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CARTA REGISTRADA | CRÍTICA

No Cairo, capital do Egito, Hala e seu marido levam uma vida modesta. Pais de primeira viagem, ainda tentam se adequar à nova rotina com a filha de colo. Mas a recente morte do pai de Hala a leva em direções sombrias e pensamentos suicidas. Como se não bastasse, seu marido ainda é preso por um erro burocrático no banco em que trabalhava. Em meio a esse caos, reunindo forças para se manter viva e sã, algumas cartas misteriosas começam a aparecer na porta de Hala e podem dar um novo significado aos acontecimentos. Este é o Plot de CARTA REGISTRADA.

CARTA REGISTRADA é o trabalho de estreia do diretor Hisham Saqr, também responsável pelo roteiro e edição do longa. Trata-se de um Filme Contemplativo (Slow Cinema), recheado de cenas com poucas e até nenhuma fala, tomadas longas, dando destaque ao desconforto das interações humanas, solidão e traumas. Levando o espectador a uma jornada pela monotonia do cotidiano, onde não há heróis, vilões, superpoderes, explosões, perseguições de carro, tiroteios… Tampouco assaltos mirabolantes. É na verdade uma produção lenta, que obriga a audiência a colocar o pé no freio para entrar na história e acompanhar os personagens no ritmo deles, não o de Hollywood.

Por essa característica de Slow Cinema, CARTA REGISTRADA não pode ter seu compasso analisado da mesma maneira que os Blockbusters, mas curiosamente neste caso teremos de analisar o ritmo de CARTA REGISTRADA porque há um problema sério com ele. E este problema se estende ao Plot, corroendo toda a estrutura narrativa da película.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de CARTA REGISTRADA e discorrer como o mau uso da Arma de Chekhov pode decrescer o impacto de um filme.

Diferente das demais críticas aqui do site, esta contém spoilers. Não muitos, mas um em particular que basicamente alicerça o enredo.

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-COMO VOCÊ ESTÁ, MÃE?
-SUA IRMÃ ESTÁ ME DEIXANDO LOUCA, HALA.

Slow Cinema não é para qualquer pessoa. É um gênero bastante seletivo em sua audiência. O ritmo pouco cadenciado dos acontecimentos e a ausência de diálogos tende a parecer tedioso para quem é acostumado a explosões, tiros, uniformes, pancadaria… E mesmo podendo oferecer ótimas histórias ao espectador novato que se aventura por esse gênero, é preciso ter em mente que paciência é um pré-requisito na hora de consumir esse tipo de produção. Assim sendo, CARTA REGISTRADA segue a mesma cartilha. Acontecimentos focando o cotidiano, o rotineiro, personagens imersos em conflitos internos e externos, conversas pontuais que não necessariamente ligam os acontecimentos, mas servem para estabelecer ainda mais dramas, poucas risadas, poucos momentos felizes. É como se uma aura de incerteza e tristeza pairasse sobre o longa, o que faz o processo de imersão bastante eficiente mesmo sendo lento. Porque todo esse pesar acaba fisgando o público e fazendo relacionar as hipérboles da película com momentos angustiantes da própria vida, levando este mesmo público a imaginar como os protagonistas vão sair daquela situação.

CARTA REGISTRADA conta com atuações muito assertivas e bem dirigidas para a propostas. Em nenhum momento os conflitos soam caricatos ou rasos. Basma, que interpreta Hala, transmite bem os dilemas vividos por sua personagem. E toda a tristeza que Hala carrega consigo é nitidamente transmitida pelos olhos da atriz. O mesmo pode-se dizer de Passant Shawky, que interpreta Mona, prima de Hala. A relação entre ambas é também um ponto interessante do enredo, que explora bem como uma amizade duradoura pode ser abalada por discordâncias pessoais.

Com estes pontos positivos recebendo destaque, já pode-se concluir que CARTA REGISTRADA, dentro da proposta de um Filme Contemplativo, tende a ser um bom filme. E de fato não é ruim. Contudo, também não chega a ser um marco da dramaticidade por um detalhe: as cartas. Sendo ainda mais específico, a primeira carta.

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-ELA MEU DEU 8 MIL, E EU COLOQUEI NO CHEQUE COMO 80. DEI UM RECIBO NO VALOR DE 80.
-QUE DROGA, KHALED. O QUE VAMOS FAZER?
-NÃO SEI.

Nem só de boas atuações e dramas tangíveis se faz um bom filme. E CARTA REGISTRADA demonstra isso expondo um problema que já abordamos diversas vezes em várias críticas aqui no site: o mau uso do princípio narrativo da Arma de Chekhov. Para ler mais a respeito do assunto é só clicar aqui.

Em resumo, tudo o que é estabelecido, precisa ser utilizado. Todos os elementos que são apresentados em um filme precisam ter serventia, ou para mover a história, ou para desenvolver personagens. Se algum elemento introduzido no enredo não serve a nenhum desses dois propósitos, este não deveria estar ali. É disso que se trata o princípio da Arma de Chekhov. E em CARTA REGISTRADA temos este problema justamente com o item que, de acordo com o trailer, motiva a história: a carta.

