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DE QUEM É O SUTIÃ? | CRÍTICA

Baku é uma aldeia que fica próxima às montanhas, no Azerbaijão. Um subúrbio pobre que é traspassado por uma linha ferroviária, onde as casas são tão próximas dos trilhos que mal se tem espaço para transitar quando o trem está passando. Ali, os moradores se adaptam como podem com a falta de espaço e por isso utilizam os trilhos como área de lazer entre um coletivo e outro. Inclusive, é comum usaram o pouco espaço entre as casas como varal. E é aí que começa a história de DE QUEM É O SUTIÃ?.

Nurlan é um maquinista já prestes a se aposentar. Seu tralho é pacato, guiando seu trem que leva combustível pelos subúrbios do Azerbeijão. Costumeiramente, roupas acabam presas em sua locomotiva toda vez que precisa cruzar a região de Baku, porque alguém sempre esquece de retirar os varais antes do trem passar. Mas por ser uma boa pessoa, Nurlan, ao final de seu expediente, volta a pé até Baku procurando os donos dos pertences para devolver. Até que um sutiã azul fica preso em seu trem. Nurlan jamais imaginou que seria tão difícil devolver uma peça de roupa. Este é o Plot de DE QUEM É O SUTIÃ?, comédia dramática dirigida e coescrita pelo cineasta alemão Veit Helmer.

O longa estreou oficialmente em 2018, na Alemanha e chega no próximo dia 20 de fevereiro nos cinemas brasileiros.

Um ponto bastante interessante de elucidar, logo de cara, é que este se trata de um Filme Mudo. Ou seja, não há diálogos. Tudo bem que até existem alguns gritos, risadas, gargalhadas e outras onomatopeias, mas em DE QUEM É O SUTIÃ? toda informação que é passada ao espectador é não verbal. É tudo gestual: olhares, dedos indicadores, sorrisos, caretas, suspiros… E isso funciona muito, muito bem. Consegue entreter, prender a atenção. Mas, como nem tudo são flores, DE QUEM É O SUTIÃ? tem um probleminha que causa incômodo: a promessa.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de DE QUEM É O SUTIÃ? e discorrer como prometer e não cumprir pode acarretar problemas na audiência e fazer com que um filme que tinha tudo para ser bom… Se torne apenas médio.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers. E por se tratar de uma produção que não tem falas, então não teremos as habituais citações, ok? Em vez disso, vamos ao bom e velho subtítulo.

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PURE CINEMA

Alfred Hitchcock foi o progenitor do termo Pure Cinema, ou Cinema Puro, em português. E é interessante observar o quanto DE QUEM É O SUTIÃ? se fundamenta naquilo que Hitchcock acreditava.

Hitchcock dizia ser mais fácil prejudicar um filme pelo diálogo do que pela composição (ação, trilha sonora, edição, atuação, enquadramentos e etc.), por esse motivo, fazia questão de entregar a informação em seus filmes de maneira visual, não oral. Para Hitchcock, o diálogo deveria complementar a informação, não ser o principal veículo da mesma. É daí que vem um dos mais famosos conceitos do cinema: Show, Don’t Tell (demonstre, não diga) e que nós já abordamos em algumas críticas.

A questão toda é: diálogos podem acabar sendo expositivos demais e isso faz a audiência se sentir burra, subestimada. Por outro lado, a imagem é muito mais poderosa, e transmitir conteúdo de maneira visual faz sua audiência se perceber inteligente, valorizada.

DE QUEM É O SUTIÃ? não é um Filme Mudo (Silent Film) ao pé da letra. Há som. Som de risos, ambiência, burburinho, farfalhar de roupas, o barulho da locomotiva, cabras e bodes nas montanhas, instrumentos musicais, pessoas cantando, barulho de água, vento, portas, janelas… Mas não há diálogos. Nenhuma comunicação, nenhum esclarecimento se dá pela fala. E tudo funciona de maneira muito orgânica em DE QUEM É O SUTIÃ?. Pode soar um pouco caricato em alguns momentos e até um tanto quanto forçado, mas ainda assim é bastante orgânico. Você entende as interações, como também entende as intenções. Justamente aqui está o problema do título. Mas vamos nos ater primeiro nos pontos altos, mais adiante eu vou detalhar o ponto falho da produção.

O curioso de DE QUEM É O SUTIÃ? é que a ausência de diálogo parece fazer sentido no universo dessa história. Embora os habitantes de Baku sejam estranhamente receptivos (você vai entender melhor quando assistir ao filme), ao mesmo tempo são frios, xucros, não parecem abertos a diálogos. Isso, somado ao ar pesaroso de Slow Cinema, coopera em muito para tornar críveis as situações em que a fala é desnecessária.

