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GAROTA DA MOTO | CRÍTICA

Joana é uma mãe solteira que teve de aprender a lutar para proteger a si e ao filho, Nico. Trabalhando como motogirl, fez amigos e conseguiu uma forma de pagar as contas enquanto se mantém anônima, até que se depara com esquema de trabalho escravo de mulheres. Seu senso de justiça fala mais alto, suas habilidades de combate entram em ação e aquelas mulheres são salvas. Agora, Joana tem de enfrentar os cabeças da organização que a querem morta pelo prejuízo. Este é o Plot de GAROTA DA MOTO, longa de ação que dá continuidade na história da série A GAROTA DA MOTO, exibida no SBT em 2016 e 2019, porém com algumas alterações no elenco e no tom da obra.

GAROTA DA MOTO é uma aposta no gênero de ação, que tantos gostam, mas que não consegue elencar bons resultados no Brasil, seja por problemas sérios nas produções nacionais do tipo, seja por descrença do público brasileiro nesses títulos. E GAROTA DA MOTO bate na trave, por vários fatores que serão abordados neste texto.

Um ponto, porém, é preciso destacar: o cinema brasileiro de ação está, aos poucos, caminhando na direção certa. GAROTA DA MOTO deixa isso claro, porque mesmo batendo na trave, o longa tem acertos que valem o ingresso. É bem verdade que o cinema nacional de ação ainda tem muito trabalho a fazer em relação a Storytelling, coreografias, efeitos visuais, música e edição, mas está no caminho certo. GAROTA DA MOTO não é um filme ruim, mas também não é espetacular. Muito disso se deve a um problema grave no enredo, que retira todo o peso das ações de Joana, a Falta de Motivo.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de GAROTA DA MOTO e discorrer como a Falta de Motivo pode prejudicar o desempenho de uma boa história.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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RIBEIRO, ATÉ VOCÊ ACIONAR ALGUÉM, ALGUMA MULHER PODE MORRER LÁ DENTRO.

Indo direto ao ponto, GAROTA DA MOTO tem um problema sério. Joana, embora seja uma sobrevivente, que ralou para aprender a lutar pra se proteger e proteger o filho, não tem qualquer indicativo de motivação no enredo, que demonstre, na construção de sua personagem, que ela é do tipo de pessoa que tem um grau de intolerância tão grande com a injustiça que não consegue ficar quieta, precisa agir, precisa ser a força motriz que vai equilibrar a balança da justiça e fazer aqueles que são injustos com outros se arrependerem amargamente.

Não importa se o título se trata de uma continuação direta de uma série e que na série isso já tenha sido estabelecido. O fato é que no filme isso não é estabelecido. E nem todas as pessoas que vão assistir ao filme acompanharam a série. É preciso trazer os acontecimentos que tornaram Joana numa espécie de justiceira também para o filme, caso contrário o ímpeto de justiça que a protagonista sente, o impulso de ser a “bigorna da justiça” soa forçado e chocho.

Estabelecer que Joana teve de aprender a lutar para se proteger e proteger o filho não é o mesmo que estabelecer que ela desenvolveu um sendo de justiça imperativo e hiperativo. Dizer que a personagem sabe lutar não quer dizer que ela não saiba lidar com injustiça. O mesmo vale para a mania constante de mudança de endereço. Saber lutar e ser forçado a se mudar inúmeras vezes não transforma ninguém em um justiceiro. É preciso expor ao público qual foi o catalizador que aguçou em Joana o desejo de agir, senão todo o desenvolvimento da personagem ao longo da trama fica prejudicado e parece ser apenas um pretexto raso para as cenas de ação.

O problema com a Falta de Motivo de Joana é tão grande, que se apenas essa questão tivesse sido melhor elaborada, o resultado final de GAROTA DA MOTO teria sido outro, mesmo com os demais desfalques narrativos que a produção apresenta.

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ATENÇÃO, CACHORRERA! AS ÚLTIMAS O.S. DE PAPEL DA HISTÓRIA DA MOTÓPOLIS!

Não é a primeira vez, aqui no site, que falo sobre o quão difícil é criar boas coreografias de ação. Desde a crítica de Punho de Ferro, demonstro como não é nada fácil coreografar boas cenas de luta, bem como a dificuldade motora que atores e atrizes enfrentam ao lidar com estas coreografias. Lutar exige uma coordenação motora ainda mais refinada do que dançar, e não são lá muitos atores que têm tanto domínio corporal assim. Mas apesar de alguns problemas com uma ou outra cena de ação, GAROTA DA MOTO acerta muito em escalar Maria Casadevall e Duda Nagle (respectivamente protagonista e antagonista da história). Ambos conseguem trazer um grau de verossimilhança muito bom em suas lutas, especialmente A luta final. Não é perfeita, é verdade, mas é muito boa. A edição de Leticia Giffoni ajuda bem a esconder um ou outro problema técnico da luta e é muito boa em criar tensão à medida que o embate vai escalando para o ato final. A música de Gui e Rica Amabis dá o tom certo do confronto. Aliás, a trilha sonora é um ponto altíssimo de GAROTA DA MOTO porque é incrivelmente imersiva.

Agora, se GAROTA DA MOTO acerta, e muito, em edição, trilha sonora e na escolha de Maria Casadevall e Duda Nagle no elenco, infelizmente erra, e muito, com diálogos expositivos. E o grande problema de diálogos expositivos é que eles minam a capacidade de atuação.

