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BLOODSHOT | CRÍTICA

Ray Garrison é um soldado de elite do exército americano. Impulsivo e autoconfiante, acaba capturado em uma emboscada após uma missão bem sucedida. Durante o interrogatório, os terroristas matam Gina, sua esposa, e em seguida o matam. Ray então acorda de um coma, em um laboratório de alta tecnologia, onde lhe explicam que foi trazido a vida novamente, que agora tem força, agilidade e resistência sobre-humanas, além de um sistema nano tecnológico que funciona como fator de cura. Ray vê nisso uma oportunidade de acertar as contas com o homem que matou sua esposa, mas logo percebe que a realidade pode não ser tão simples assim. Este é o Plot de BLOODSHOT, longa de ação estrelado por Vin Diesel, Eiza González, Toby Kebbell e Guy Pearce. Dirigido por Dave Wilson, distribuído pela Sony Pictures, que estreou ontem, 12 de março nos cinemas brasileiros.

BLOODSHOT é um personagem dos quadrinhos da Valiant Comics, o que quer dizer que este pode ser o início de um VCU (Valiant Cinematic Universe). Tudo depende da aceitação do público, de como os fãs da Valiant, fãs de HQs, fãs de filmes de heróis vão reagir a BLOODSHOT.

De cara, já dá pra dizer: o filme é muito bom. Não é perfeito. Tem problemas, que serão abordados aqui, mas ainda assim é muito bom. Bom desenvolvimento de trama, ótimas cenas de ação, bom uso de estilo, edição de cair o queixo, trilha sonora impactante, bom uso de clichês, alguns efeitos visuais muito, muito bons – outros nem tanto… Tudo ia bem na cabine de imprensa, até os problemas de lógica começarem a surgir. Erros lógicos com os vilões, com o próprio Bloodshot/Ray Garrison em si… Desarranjos que não têm como ignorar, justamente por causarem estranheza. E por esse motivo, BLOODSHOT não atinge o patamar de “ótimo”, mas apenas de “muito bom”.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de BLOODSHOT e discorrer erros lógicos prejudicam o desenrolar de um filme, bem como o apelo ao estilo visual ajuda a mascarar diversos destes problemas e balancear o produto final.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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-NÓS ESTAMOS NA LIDERANÇA DO MAIOR AVANÇO HUMANO DA HISTÓRIA.

Quando o assunto é “herói”, ou melhor, “cinema de heróis”, há um fundamento básico que necessariamente precisa ser seguido para que o filme seja memorável, fique marcado na lembrança do público por anos a fio. É uma regra bem simples: todo bom Protagonista precisa de um bom Antagonista. Simples. O problema é que nem sempre isso é levado em conta. Muitas vezes, diretores e roteiristas se perdem por não considerarem um detalhe, Oposição Temática.

Nós já abordamos aqui, diversas vezes, em diversas críticas, o que é Tema, mas só pra deixar o assunto um pouco mais fresco em sua memória, vamos recapitular rapidamente. Tema e Enredo são coisas distintas. O Enredo é do que a História fala, quais metas os personagens vão tentar atingir, quais dilemas e conflitos vão enfrentar pra atingir essas metas. Já o Tema é a mensagem que vai ser passada através do Enredo, como também é, em muitos casos, a “bússola moral” que norteia o Protagonista e o Antagonista em direções opostas, ligando e motivando todos os acontecimentos e decisões dos adversários. É daí que temos a Oposição Temática, que é a colisão entre as crenças e vontades do Protagonista com as do Antagonista.

Em BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008), por exemplo, o Tema é “Trazer Ordem à Gotham”. Isso é bem fácil de perceber, porque todas as motivações do Cavaleiro das Trevas partem dessa premissa.  Logo, Batman representa “Ordem”. O Coringa, por sua vez, como bem dito pelo próprio no longa é “o agente do caos”, algo que também é fácil de assimilar, pois todas as atitudes do Coringa são unicamente projetadas para transformar Gotham na verdadeira definição de caos. Logo, Coringa representa “Caos”. Assim, temos a nossa Oposição Temática. Ordem VS Caos. Tema VS Anti-Tema. E quanto mais forte essa Oposição, maior o conflito e mais cativante a história. Em outras palavras, Protagonista e Antagonista necessariamente precisam defender lados opostos da mesma moeda para que o conflito entre eles seja crescente, constante e impactante. Sem isso, o embate entre os personagens fica chocho, sem sentido. Exatamente o que acontece em BLOODSHOT.

Verdade seja dita, embora BLOODSHOT apresente coreografias de lutas e ação de encher os olhos, ainda assim existe um problema muito, mas muito sério com os vilões da película, eles não têm Oposição Temática ao herói. Aliás, um deles praticamente quer a morte de Bloodshot porque o acha chato. Sim, você não leu errado. Não há conflito ideológico, não há choque de realidades, crenças, anseios, nada. O personagem que mais quer a morte de Ray Garrison simplesmente assim deseja por não ir com a cara dele, sem nenhum outro motivo sequer. Esse problema de lógica incomoda bastante, porque uma coisa é o Protagonista defender um ideal que vá na contramão do que o Antagonista acredita, ou mesmo fazer o Protagonista causar direta ou indiretamente algum mal ao Antagonista; outra coisa é criar um ódio cego, sem fundamento, sem motivação alguma e atrelar isso ao Antagonista. Isso não só torna o vilão fraco, como também esquecível.

