uma colorização muito envolvente. Isso me urdiu a ponto de pensar “ok, esse vai ser um daqueles filmes que não chegam a lugar nenhum; daí vai usar a fotografia e o color grading pra tentar compensar a história fraca”. E caro leitor, que muito grata surpresa foi estar errado.

BARRABÁS pode não ser uma produção perfeita. Mas definitivamente não é, nem de perto, o que eu havia especulado negativamente de começo. O filme, na verdade, se aproveita de cada aspecto negativo que mencionei e os utiliza a seu próprio favor durante a narrativa. Claro, o longa apresenta problemas – outros problemas. Contudo, o que mais se destaca de forma positiva em BARRABÁS é como a trilha musical é incorporada na trama. Por esse detalhe, boa parte inclusive dos problemas da construção do personagem principal acabam passando despercebida por quem tiver olhos mais desatentos.

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– SE VOCÊ RECONHECEU DEUS NO HOMEM, VOCÊ TINHA QUE DECLARAR A VERDADE DIANTE DO POVO.
– ELES NÃO ACREDITARIAM EM MIM! DIRIAM QUE EU ESTARIA LOUCO, ME ARRASTARIAM PARA O TRIBUNAL COMO LOUCO.

Durante 12 anos da minha vida eu estudei piano. Minha irmã passou nove anos estudando canto. Nossa família tem um longo histórico com música, tanto por parte de pai, quanto por parte de mãe. São primos, tios, avós… Cantores, instrumentistas, multi-instrumentistas. Gente que toca, até hoje, instrumentos percussivos, instrumentos de cordas, sopro, enfim, músicos e música nunca faltaram em nossas vidas. Minha irmã e eu chegamos a participar de bandas, corais, orquestras, projetos dos mais variados, por vários e vários anos. Talvez por isso, o que eu vá escrever a seguir possa soar como arrogância pra alguns, exagero pra outros, ou mesmo apelo à autoridade a alguns outros, mas o fato é: a trilha sonora de BARRABÁS é uma das mais bonitas que eu já ouvi até a presente etapa da minha vida. É, de longe, uma verdadeira aula de composição. É algo tão incrível que é capaz de te conduzir pela mão ao longo do filme em alguns momentos. Em outros, te envolve, abraça. Além de entregar cada expectativa de resposta emocional que o diretor estreante Evgeniy Emelin queria despertar no público. Só que há algo de muito maior prestigio que precisa ser evidenciado neste texto, que é a forma dificílima como a trilha sonora de BARRABÁS faz isso ininterruptamente. Sim, prezado leitor, a música não para. Ela é constante durante toda a película, o que é fora do comum.

De maneira geral, quando o assunto é “música no cinema”, o que normalmente vemos é a inserção de fonogramas apenas em trechos cruciais da história para ajudar a conduzir o espectador a certas respostas emocionais. Sendo mais claro, a música é utilizada quando o diretor quer que o público sinta algo num determinado momento, por um determinado espaço de tempo. Seja alegria, euforia, desejo, ódio, nojo, tudo vai depender do que estiver em cena naquele exato instante. O trabalho do compositor é auxiliar o diretor a ativar essas emoções, pelo tempo determinado, da melhor maneira possível. E isso, caro leitor, não é nada fácil. Mas o que temos em BARRABÁS é algo que vai além. As composições de Kirill Belorussov, Aleksandr Kendysh, Aleksandr Knyazev e Oleg Saksonov não param um instante sequer. Na verde, elas param. Quando há um corte na trama, que culmina em uma ou outra “tela preta”. Só que não se trata do fim de uma música, mas de uma pausa entre os atos do que seria uma sinfonia. Realmente lindo.

A coisa toda é tão impactante, do ponto de vista técnico, que quanto mais eu paro pra pensar, mais me admiro. Porque BARRABÁS tem uma trilha sonora que atua junto aos personagens, conduz, acompanha, envolve, acalenta, sofre, deseja. Basicamente um personagem da história. Dá pra dizer, inclusive, que a trilha sonora de BARRABÁS não “está”, ela é, porque não apenas desperta/aciona emoções em quem assiste, mas também expressa estas mesmas emoções, como se estivesse ali com os personagens da história, vivendo cada segundo ao lado deles. Sentindo com eles.

