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HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO | CRÍTICA

O ano é 1968. Na pequena cidade interiorana de Mill Valley, em plena noite de Halloween, um grupo de adolescentes irrompe a mansão abandonada da família Bellows, que acreditam ser amaldiçoada. E após uma confusão no interior do casarão, os jovens encontram um livro que toda noite escreve sozinho, com sangue, uma nova história de terror detalhando a morte de alguém. Só que os invasores não contavam que os protagonistas dessas narrativas macabras seriam eles mesmos. Esse é o plot de HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO.

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO é uma produção de Guillermo del Toro, com direção de André Øvredal, e é uma obra que tem muito da cara de del Toro, daquele tom pitoresco de mesclar Contos de Fadas, Fantasia com Terror e tentar transportar o público para um universo sombrio onde a imaginação pode ser uma faca de dois gumes.

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO não chega a ser uma obra de causa medo, mas definitivamente agrega novos apelos visuais ao Fantasy Horror, ou se preferir, Fantasia Sombria, ou ainda Fantasia de Terror, um sub-gênero da Fantasia que se mescla a elementos do Terror. Entretanto, o longa toma algumas decisões narrativas que fazem a trama não sair da superfície e acaba se perdendo em alguns pontos cruciais.

Nesta crítica vamos discorrer sobre altos e baixos de HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO e detalhar os mesmos.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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– QUEM… COMEU… O MEU… DEDÃO?

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO não tem intenção de ser uma produção amedrontadora, com atmosfera desesperadora, mortes sanguinolentas, tortura física e psicológica… Não, nada disso. Você até tem acesso a alguns Jump Scares, locações escuras e empoeiradas, construção de clima de tensão, perseguições e tal, mas de modo geral, HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO tem maior foco em ambientar um conto sombrio onde os protagonistas gostem da temática, de consumir filmes de terror, quadrinhos de terror, gostem de passar horas falando a respeito disso. E a proposta é bastante funcional dentro desse aspecto do longa. Os amigos Stella (Zoe Margaret Colletti), Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Austin Zajur) realmente são fãs de Terror, têm diversas discussões sobre o assunto, demonstram conhecimento sobre o tema, inclusive sobre particularidades técnicas desse tipo de produção. Isso é muito bem retratado na película.

Mas como nem tudo são flores… Há um problema sério na interação dos adolescentes que protagonizam a história. Os jovens já eram amigos de longa data quando conhecem Ramón (Michael Garza), por acaso. E esse “por acaso” é bastante por acaso mesmo. E a partir daí, Ramón e os demais estabelecem uma relação desbalanceada. Logo no momento do encontro, Ramón não dá a mínima para o problema que o grupo está enfrentando, mas do nada resolve ajudá-los como se já fizesse parte da turma há bastante tempo. Mais adiante na história, Ramón age novamente da mesma maneira, só que agora considerando entregar a própria vida pela dos demais que nem conhece direito. Sem contar que seu personagem é apresentado como alguém corajoso, seguro de si. Mas ao início do terceiro ato, o roteiro nos revela que Ramón se vê e age como covarde, tanto que o próprio livro macabro de Sarah Bellows (Lathleen Pollard) usa isso contra o garoto.

Essa inconsistência não é restrita apenas a Ramón, mas também se aplica aos demais. Por exemplo, Chuck. É um personagem completamente overreacted, com expressões exageradas para tudo. Ele não consegue apenas sentir medo, ao invés disso transborda pavor; não consegue apenas falar, ele tagarela em voz muito alta, gesticulando aos quatro ventos; ele não consegue apenas fazer uma observação sobre o comportamento de alguém, em vez disso constrange a pessoa publicamente… E por aí vai. Não bastasse isso, Chuck ainda protagoniza um dos momentos mais desconexos de HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO. Em sua cena solo de perseguição, onde “A Mulher Pálida” o encalça, quase não é possível ver medo no rosto do garoto. Durante todo o acossamento, cada segundo que a câmera mostra o rosto de Chuck, suado de correr da criatura fantasmagórica, o personagem não expressa preocupação pela própria vida. O pior? A cena tem início com Chuck sendo acuado por alguns guardas. E qual a expressão em seu rosto? Isso mesmo, pavor. O mais interessante é que minutos antes dos guardas, Chuck tem uma discussão com Stella e Ramón, dizendo que não vai entrar numa determinada localidade porque está tendo pesadelos com uma “Mulher Pálida e Gorda” o perseguindo em uma sala vermelha e tem medo do livro usar isso contra ele. Curiosamente, só de comentar com os colegas a respeito, os olhos de Chuck ficam pávidos. O jovem mal consegue se mexer de medo. E então, quando finalmente encara a criatura, Chuck mal demonstra medo, não demonstra pavor, mal exibe preocupação, desespero… Pra não ser injusto com Chuck, ele de fato expressa medo nessa cena… No trailer. Só que a tomada onde isso ocorre não entrou no corte final.