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KICKING THE DOG

Nós já abordamos diversas vezes aqui no site a utilização do princípio narrativo da Arma de Chekhov. Falamos inclusive sobre o aspecto de tempo, ou melhor, da falta de tempo que o roteirista tem para colocar todas as informações necessárias no papel, e que em função disso é preciso utilizar certas técnicas de roteirização para, com poucas linhas, transmitir inúmeras informações, ativando os gatilhos mentais corretos em quem assiste. Por isso, em DE QUEM É O SUTIÃ?, nós vemos uma técnica bastante efetiva ser muito bem utilizada com Nurlan, o protagonista. Estamos falando de Kicking The Dog (Chutando o Cachorro), de longe a maneira mais eficiente de levar o público espectador a sentir empatia por um personagem, especialmente se ele for quem protagoniza a obra.

A técnica consiste em fazer o personagem sofrer o diabo. Passar por todo tipo de injustiça, mazela, perrengue e/ou complicações na vida. Mas não só isso. É preciso sofrer tudo calado. Tem mais: sofrer calado enquanto é gentil, amável, íntegro, companheiro, leal, amigo. Sofrer calado e em momento algum reclamar que a vida é injusta. Quando estes elementos são bem alinhados no enredo, fica praticamente impossível do público não se conectar com quem sofre. Fica impossível não sentir empatia. Todo bom roteirista sabe disso.

DE QUEM É O SUTIÃ? se vale do Kicking The Dog de forma bastante assertiva. Nós vemos Nurlan, de bom coração, devolvendo os itens que seu trem arranca, mas as pessoas além de não agradecerem ainda o acham pervertido. Nurlan mora em um casebre que mal tem luz elétrica, ou mobília meramente descente. Algumas vezes, por conta do trabalho como maquinista, precisa passar a noite numa hospedagem pé de chinelo (ainda pior do que o local aonde vive) para voltar cedo no dia seguinte ao batente. Embora não tenha problemas com seus colegas de serviço, Nurlan nunca está acompanhado. É solitário, triste, seus vizinhos, sempre que possível, fazem chacota consigo, enquanto que a única pessoa que realmente gosta dele acaba sendo impedida de se aproximar por questões familiares. Ou seja, Nurlan é um rejeitado e vive como tal. Por onde passa ninguém faz lá muita questão de interagir com ele. E isso compra o espectador na hora, conforme os acontecimentos penosos vão se enfileirando, mais e mais a plateia sente afinidade por Nurlan. Isso faz com que você torça positivamente por ele na busca pela dona do sutiã perdido, bem como faz sentir ainda mais afeição quando ele se depara com as consequências dessa jornada.

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PROMESSA É DÍVIDA

Prometer e não cumprir é um problema sério, seja na vida real, seja na ficção. Quando uma promessa é feita (ainda mais vindo de um filme), precisa ser cumprida. Caso contrário, o que você vai conseguir é frustrar a audiência. Só.

No caso de DE QUEM É O SUTIÃ? a promessa que é feita a quem vai assistir o longa é:

Ao partir em busca da dona do sutiã, Nurlan pode encontrar o amor da sua vida”. Isso está explícito na legenda do trailer. Contudo, essa promessa nunca chega a ser cumprida.

Nurlan sequer intenta encontrar o amor da sua vida com a devolução do sutiã. Lembra que mais acima no texto eu mencionei que a entrega de informação não verbal do filme é muito bem feita e que é possível perceber claramente tanto Interação quanto Intenção? Então, é cristalino que Nurlan não tem a intenção de descobrir seu grande amor ao devolver o sutiã pra sua dona. Ele sequer cogita nem mesmo um selinho de agradecimento pela entrega.

Verdade seja dita, é perceptível que Nurlan fica obsecado em descobrir quem é a dona da lingerie, entretanto, em momento algum o roteiro dispara a mera hipótese de intenções amorosas do maquinista – a não ser em um dado momento que acaba não tendo tanto a ver com a empreitada. Da mesma forma, o enredo também não traça a menor vontade sentimental de Nurlan para com a misteriosa dona da peça íntima enquanto enfrenta todo tipo de situação em sua busca.

Qual o problema, então, em fazer essa promessa e não cumprir? E como um simples fato desses (uma promessa não cumprida) rebaixar a nota do filme, visto que há pontos positivos bem estruturados? A resposta é simples: frustração por confusão.