Um dos problemas de CARTA REGISTRADA é que a carta não movimenta o Plot para lugar nenhum, tampouco desenvolve personagens. Você até tem um ou outro diálogo curto a respeito das cartas (e agora falando no plural), mas nenhum destes interfere na forma como os envolvidos na trama de CARTA REGISTRADA passam a agir. Hala não muda a forma de ver o mundo, não muda de atitude com relação a si mesma ou aos que estão envolta, não evolui em sentido nenhum. Ela até tem uma atitude (responder uma das cartas), mas que por si só não evidencia amadurecimento, aprendizado, desenvolvimento, nada. É uma falsa promessa. E pior: é uma falsa promessa já partindo do trailer, afinal quem nos diz que a(s) carta(s) carrega(m) importância é o trailer e a sinopse. Inclusive, o primeiro parágrafo desta crítica é baseado no que a sinopse e trailer prometem, não no que a película entrega.

Por mais imersiva e intrigante que seja a trama de CARTA REGISTRADA (e de certo é), o fato de apresentar ao espectador que as cartas que Hala recebe são a força motriz do longa gera uma frustração muito grande, neste mesmo espectador, ao perceber que na verdade tais correspondências não levam a história para canto nenhum.

As intempéries vividas por Hala não mudam em função da chegada dos manuscritos. Todos os problemas que a protagonista poderia viver no longa já estavam estabelecidos antes da chegada das cartas. E após as mesmas a vida dela não se torna mais fácil também. Então, sendo assim, qual o motivo das correspondências? A que propósito elas serviram? Hala até se mostra sorridente ao final da obra, mas “sorridente” não é sinônimo de “mudança”, “amadurecimento”, “aprendizado”, “nova perspectiva”. Não, “sorridente” só quer dizer que Hala esboçou um sorriso, até porque nós não vemos a protagonista se desenvolver em absolutamente nada.

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COMO VOCÊ ESTÁ? ESCREVO MESMO ESTANDO CHATEADA POR NÃO SE IMPORTAR MAIS COMIGO. ESTIVE PENSANDO EM VOCÊ, ENTÃO DECIDI MANDAR. AS COISAS ESTÃO INDO BEM PARA MIM, MAS… É A MESMA LUTA DIÁRIA DA MINHA MÃE DOENTE E OS PROBLEMAS DO TRABALHO.

O segundo problema de CARTA REGISTRADA é o momento em que Hala se depara com o primeiro manuscrito. Sendo mais específico, a minutagem em que esta primeira carta aparece: precisamente aos 58 minutos do filme. E se você já é um fã de carteirinha de Slow Cinema, como este que vos escreve, talvez se pergunte:

--Ué?! Mas qual o problema? É uma história experimental, de ritmo propositalmente lento. Não é um Blockbuster de Hollywood dirigido pelo Michael Bay.

E eu concordaria com essa observação, não fosse um pequeno problema: não estamos falando de um longa-metragem de duas horas, duas horas e meia, quiçá três horas de história. Não, estamos falando de uma produção de uma hora e trinta e cinco minutos de duração. Ou seja, após a primeira carta aparecer no caminho de Hala, só temos mais 37 minutos de enredo, para no final de tudo não fazer a menor diferença nem as cartas, nem o que estava escrito nelas. Consegue perceber o problema?

CARTA REGISTRADA é uma película de uma hora e trinta e cinco minutos, que faz a promessa de que cartas vão causar impacto na vida da protagonista, mas só estabelece essas correspondências a partir de praticamente uma hora de cronômetro e, pior, no final das contas os escritos não apresentam nenhuma utilidade para a história porque não mudam em nada os dramas da protagonista. Nem para melhor, nem para pior.

O que dá a parecer em CARTA REGISTRADA é que o diretor e roteirista Hisham Saqr não acreditou que um enredo sobre a prisão injusta de um pai/marido e os dilemas diários de uma mãe/esposa fosse suficiente para a produção de um filme e decidiu adicionar um elemento misterioso (as correspondências) para fazer de CARTA REGISTRADA algo mais intrigante. O problema é que justamente a simplicidade do roteiro sem o elemento das escrituras já era perfeito para um Filme Contemplativo de boa qualidade, intrigante, envolvente e misterioso. Totalmente focado no rotineiro, no cotidiano, sem apelos.

CARTA REGISTRADA tinha tudo para ser um ótimo Slow Cinema… Se o elemento principal da proposta do Plot tivesse serventia ao mesmo.

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VEREDITO

Envolvente, interessante, com boas atuações, mas um péssimo uso do princípio da Arma de Chekhov, CARTA REGISTRADA é uma película que poderia ter despontado melhor experiência narrativa ao espectador se tivesse apostado na simplicidade do cotidiano – e só nesta – em vez de se valer de um elemento fantasioso/misterioso que não move a história, tampouco desenvolve personagens.

Apensar dos pontos negativos apresentados neste texto, CARTA REGISTRADA não é necessariamente ruim. É uma produção regular que pode agradar os fãs de Filmes Contemplativos em alguns aspectos.

CARTA REGISTRADA estreou nos cinemas nacionais na última quinta-feira, 19 de dezembro e ainda está em cartaz. Meu conselho? Vá ao cinema e tire suas próprias conclusões.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Certified Mail
Lançamento: 19 de dezembro
Distribuição: A2 Filmes
Direção: Hisham Saqr
Roteiro: Hisham Saqr
Trilha Sonora: Ahmed Saleh, Ahmed Mostafa Saleh
Cinematografia: Mostafa Sheshtawy
Edição: Hisham Saqr

Elenco: Basma, Mohamed Sarhan, Passant Shawky, Rafal Abdel Kader.

Trailer:

Carta Registrada - Trailer

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.