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– SARAH BELLOWS, ME CONTE UMA HISTÓRIA.

Em produções com vários personagens despontando os rumos da história, é comum (e inteligente) estereotipar ao máximo cada personagem, evidenciando de forma escancarada suas características tanto físicas quanto psicológicas. Assim o público consegue distinguir quem é quem e o que cada um aprova e/ou condena logo de cara. Também faz os espectadores gerarem empatia e antipatia por cada personagem de maneira mais direta. E como se faz isso? Através dos diálogos.

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO tem a preocupação de estereotipar bem os personagens. Fica claro que Stella é a típica aspirante a escritora de contos de terro, nerd, que provavelmente seria retratada como gótica se o filme se passasse na época atual. Auggie é o típico viciado em cultura inútil, que joga galanteios a todas, mas nutre uma paixonite “secreta” por uma garota mais velha. Ramón é o clássico forasteiro caladão que só está de passagem no lugar errado e na hora errada; enquanto que Chuck é o fanfarrão do grupo. É ele quem tem as ideias mirabolantes de fazer pegadinhas, piadas desconcertantes e por aí vai. Isso tudo é bem fundamentado no filme. Mas os diálogos desses personagens é algo muito superficial, tanto entre si no início da película, quanto na forma como interagem com coadjuvantes ao longo da história.

Não são poucas as vezes que o roteiro nos entrega diálogos que não têm outro motivo a não ser forçar, outra vez, a percepção de um estereótipo já demonstrado previamente. E isso tem um peso bastante negativo porque não faz os personagens se desenvolverem, eles não evoluem, também não regridem, não andam. Isso deixa parte das conversas chochas, porque não se aprofundam em nada e não direcionam a história para lugar nenhum.

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– VOCÊ NÃO DEVERIA TER ROUBADO ESSE LIVRO

Outro ponto negativo de HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO é a forma como foi solucionado problema do livro matar pessoas. E esse é um detalhe que precisa entrar nesta crítica, mas que não pode dar muitos spoilers, então me custou bastante tempo para encontrar um meio de argumentar adequadamente.

Basicamente, Sarah Bellows tem o poder de não apenas ditar os acontecimentos do livro, mas também de acompanhar os mesmos de perto. É ela quem leva o mal até as vítimas por meio de criaturas demoníacas. Mas não só isso, ela acompanha “presencialmente” o livro, e onde o livro estiver ela também estará.

Stella e seus amigos descobrem que precisam contar a verdade sobre um certo acontecimento para o espírito de Sarah e partem em uma jornada contra o tempo a fim conseguir reunir as informações antes que Sarah os mate. Por todo lugar que o grupo passa o livro está com eles. E há até uma interação da própria Sarah com os jovens no meio de uma dessas buscas.

O curioso é que quando Sarah é confrontada com a verdade sobre o tal acontecimento, ela age como se não soubesse de absolutamente nada a respeito daquilo, como se aquela informação fosse novidade para ela, como se ela não estivesse com os adolescentes quando finalmente juntaram todas as peças da história. Sarah inclusive expressa surpresa ao se deparar com os fatos. E pior, fica tão convencida sobre a veracidade dos mesmos que sequer ousa questioná-los. É como se aquela verdade fosse tão impactante que a fizesse desistir de assombrar as pessoas quase que de imediato.

O problema todo com essa solução do roteiro é que ela até funcionaria, se Sarah não estivesse acompanhando Stella e seus amigos ao longo da jornada e tendo acesso inclusive aos pensamentos deles – algo que o roteiro faz questão de evidenciar mais de uma vez.

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– E SE O QUE ACONTECE NO LIVRO TAMBÉM ACONTECER NA VIDA REAL?

Em meio a tantos problemas narrativos de HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO, um ponto muito, mas muito positivo precisa ser evidenciado. Se chama “Lei de Chekhov”. Alguns conhecem como “Arma de Chekhov”, ou do inglês “Chekhov’s Gun”. Se você não conhece a terminologia não se preocupe, pois eu vou explicar.