A música no cinema teve dois grandes marcos históricos, com nomes que cravaram lugar de destaque entre um mar de compositores talentosos. São eles, John Williams e Hans Zimmer. O primeiro é famoso pelas icônicas trilhas temáticas, marcantes, que são tão épicas e únicas que dificilmente se esquece de alguma de suas melodias. Já o segundo é famoso por construir ambiência como nenhum outro compositor jamais conseguiu, mesclar sonoridades exóticas dos mais diversos instrumentos e efeitos sonoros para dar vida a obras que visem impacto pela grandiosidade. São propostas distintas, experiências distintas, ambos com currículos incríveis no que diz respeito a trilhas para grandes filmes. Ainda assim, não vemos nestes currículos filmes em que a música foi contínua, do início ao fim da película. O que comumente ocorre é adicionar música em momentos específicos. Só. Diálogos mais expositivos, por exemplo, normalmente não recebem inserções musicais. Cenas de quebra de expectativa, comuns em comédias, também não recebem inserções musicais geralmente. Claro, há suas exceções. Mas BARRABÁS vem na contramão dessa técnica e acerta em cheio.

É como se as composições de BARRABÁS fossem pensadas para acompanhar uma jornada, de maneira meticulosamente planejada. Praticamente uma ópera. Dando espaço para cada diálogo, cada intenção, interação, construção de clímax, cada avanço narrativo, cada conflito… De maneira ininterrupta e natural. Você não percebe as mudanças bruscas de motivo na trilha, pois elas caminham naturalmente com o enredo. Do ponto de vista técnico, tanto do aspecto cinematográfico, quanto do musical, isso é, no mínimo, impressionante e absurdamente difícil de executar.

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– ME LEVE EMBORA DAQUI, E EU TE DAREI MUITO AMOR…

Quando BARRABÁS faz uso de tomadas mais intimistas não é por acaso. Na verdade, essa decisão torna a experiência narrativa ainda mais imersiva e pessoal para o espectador. Porque o espectador não passa a apenas acompanhar Barrabás em sua busca por verdade, mas passa a sentir Barrabás e o peso de suas escolhas, de como elas o levaram àquele ponto. Isso funciona. Muito bem, aliás.

Mas como nem tudo são flores, BARRABÁS tem um problema sério com seu protagonista. Durante parte do primeiro ato e quase que a totalidade do segundo, Barrabás (Pavel Kraynov) se transforma num protagonista passivo, não ativo. O que quer dizer que não é ele quem puxa a história, mas é puxado pela mesma. Nós já comentamos sobre o problema de protagonistas passivos em outra crítica. Basta clicar aqui pra ler.

O mau de um protagonista passivo/reativo é que não é ele quem quer estar, buscar, enfrentar, decidir, fugir, questionar e etc. Mas sim é comandado a. É um tipo de personagem que não tem atitude própria. Só está aonde deveria estar porque o roteiro quer que esteja. Nunca há um real motivo pessoal deste tipo de protagonista com suas metas. E se não há interesse do protagonista em atingir seus objetivos (sejam elas quais forem), qual o motivo da história? Mas em BARRABÁS a coisa é pior, porque o longa se trata também de um suspense investigativo, em que nos é apresentado este sujeito chamado Barrabás que quer, a todo custo, descobrir a verdade sobre a vida do homem que morreu em seu lugar. Consegue perceber o problema? Se Barrabás quer tanto encontrar respostas, por que diabos não toma atitude e vai atrás delas? Se é um suspense investigativo, por que Barrabás não se propõe, por conta própria, a investigar as coisas? Por que é sempre outro personagem quem diz “vá até”, “converse com”, “pergunte por”, “procure por”, “se afaste de”, “apareça em”? E mais: se as respostas são a meta dele, mas ele não se move para alcança-las, a impressão que é passada é a de que esta história não tem necessidade de ser contada. Ora, por que eu vou me dar ao trabalho de escrever uma história aonde o protagonista não quer atingir suas metas, solucionar seus problemas? Pior: por que o público assistiria algo do tipo?

Verdade seja dita, na outra parte do primeiro ato e na totalidade do terceiro, Barrabás volta a ser um protagonista ativo e retorna a puxar a trama. O problema é que durante seu desenvolvimento, o segundo ato inteiro perde o ritmo. Fica arrastado. E mesmo com um final muito bom, uma boa retomada de protagonismo do protagonista, ainda assim o espectador sente que Barrabás perdeu seu propósito no decorrer da trama. Curiosamente, este é um dos poucos problemas que a trilha sonora não consegue tapear.

