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ESPÍRITO JOVEM | CRÍTICA

Em uma pequena cidade na Ilha de Wight, no Reino Unido, a jovem VIOLET e sua mãe, MARLA, ambas polonesas, vivem uma vida sem luxos, sempre à beira de problemas financeiros, em uma rotina tediosa. Mas ESPÍRITO JOVEM, um show de talentos, está prestes a mudar a vida de ambas.

Com essa premissa, acompanhamos VIOLET trilhar seu caminho em busca do sonho de ser uma cantora de sucesso, enquanto enfrenta as etapas da eliminatória do concurso, descobrindo o quanto o Show Business pode ser cruel e escuso. Entretanto, VIOLET contará com a ajuda de VLAD, um ex-cantor de ópera que já foi muito famoso, mas que agora vive para a bebida e a solidão.

Embora pareça mais um filme de uma garota sonhadora que tenta a sorte na cidade grande cantando (ao estilo Hilary Duff), ESPÍRITO JOVEM vem na contramão desse tipo de filme justamente por explorar um aspecto em particular de uma maneira que nenhuma outra produção do tipo pensou em fazer, contudo os problemas que ESPÍRITO JOVEM apresenta acabam fazendo com que a película não tenha o brilho que poderia ter atingido.

Nesta crítica vamos discorrer alguns dos pontos altos e baixos de ESPÍRITO JOVEM, que estreia hoje, 20 de junho nos cinemas brasileiros.

Como sempre, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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-- POR QUE VOCÊ ENTROU NESSA COMPETIÇÃO?
-- EU GOSTO DE CANTAR.

ESPÍRITO JOVEM tem um ponto muito alto no que tange atuação, edição, som, colorgrading, escolha de músicas e elenco. Elle Fanning é um destaque muito bom para o filme. Ela incorpora bem todos os trejeitos desajeitados e tímidos de uma garota contida, entediada, esperançosa… E num resumo bastante direto, Elle Fanning faz uma atuação precisa. Porém, nem só de atuação é feito um filme.

Mais adiante vou elucidar os pontos positivos de ESPÍRITO JOVEM, mas nos próximos parágrafos eu quero focar a crítica nos pontos negativos, que por incrível que pareça têm o mesmo cerne: o tema.

Quando eu digo “tema” não me refiro a “um filme de uma garota sonhadora que tenta a sorte na cidade grande cantando”. Não. Isso é o enredo. Também não me refiro à trilha sonora. E é preciso deixar bem claro que “tema” e “enredo” são coisas distintas.

O tema é a mensagem que vai ser transmitida através do enredo. Essa mensagem é passada várias e várias vezes ao longo de um filme (série, animação, livro, etc.) para que fique fixada no subconsciente do público. Para que no ato final, quando o protagonista finalmente atinge/conquista/entende o tema o espectador sinta que o ciclo da história está completo. Por exemplo: em COMO TREINAR SEU DRAGÃO 3, o tema é “amor”. Em CAPITÃ MARVEL, o tema é “liberar o seu poder interior”. MULHER-MARAVILHA traz como tema “perceber que a humanidade é tanto boa quando má”, BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS mostra “trazer a ordem a Gotham” em seu tema e VINGADORES: ULTIMATO tem “sacrifício” como tema. Duvida? Assista novamente esses títulos e veja como sempre que possível essas frases e/ou palavras são lançadas no roteiro mais de uma vez, justamente para fazer a audiência se familiarizar, se conectar com o tema. Mas em ESPÍRITO JOVEM o que o diretor estreante, e também ator e roteirista, Max Minghella usa como tema é “Espírito Jovem”. E não me refiro aqui à frase em si ou mesmo a música do Nirvana (Smells Like TEEN SPIRIT). Não, me refiro ao concurso. O tema do filme é justamente o concurso. Por esse motivo o longa incorreu em diversos problemas estruturais no seu roteiro que são refletidos no ritmo da narrativa e também em seu desfecho.

É preciso deixar claro que mesmo sendo incomum a escolha do concurso de talentos como tema da trama a ideia é muito boa, porém limita as possibilidades de expansão de conflitos, subtramas… Ainda assim, Minghella conseguiu entregar um bom resultado em algo que seria praticamente um flop por conta da escolha temática.