O escritor e dramaturgo Anton Chekhov, considerado um dos melhores escritores de contos de todos os tempos, percebeu que quanto menos rebarbas uma história tiver melhor ela é aceita. E que cada elemento apresentado precisa ser utilizado, precisa ter relevância; que tudo o que for desnecessário precisa ser removido. Segundo ele, elementos que fazem falsas promessas nunca devem aparecer numa narrativa. Partindo disso, fundamentou seus trabalhos nesses princípios dramáticos, que inclusive foram atestados diversas vezes em suas cartas:

  • Remover tudo que não tenha relevância para a história. Se você diz no primeiro capítulo que há um rifle pendurado numa parede, no segundo ou no terceiro capítulo ele precisa, necessariamente, ser usado. Se não for para ser disparado, não precisa estar ali;
  • Ninguém nunca deve andar com um rifle carregado se não for para dispara-lo. É errado fazer promessas e não cumprir;
  • Se no primeiro ato você exibe uma pistola na parede, então no ato seguinte a pistola precisa ser usada. Caso contrário tire ela da cena.

Por fazer tantos exemplos utilizando armas, o princípio dramatúrgico de Chekhov ficou conhecido como “Arma de Chekhov”. E é basicamente o bom uso dos gatilhos mentais da antecipação e da curiosidade. Mas por que isso é tão importante? Porque Chekhov percebeu que as pessoas não queriam perder tempo, e dar a elas informações que não seriam usadas posteriormente na trama era desperdiçar o tempo tanto de quem lia, quanto de quem escrevia. Chekhov via nisso uma forma de desonestidade.

Se pararmos para pensar que um filme de aproximadamente duas horas precisa de cerca de 20 a 30 mil palavras para discorrer todo o enredo, vamos ver como não se dispõe de muito tempo para apresentar objetos, personagens ou mesmo locações que não agregam nada, não fazem a história andar e não desenvolvem os personagens que realmente importam. Por isso o conceito de “Arma de Chekhov” é crucial em Hollywood. Afinal, time is money.

Sabendo disso, fica mais fácil entender a forma mágica, bem feita como HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO utiliza o princípio de Chekhov, porque tudo tem um motivo. Quase nenhum objeto é mostrado em vão e nenhum close é irrelevante. Nenhum. Aliás, as histórias que o livro de Sarah Bellows nos conta são basicamente um compilado de Armas de Chekhov: Um personagem interage com o espantalho, logo o espantalho toma vida e caça esse personagem. Chuck fala de seus pesadelos com uma mulher pálida e gorda o perseguindo em uma sala vermelha, o livro conduz Chuck para uma sala vermelha e dá vida à criatura humanoide, feminina, que estava ao encalço do garoto. Ruth (Natalie Ganzhorn), irmã de Chuck, morre de medo de ficar feia e vive no espelho se cuidando, Sarah cria uma situação onde a beleza de Ruth é atacada e se vale disso para sentenciar a jovem. Percebeu?

Todo esse cuidado em utilizar tudo o que é apresentado em HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO merece destaque. E isso acontece ao longo de toda a obra. É realmente um ponto alto do roteiro, pena que é ofuscado pelos problemas descritos nesta crítica.

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VEREDITO

Divertido, visualmente interessante, com alguns problemas nos diálogos, inconsistência nas ações dos personagens, mas com um ótimo uso do recurso da Arma de Chekhov, HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO é um filme que tinha potencial para atingir nível mais elevado de resultado final, dado nomes dos principais envolvidos no projeto, que são bastante experientes no que fazem.

Infelizmente, a quantidade de deslizes, de escolhas erradas na roteirização da película interfere muito no todo da obra e decresce bastante o desfecho no terceiro ato.

Como era de se esperar, o longa termina com um gancho para possíveis continuações e, talvez, a criação de uma nova franquia. Vamos torcer para que os possíveis próximos títulos não caiam nos mesmos erros de  HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO.

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO | CRÍTICA 1

FICHA TÉCNICA

Título Original: Scary Stories to Tell in the Dark
Lançamento: 08 de agosto de 2019
Direção: André Øvredal
Roteiro: Dan Hageman, Kevin Hageman, Guillermo del Toro
Argumento: Marcus Dunstan, Patrick Melton
Trilha Sonora: Marco Beltrami, Anna Drubich

Histórias Assustadoras para Contas no Escuro é baseado no livro homônimo de Alvin Schwartz.

Elenco: Zoe Margaret CollettiMichael GarzaGabriel RushDean NorrisGil BellowsLorraine ToussaintAustin ZajurNatalie GanzhornAustin AbramsKathleen PollardJavier BotetMark StegerTroy JamesStephanie BeldingMarie WardJane MoffatDavid TompaElias EdrakiHershel BlattAmanda SmithDaniel GravelleBrandon KnoxWill CornoTavia PereiraAnthony ColonelloDivan Meyer

Trailer:

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro | Trailer Legendado | Agosto nos cinemas

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.