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FRUSTRAÇÃO POR CONFUSÃO

Frustração não necessariamente acaba sendo um elemento ruim em um longa. Se a proposta inicial é frustrar a audiência, quer dizer, utilizar da frustração para surpreender a audiência, então seu uso pode ser justificado, assertivo e até compreensivo. Mas desde que essa intenção esteja clara ao decorrer da narrativa. Seja por pistas utilizando Foreshadowing, ou por introduzir objetos, personagens, localidades e afins utilizando a Arma de Chekhov. Porém, é preciso que isto esteja translúcido como ponto de partida na construção do roteiro, senão tudo o que se consegue é confusão.

Já no caso de DE QUEM É O SUTIÃ? a coisa é bem diferente. O filme não só aponta para uma única direção, como te guia exclusivamente por um único caminho. Caminho este que é oposto ao que o Trailer propõe. E ao final, quando o expectador termina de acompanhar a jornada de Nurlan, o problema se apresenta e deixa um ar de confusão em quem assiste à película.

Pare pra pensar por um instante: como é possível que um filme que, mesmo sem diálogo, consegue entregar, de forma cristalina, intenção… Consiga também tropeçar na hora de apresentar conclusão? Só há três possíveis respostas para isso:

1 – Ou nós temos um problema de roteiro, em que as mãos que escreveram a obra não conseguiram organizar os fatos a ponto de evidenciar melhor as reais intenções de Nurlan com a empreitada;

2 – Ou nós temos um problema de edição, no qual o editor acabou “comendo bola” e deixou passar, no corte final, as cenas (ou a cena) que transmitiriam à audiência as intenções amorosas de Nurlan com a entrega do sutiã;

3 – Ou então o Trailer simplesmente foi editado ignorando completamente a proposta de DE QUEM É O SUTIÃ?. E aqui nós temos uma situação ainda pior, porque a aprovação do trailer é feita tanto pelo diretor quanto pelos produtores. Percebeu o problema? A confusão?

Aliás, no item 2, a direção também é responsável por dar a palavra final. E se você ainda levar em conta que o diretor também é corroteirista, o problema se estende aos três pontos abordados acima. Apontando para um só responsável.

Deixe eu te ilustrar, de maneira bem simples, o que nós temos aqui em DE QUEM É O SUTIÃ? usando como exemplo um outro título, HELLBOY (2019). Em HELLBOY, a premissa da história é impedir que a assim chamada “Rainha Sangrenta” (Milla Jovovich) readquira as partes esquartejadas de seu corpo, volte à totalidade de seu poder e lance sobre a humanidade uma praga inimaginável, que vai consumir toda a vida na Terra. Entretanto, o filme acaba por nos entregar uma narrativa onde após recuperar seu corpo e seus poderes, a Rainha Sangrenta acaba tentando despertar o lado demoníaco de Hellboy e transformar o mundo em uma versão live-action de Dark Souls. Ou seja, sem praga, sem foco principal previamente estabelecido, sem cumprir a promessa. Resultado: frustração.

DE QUEM É O SUTIÃ? caminha pela mesma corda bamba. Ele estabelece um alvo (no Trailer), mas te entrega outro. Nurlan não busca por um amor na figura da dona do sutiã. Ele busca por… Bom, daí você terá de assistir DE QUEM É O SUTIÃ? que estreia nos cinemas nacionais em 20 de fevereiro.

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VEREDITO

Interessante, divertida, envolvente, com uma promessa que não é atendida na conclusão, mas ainda assim com uma história com boa dose de entretenimento, DE QUEM É O SUTIÃ? é uma comédia dramática um tanto quanto atípica, pendendo generosamente para o drama e menos para o humor.

Trazendo uma proposta intrigante de Filme Mudo (em alguns aspectos), DE QUEM É O SUTIÃ? consegue por em prática o famoso Pure Cinema que Alfred Hitchcock tanto defendeu e com isso entrega ao espectador uma experiência imersiva de boa qualidade, mas o problema de prometer “X” e entregar “J” é um peso negativo.

Ainda assim, DE QUEM É O SUTIÃ? não é um filme ruim e pode agradar quem goste de cinema experimental. Fica aqui a recomendação.

DE QUEM É O SUTIÃ? estreia dia 20 de fevereiro nos cinemas brasileiros.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Bra
Lançamento: 20 de fevereiro 2020
Distribuição: Pandora Filmes
Direção: Veit Helmer
Roteiro: Leonie Geisinger, Veit Helmer
Trilha Sonora: Cyril Morin
Edição: Vincent Assmann
Cinematografia: Felix Leiberg

Elenco: Predrag ‘Miki’ Manojlovic, Denis Lavant, Paz Vega, Chulpan Khamatova, Maia Morgenstern, Frankie Wallach, Irmena Chichikova, Boryana Manoilova, Sayora Safarova, Ismail Quluzade

Trailer:

Trailer oficial De Quem é o Sutiã?

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.