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LEPOP - CRONICANDO - O DIÁRIO DO BARDO - PARTE I

CRONICANDO | O DIÁRIO DO BARDO – PARTE I

Eu já sabia que o dia seria longo, afinal, viajar tamanhas distâncias em tão pouco tempo se provava um desafio mesmo pra mim que estou acostumado a essa vida corriqueira. Mas pelo menos durante essa tarde eu havia prometido a mim mesmo que descansaria e aproveitaria o dia na metrópole.

A taverna era um tanto quanto agradável, mas ao mesmo tempo que a cerveja era servida bem gelada, o falatório dos inconvenientes aquecia o clima dentro do local de 15 em 15 minutos. Soa terrível, uh? E com certeza era… Até mesmo a música seria mais agradável se não tivesse de escutar entre os solos do alaúde e o ritmo do tambor, os gritos de homens já de meia-idade ofendendo as mães uns dos outros.

Eis que o esperado ocorre. Um anão sentado em uma mesa solitária, há uns 3 passos longos de distância, parece se irritar com as ofensas gratuitas que restaram a ele. E apesar de ter sobrado pra mim também, bom… Pelo menos sou uma pessoa pacífica.

E conforme a música se agitava, passou por um palmo de distância da minha cabeça um caneco de cerveja. Antes que eu pudesse virar o pescoço pra encontrar o alvo, ele já tinha se estilhaçado em alguém. Disso em diante foi uma escalada bem rápida até os guardas de fora da taverna notarem a gritaria anormal e entrarem pra colocar tudo em ordem.

A essa hora já estavam pelo menos uma dúzia de cadeiras quebradas, e uma ou outra mesa revirada. Sentei no chão próximo ao balcão enquanto assistia aquelas cenas cômicas de gnomos sendo arremessados e velhotes se socando sem fim. Os guardas já estavam amenizando a situação quando duas crianças adentram correndo as portas entreabertas do local de conflito e gritam:

“EXECUÇÕES NA PRAÇA! GENERAL BALLY VAI PUNIR OS DESERTORES!!”

Soou como uma história pronta aos meus ouvidos. Desertores, execuções, um general ditador? Parece que essa cidade tem muito mais a oferecer do que eu esperava quando entrei nesses sórdidos muros.

E assim como eu gostei de escutar, os brigões sanguinários que se levantavam da pancadaria, já iam logo limpando o sangue da boca e a sujeira das vestes e corriam como um bando em direção a tal praça. E eu? Bom, segui a uns passos seguros de distância enquanto observava tudo ao redor um tanto quanto perplexo.

Quando chegamos, fiquei surpreso ao saber que viviam tantas pessoas naquela cidade. A praça estava abarrotada de gente, crianças, adultos, velhotes, guardas, bebuns e um ou outro viajante curioso como eu. A vantagem que eu tinha era por conta da estatura, mesmo mestiço, passo fácil a altura de um homem adulto. E assim pude enxergar com clareza o palanque alguns metros à frente.

“Dê um passo à frente comandante! Aproveite seu breve momento de igualdade, e diga suas últimas palavras antes de se ajoelhar perante a Morte” – dizia um homem que parecia ser o tal Bally.

“Ajoelho-me ciente de ter carregado minha verdade como a única, até o último dos instantes da minha vida” – retrucou o desertor.

E logo após terminar sua frase, levou um pontapé por detrás dos joelhos, e com suas mãos atadas para trás de seu corpo, o desertor caiu em posição para ser decapitado por um carrasco qualquer, que estava vestido totalmente de preto ao lado do “Bally”.

“O homem que sentencia é o homem que deve brandir a espada!” – ouviu-se de um senhor em meio a multidão que assistia a tarde de execuções, ele estava próximo de mim.

“Deseja apressar os planos que a Morte tem para você, velhote?” – respondeu o já irritado General.

“Longe disso! Afinal, ela não se orgulharia de um sacrifício feito por homens que não tem coragem para cumprir a própria sentença” – bradou o ancião enquanto dava lentos passos para ser discernido do restante da plebe.

Ele havia assinado a própria sentença, e aquilo para mim já estava começando a dar desgosto. Afinal, por quê? Por que tantos optam por derramar o próprio sangue inocente em prol de situações que poderiam ser facilmente contornadas com o silêncio? E no meio de meus devaneios notei que a multidão havia se calado. Por alguns instantes o foco de todo o universo se encontrava no cruzar de olhares de um General carrasco e um velho revolucionário.

Então ele subiu ao palanque do carrasco e parou em frente ao General “Bally” – opto por não descrever tamanha covardia daquele militar. Mas depois de ver aquela cena e refletir sobre toda a situação, ficou claro… Não era questão de bondade, tampouco de honra, era uma questão de fé. Existem homens que acreditam em um mundo melhor, e farão o que lhes for possível para mostrar aos demais que isso pode existir, e a Morte é uma destas possibilidades.

Enfim, não deixemos que a morte de idealizadores e revolucionários sejam em vão. Lutemos pelo que acreditamos, antes que os ideais deixem de ser palavras vívidas e se reduzam somente a frases bonitas em lápides escusas.

– O Diário do Bardo.

Publicado originalmente em: https://www.wattpad.com/user/Nartyo

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Redação

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