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-- VOCÊ É UMA CANTORA INEXPERIENTE, COM UM SOBRE NOME POLONÊS, ENTRANDO NUMA COMPETIÇÃO QUE DEPENDE DO VOTO DO PÚBLICO.

O maior problema de ESPÍRITO JOVEM ter a competição como tema é que isso inviabiliza um conflito, e sem conflito não há como fazer o espectador se conectar com os dramas dos personagens de maneira efetiva, porque “conflito” implica em por o tema à prova. Vamos pegar os filmes citados acima para exemplificar:

Em COMO TREINAR SEU DRAGÃO 3 vemos Soluço, Banguela e os demais aldeões da Ilha de Berk lutarem para defender o que amam, sendo que por diversas vezes o amor de cada um é testado; seja por intempéries, seja por pessoas, seja por dragões, seja por ideias. Mas há sempre um conflito. Em MULHER-MARAVILHA a princesa Diana acredita que a humanidade não é má, só está sob controle de um ser malígno; contudo Diana nasceu numa ilha onde foi ensinada que a humanidade é sempre má, e ao sair da ilha dá de cara com a realidade que a humanidade pode ser boa e má ao mesmo tempo. Há conflito. BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS nos mostra um Coringa que tenta tornar Gotham ainda mais caótica enquanto o herói se desdobra para trazer a ordem à cidade. Conflito. Em VINGADORES: ULTIMATO os heróis lutam para que seu sacrifício de vingar a Terra não seja em vão enquanto são confrontados com situações que se mostram sem saída, dando a perceber que todo o esforço deles é vazio. Conflito. Enfim… Você já entendeu o ponto.

Agora, qual pode ser o conflito quando o tema é o concurso que dá nome ao filme? Perceba que o tema não é “estar num concurso de talentos”, ou “vencer um concurso de talentos”, nem “encarar a realidade da vida artística”. Se algum desses fosse o tema Minghella teria feito um excelente trabalho, porque mesmo assim ele consegue contar uma boa história. Com certas limitações, mas boa. O que mostra sua capacidade narrativa. Mas ESPÍRITO JOVEM acaba entrando numa espiral porque não há o que desafie um show de talentos, não há o que apresente perigo ao programa, não há o que possa ser um antagonista a um reality show.

Com isto, todos os conflitos vivenciados por VIOLET, VLAD, MARLA e demais personagens, ainda que bem escritos – e muito bem interpretados, diga-se de passagem – acabam parecendo rasos, porque o conflito dos personagens não está diretamente alinhado ao tema e a escolha do tema impossibilita essa conexão.

VIOLET, VLAD e MARLA são todos personagens interessantes e bem estruturados, com dilemas tangíveis e ótimas atuações de Elle Fanning, Zlatko Buric e Agnieszka Grochowska, respectivamente. Todos são bastante humanizados e entregam bons dramas, mas nenhum deles têm seus dramas ligados ao tema. Mesmo VIOLET que protagoniza a história de ESPÍRITO JOVEM e enfrenta todo o processo seletivo do concurso rumo à grande final.

Infelizmente, não é possível entrar em maiores detalhes dos problemas de link entre a escolha do tema e os dilemas dos personagens sem dar spoilers, por isso fica o convite para que vá ao cinema e preste atenção a estes detalhes. Agora nos vamos falar dos aspectos positivos de ESPÍRITO JOVEM.

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-- NUNCA SONHEI EM CHEGAR TÃO LONGE

Como um drama musical, ESPÍRITO JOVEM entrega um ótimo produto em todos os aspectos técnicos a esse respeito. Boa escolha de músicas com arranjos que casam bem com as cenas, qualidade de áudio precisa, interpretação vocal de ótimo nível por parte de Elle Fanning, que não só performa todas as músicas como também demonstra competência em técnica vocal. Em alguns momentos chega a impressionar.

Isso tudo é alinhado a uma edição com bastante dinamismo nas músicas, mas contida na medida certa nos dilemas. Uma colorização bastante ampla, bonita, tão versátil quanto os cortes, casando perfeitamente.

Mas há um ponto em particular dos detalhes técnicos de ESPÍRTO JOVEM que se destaca no conjunto. Um detalhe que nenhum outro filme do gênero pensou em explorar dessa forma e que justamente faz a balança compensar o problema da escolha do tema. E esse detalhe é a câmera.