Não importa o grau de excelência da atriz ou do ator que estão interpretando aqueles personagens, se eles servem apenas para jogar frase explicativas para o público (muitas delas sem necessidade alguma), esses diálogos vão soar vazios, sem graça, sem peso emocional. Pior, não agregam em nada para o desenvolvimento de personagens, ou o andar do enredo. Há momentos em GAROTA DA MOTO que os diálogos são tão expositivos, mas tão expositivos, que chegam a fazer o espectador questionar se a cena tinha necessidade de existir. Isso é um baita balde de água fria, porque a proposta de GAROTA DA MOTO é realmente muito boa e poderia ter sido o acerto no cinema nacional de ação que tanto se espera desde TROPA DE LITE.

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NÃO ME LEVA A MAL, TÁ? EU TE RESPEITO MUITO, MAS ACONTECE QUE O BICHO PEGOU PRO MEU LADO E A GENTE PRECISA APAGAR UMA MINA.

Setups e Payoffs são parte importantíssima de qualquer roteiro. Basicamente, consiste em dar a devida importância aos detalhes ou declarações relevantes da história. É uma técnica narrativa em que algo aparentemente irrelevante é apresentado (setup) num dado momento da trama, para que mais adiante tenha sua real importância revelada de maneira clara (payoff), promovendo, no espectador, a sensação de satisfação com aquilo que está sendo revelado, esclarecido.

Quando um filme consegue utilizar bem os Setups e Payoffs ao longo de sua narrativa, muito dificilmente se tem um resultado que não seja memorável. DE VOLTA PARA O FUTURO, por exemplo, não é um filme tão querido apenas por questões nostálgicas, mas por ser um dos filmes que mais utilizou Setups e Payoffs de forma ímpar na história do cinema. Pra tudo o que era previamente estabelecido, havia uma conclusão. Desde piadas, pistas “escondidas” nas cenas, figurino, diálogos, cenários… DE VOLTA PARA O FUTURO é uma verdadeira aula de como usar Setups e Payoffs com maestria.

Um exemplo bem claro: Sabe quando você está jogando algum game e, num dado momento, encontra um item que mais pra frente vai te ajudar a superar algum obstáculo? Então…

Já o que temos em GAROTA DA MOTO é o oposto. Há situações, condições e diálogos que são claramente importantes para o desenvolvimento de personagens (no plural) da trama, mas que nunca são concluídas, nunca são resolvidas, ou quando muito são “resolvidas” da maneira mais simplória e pouco satisfatória que se possa imaginar, como o problema da agressividade do filho de Joana, por exemplo. Isso é uma pena, porque GAROTA DA MOTO tinha tudo para trazer ao público uma ótima experiência narrativa.

Como dito mais acima, se apenas o problema com a Falta de Motivo de Joana tivesse sido melhor elaborado, o resultado de GAROTA DA MOTO já seria outro. Seria outro filme. Se além disso, os Setups e Payoffs do enredo fossem melhor estruturados, o longa se sairia ainda melhor. O espectador relevaria até os diálogos expositivos e um ou outro problema técnico nas coreografias das lutas.

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VEREDITO

Corajoso, com uma proposta interessante e bons acertos em certas questões técnicas, GAROTA DA MOTO é um filme que tinha tudo para dar certo e trazer aos fãs brasileiros do cinema de ação uma produção impactante, que tantos anseiam, desde TROPA DE ELEITE. Contudo, os problemas que ocorrem por outras questões técnicas impedem um melhor desenvolvimento narrativo e atrapalham a trama.

Mesmo com boas escolhas no elenco, algumas boas cenas de ação, boa edição, boa música e um tom sombrio, GAROTA DA MOTO infelizmente bate na trave e acaba sendo um “quase” junto a tantos outros filmes nacionais do gênero.

Entretanto, os acertos de GAROTA DA MOTO são realmente altos e definitivamente valem o ingresso, pois nos mostram que ainda com todos os problemas apresentados neste texto, GAROTA DA MOTO é um título que está no caminho certo para uma boa história de ação; nos mostra que o cinema nacional está um passo mais perto de emplacar uma boa narrativa de ação. É um longo caminho ainda? Sim. Mas toda jornada começa com um primeiro passo. TROPA DE ELITE deu o primeiro passo; DOIS COELHOS, o segundo. GAROTA DA MOTO é, definitivamente, o terceiro passo. Estamos chegando lá.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Garota da Moto
Lançamento: 23 de setembro de 2021
Distribuição: Paris Filmes, Downtown Filmes
Direção: Luis Pinheiro
Roteiro: David França Mendes
Trilha Sonora: Gui Amabis, Rica Amabis
Edição: Leticia Giffoni
Cinematografia: Lito Mendes da Rocha

GAROTA DA MOTO é uma adaptação da série A GAROTA DA MOTO, exibida pelo SBT, em duas temporadas, em 2016 e 2019

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“A Garota da Moto” | Banner da série original exibida pelo SBT em 2016 e 2019

Elenco: Maria Casadevall, Kevin Vechiatto, Naruna Costa, Murilo Grossi, Roberto Birindelli, Felipe Montanari, Duda Nagle, Fernanda Viacava, Tiago Amaral, Thiago Freitas

Trailer:

Garota da Moto | Trailer Oficial | 23 de setembro nos cinemas

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme.

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Muito obrigado e até a próxima.


LLeo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.