O grande problema de agir assim é que fazendo isso, nenhum dos personagens têm um obstáculo a superar. E o que torna um filme de heróis algo memorável é justamente o choque entre “uma força incontrolável contra um objeto irremovível”, é o duelo não só físico, mas ideológico entre herói e vilão. Ambos tendo o que sobrepujar, como no exemplo de BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS, mais acima. Para que o plano do Coringa de instaurar o absoluto caos em Gotham funcione, ele precisa primeiro superar os constantes esforços de Batman de tornar Gotham um lugar onde a ordem paire. E não só isso, precisa superar a força de vontade do Batman. Assim, o contrário também é verdadeiro. Para que Batman reestabeleça a ordem em Gotham ele precisa superar os esforços do Coringa de fazer a cidade virar um antro caótico.

Mas em BLOODSHOT o que nós presenciamos é um vilão que não esboça motivo algum para querer a morte do adversário. O espectador não sabe se em algum momento houve qualquer evento que pudesse justificar tamanho desprezo, como também não é mostrado o passado do Antagonista sequer para criar algum motivo ou gatilho, por menor que seja, para estabelecer o desdém por Bloodshot. E assim, caímos novamente no famigerado Show Don’t Tell (Demonstre, Não Diga) que tanto já explicamos em tantas críticas aqui no site. Uma coisa é a audiência VER o motivo pelo qual o criminoso detesta Garrison; outra coisa é o roteiro DIZER para o público que o malfeitor não gosta de Garrison. Isso além de criar um obstáculo inexpressivo para o Protagonista, ainda estabelece um Antagonista birrento.

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-A TECNOLOGIA CORRENDO NAS VEIAS DELE AUMENTA SUA FORÇA, SEUS REFLEXOS, ATÉ SUA CAPACIDADE DE CURA. ELE É DIFERENTE DE TUDO QUE JÁ VIMOS ANTES. E ESTÁ INTEIRAMENTE SOB NOSSO CONTROLE.

Os problemas de lógica de BLOODSHOT não param por aí. O próprio personagem título também caminha pela corda bamba dos erros lógicos, como quando é ressuscitado e lhe explicam que agora possui habilidades sobre-humanas. Garrison aceita o fato de voltar do mundo dos mortos com pouquíssima relutância. E por “pouquíssima relutância” quero dizer “só levantou as sobrancelhas e disse ‘ok’”.

Em uma crítica recente abordamos os problemas se de ter um Protagonista que não segue a lógica do funcionamento das emoções. Pra ler a crítica basta clicar aqui.

Basicamente, indiferente do gênero ou subgênero cinematográfico, os personagens precisam seguir a lógica das emoções, pois precisam se conectar emocionalmente com os espectadores. Até mesmo o Capitão Spock precisa passar pela mesma lógica para saber identificar as emoções e só então suprimi-las. Com BLOODSHOT não pode ser diferente. Se este princípio lógico não é respeitado, todas as ações e motivações de um personagem passam a não fazer sentido. Exemplo? Qual o sentido de acreditar rapidamente que se é basicamente um morto-vivo de alta tecnologia e não se importar em ter seu corpo violado, mas ficar enfurecido ao lembrar do homem que assassinou sua esposa? Ora, se você não liga para a própria vida, para o que fazem com seu corpo, porque vai se importar com o sentimento que tinha por uma mulher que não está mais viva? Percebeu? Se a regra vale pra um, precisa valer pro outro.

Além disso, com Bloodshot também temos o Show Don’t Tell se fazendo presente, pois os tais Nanits, nano robôs que substituem seu sangue, não apenas lhe conferem um fator de cura, como também permitem certas habilidades de hacking. Isso é bacana. É uma ótima ideia e até faz sentido no contexto da trama. O problema é que o público não vê essas habilidades de hacking do ponto de vista do personagem de Vin Diesel, mas do ponto de vista do Dr. Emil Harting e sua equipe. Ou seja, o espectador não presencia o que acontece com a mente de Garrinson, com seus olhos, seus sentidos, quando esta habilidade é ativada. Nada. Sequer é mostrado como Garrison descobre que tem essa habilidade. O que o espectador vê é a tela dos computadores do cientista que transformou Garrison em Bloodshot e as telas dos computadores de sua equipe, unicamente pra jogar diálogos expositivos a quem assiste. Novamente, em vez de MOSTRAR o que acontece na cabeça e no corpo de Garrison, o roteiro DIZ o que está acontecendo, cortando a experiência imersiva da plateia.

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-O QUE ACONTECEU? O QUE EU TÔ FAZENDO AQUI?
-VOCÊ FOI MORTO. E GANHOU UMA SEGUNDA CHANCE.