ESPÍRTO JOVEM utiliza a câmera de uma maneira muito intimista, fazendo o espectador se sentir na pele de VIOLET logo nos primeiros instantes da película. Toda a preocupação de captar detalhes dos trejeitos interpretados por Fanning, dos closes, da aproximação, de estar sempre perto da atriz arrasta o público para o mundo de VIOLET quase que de supetão.

No decorrer de todo o longa a câmera faz questão de se manter íntima de VIOLET, quase como se fosse sua melhor amiga. É tudo muito próximo, pessoal, mas ao mesmo tempo não é invasivo. E isso ajuda muito a se conectar com a personagem de maneira mais fluida.

Definitivamente, a escolha de trabalhar a câmera tão intima beneficia inclusive os demais pontos positivos de ESPÍRITO JOVEM, como a atuação de Elle Fanning.

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-- ELE SABE O QUE ESTÁ FAZENDO?
-- ELE NÃO É UM EMPRESÁRIO DE VERDADE NEM NADA, MAS ELE FAZ MUITO POR MIM.

Elle Fanning, desde mais nova em títulos como TRAÍDOS PELO DESTINO, O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON, SUPER 8 e outros, sempre demonstrou potencial para ser uma atriz renomada no futuro. E embora ESPÍRITO JOVEM, pelos problemas com o tema, não abra espaço para atuações grandiosas, definitivamente dá abertura para boas interpretações.

Fanning consegue galgar cada brecha que o roteiro lhe entrega para apresentar uma boa atuação. Ela é capaz de guiar o espectador pela jornada de VIOLET, fazendo a plateia se importar com a protagonista e concomitantemente mergulhar nas interpretações das canções apresentadas ao longo do concurso. Mesmo com alguns problemas de ritmo do roteiro.

Outro forte de Fanning na interpretação é como ela constrói uma jovem tímida, sonhadora, meio desajeitada, que é um clichê em filmes do gênero, e consegue dar uma nova roupagem a algo que já é batido. Aliás, diversos momentos de ESPÍRITO JOVEM são marcados por clichês que apresentam uma nova vestimenta. A fórmula funciona na maioria deles.

Ainda falando de atuação é bom salientar que todo o elenco é muito bem dirigido e até personagens com menor significância são construídos de maneira tangível. Nem todos, é verdade, mas a maioria. E por mais que os dramas vividos às vezes se resolvam de maneira rápida não há como negar que a qualidade das atuações – em sua maioria – seja alta. Em vários momentos, bem alta.

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VEREDITO

Corajoso, bem produzido, com uma escolha de tema não tão favorável, um ritmo dúbio em alguns momentos, mas com ótimas atuações, ESPÍRITO JOVEM é um filme que consegue dar uma nova cara aos dramas musicais, mesmo com os entraves do tema.

ESPÍRITO JOVEM é uma boa produção com intenções auspiciosas, mas que infelizmente só não atingiu um resultado mais elevado por conta de um problema central, que inviabilizou o aprofundamento das relações de conflito entre os personagens.

Mesmo assim, ESPÍRITO JOVEM é um bom drama musical que pode agradar muito os fãs do gênero.

Veredito 4 - BOM

FICHA TÉCNICA

Título Original: Teen Spirit
Lançamento: 20 de junho de 2019
Direção: Max Minghella
Roteiro: Max Minghella
Trilha Sonora: Marius De Vries

Elenco: Elle Fanning, Agnieszka Grochowska, Archie Madekwe, Zlatko Buric, Millie Brady, Vivian Oparah, Ria Zmitrowicz, Olive Gray, Andrew Ellis, Charlie Mayhew, Marius De Vries, Elizabeth Berrington, Noof McEwan, John Locke, George Jovanovic, Rebecca Hall, Alice Parkin, Matt Jennings, Alice Porter, Elena Zacharia, Hannah Connery, Tamara Luz Ronchese, Johnny Vaughan, Melanie Wilder, Jordan Stephens, Ursula Holliday, Jack Donoghue, Mark Stobbart, Ruairi O’Connor, Stephen Boxer, Richard Leeming, Nathan Lambert, Rich Scholes, Mike Bennett, Tristan Maxted, Tristan Whincup, Paris Devaney, Maddison Blows, Stephanie Hoyte, Clara Rugaard, Danny Dyer, Dani Dyer, Hannah Stokely, Tom Robertson, Daisy Lowe.

Trailer:

Espírito Jovem | Trailer Legendado | Breve nos cinemas

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.