Um exemplo de como as composições auxiliam a mascarar problemas em BARRABÁS pode ser notado em boa parte das cenas com a atriz Regina Khakimova, que interpreta Judite Iscariotes. A personagem é dissimulada e chega até mesmo a ter alguns delírios. Por conta disso, há momentos em que a atuação de Khakimova soa forçada, porque são mudanças muito bruscas, mas ainda assim você acaba aceitando tudo aquilo, com naturalidade, por conta da competência do trabalho dos compositores que conseguem criar a ambiência perfeita, com uma naturalidade incrível e novamente te levam a ativar a resposta emocional desejada pelo diretor.

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– É UM CRIME EXECUTAR UM INOCENTE.
– NÃO É UM CRIME SE A MAIORIA DESEJA. E MATAR INOCENTES É UM PRAZER PARA OS PECADORES.

Aproveitando o link das atuações de BARRABÁS, outro ponto alto a ser considerado é o ótimo uso de vários personagens na trama, agregando relevância para todos eles, cada qual a seu momento, de maneira bastante natural.

BARRABÁS é uma obra que se destaca positivamente pela forma como o roteiro dá espaço e importância para muitos personagens. Você consegue ir conhecendo eles aos poucos, cada vez mais. Conforme a narrativa avança, novas situações vão surgindo, criando abertura para novas interações, o que funciona muito bem.

Em BARRABÁS a trama não coloca personagens apenas para dar espaço de tela, não. Ela cria relevância dentro do contexto da obra para a inserção de novos olhares, novas conversas, novos pontos de vista, novos ouvidos. Como se não bastasse, BARRABÁS ainda entrega a estes indivíduos uma participação também na trilha sonora. É incrível. A forma como a música em BARRABÁS abraça e abrange absolutamente tudo é realmente incrível. Como comparado alguns parágrafos acima, é praticamente uma ópera.

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VEREDITO

Corajoso, interessante, tocante, com problemas estruturais atrelados às vontades do protagonista, mas com uma trilha sonora tão ousada e abalizada que consegue disfarçar boa parte dos problemas, BARRABÁS é uma produção que definitivamente merece atenção e destaque, tanto pela competência em diversos aspectos técnicos, quanto pela proposta do filme si.

Com um elenco bastante capacitado, em sua maioria, e um roteiro mais assertivo do que negativo, BARRABÁS entrega uma experiência narrativa de boa qualidade ao espectador, envolta numa melodia belíssima que acompanha o protagonista e demais personagens numa jornada em busca da verdade. Mais do que isso, a melodia não só acompanha como também se desenvolve com eles.

Apesar dos problemas apresentados nesta crítica, BARRABÁS está muito longe de ser uma produção ruim, tampouco se esconde completamente atrás da música. O fato é que as composições de BARRABÁS são algo tão ímpar que se destacam em muito. E ao mesmo tempo em que se destacam, carregam consigo todo o enredo de uma maneira singular. A trama é muito bem escrita e contém mais acertos do que erros, embora estes erros existam – e um deles inclusive acarrete um problema grave durante todo o segundo ato. Ainda assim, BARRABÁS é um bom filme.

Indiferente de sua crença, seja você ateu, cristão, agnóstico, espiritualista ou mesmo alguém que professe outra fé, aqui fica o convite para que você vá ao cinema e dê uma chance a BARRABÁS. Quem sabe você pode gostar…

Veredito 4 - BOM

FICHA TÉCNICA

Título Original: Varavva (Bapabba)
Lançamento: 12 de dezembro de 2019
Distribuição: A2 Filmes
Direção: Evgeniy Emelin
Roteiro: Evgeniy Emelin
Trilha Sonora: Kirill Belorussov, Aleksandr Kendysh, Aleksandr Knyazev, Oleg Saksonov
Edição: Roman Koshelev, Artem Rybakov

BARRABÁS é uma adaptação do Best-seller homônimo de Marie Corelli.

Elenco: Regina Khakimova, Pavel Kraynov, Zalim Mirzoev, Laptii Oleksandr, Elena Podkaminskaya, Konstantin Samoukov, Sergey Sanaev

Trailer:

Barrabás - Trailer (Legendado)

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.