Agora você deve estar se perguntando como é possível um filme com esses erros ainda ser classificado aqui no site como “muito bom”, certo? Pois bem, isso é o que eu chamo de “Efeito 300”. Basicamente, quando uma película tem problemas de lógica, erros narrativos, ou até mesmo a completa ausência de um Plot, mas ainda assim é visualmente tão competente, envolvente, tão estimulante aos olhos, com um esmero tão impressionante no que tange cinematografia e edição, temos aí o tal “Efeito 300”. Pois se pararmos pra analisar, vamos perceber que 300 (2006) não é lá uma produção que apresente uma história muito bem elaborada. É uma trama simples de um grupo de soldados que marcha para a encosta de uma montanha e fica ali, enfrentando horda após horda de inimigos sem nome. Só que o trabalho visual, o apelo visual de 300 é tão impressionante que você simplesmente ignora a ausência de Plot, os diálogos rasos e unidimensionais, o desenvolvimento arrastado… Você ignora tudo isso, pois seus olhos ficam completamente imersos na estética criada por Zack Snyder naquele filme. As cores saturadas, luz e sombra, câmeras lentas, foco e desfoque… Tudo isso pode ser descrito com uma única palavra, Estilo.

BLOODSHOT bebe da mesma fonte que 300 e nos presenteia com uma estética, um Estilo hipnotizante. Muitas vezes, dá até pra dizer que o diretor Dave Wilson e o cinematografista Jacques Jouffret se inspiram no trabalho de Snyder em 300, em diversos aspectos. A forma de usar as câmeras lentas para aumentar o impacto narrativo de uma cena e torná-la ainda mais entusiasmante; as cores saturadas na hora das lutas, a escolha dos ambientes aonde essas mesmas lutas vão acontecer para fazer sentido a saturação das cores e tornar a ação ainda mais instigante aos olhos; o uso sutil do foco e do desfoque a fim de transmitir mais detalhes e informações não verbais ao público… Todos esses pormenores foram meticulosamente planejados para tornar BLOODSHOT em uma experiência visual ímpar. Um verdadeiro apelo aos olhos da plateia. Tudo isso alinhado a uma trilha sonora tão brutal quanto as cenas de ação e uma edição dinâmica e envolvente. Essa é a formula do sucesso do que eu chamo de “Efeito 300”.

Verdade seja dita, as cenas de ação de BLOODSHOT não são 100% perfeitas. Há cenas que poderiam ter sido melhor construídas, melhor filmadas. Bem como há momentos em que o CGI poderia ser bem melhor. Aliás, BEM melhor. Só que ainda assim, no todo, BLOODSHOT consegue funcionar bem, mesmo com esses problemas, porque o trabalho do editor Jim May é de tirar o chapéu. E mesmo em meio a tanta informação sendo exibida na telona de maneira rápida, May consegue fazer o espectador entender direção, quantidade, intensidade, impacto, dor, emoção, timing, vontade.

BLOODSHOT está longe de ser um filme perfeito. Há ainda outros problemas com outros personagens e com o próprio Bloodshot, mas que pra não entregar muitos Spoilers não vou entrar no mérito. Contudo, ainda assim, BLOODSHOT consegue entreter e levar o público ao escapismo que tantos gostam. Resta saber se os fãs de filmes do gênero vão gostar da proposta do filme e sinalizar para a Sony Pictures se vale a pena investir em mais título da Valiant Comics.

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VEREDITO

Bruto, dinâmico, divertido, com problemas de lógica na estrutura do Protagonista e seus Antagonistas, mas ainda assim visualmente hipnotizante, BLOODSHOT é uma aposta que pode ser frutífera para a Sony Pictures e a Valiant Comics, pois pode significar o início de um novo universo cinematográfico de heróis porradeiros.

Com pontos a melhorar para uma possível continuação, BLOODSHOT é um personagem que tem futuro nas telonas, só precisa de alguns pequenos ajustes aqui e ali para ficar ainda melhor. Claro, tudo depende do público pagante. No final das contas, quem manda é o espectador.

BLOODSHOT já está em exibição nos cinemas brasileiros.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Bloodshot
Lançamento: 12 de março de 2020
Distribuição: Sony Pictures
Direção: Dave Wilson
Roteiro: Jeff Wadlow, Eric Heisserer
Trilha Sonora: Steve Jablonsky
Edição: Jim May
Cinematografia: Jacques Jouffret

BLOODSHOT é um personagem das HQs da Valiant Comics. Criado por Kevin VanHook, Bob Layton e Don Perlin.

Elenco: Vin Diesel, Eiza González, Sam Heughan, Toby Kebbell, Talulah Riley, Guy Pearce, Alex Anlos, Clyde Berning, Jeremy Boado, Tamer Burjaq, Siddharth Dhananjay, Alex Hernandez, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Patrick Kerton, Michael Kirch, Ryan Kruger, Tyrel Meyer, Lamorne Morris, Maarten Römer

Trailer:

BLOODSHOT | TRAILER OFICIAL LEGENDADO | 12 DE MARÇO NOS CINEMAS

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.