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HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO | CRÍTICA

Há certas experiências cinematográficas que desgostam, irritam e até desmotivam o público a continuar consumindo aquele conteúdo. E há experiências como HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que cativam, divertem, empolgam e fazem o espectador querer mais.

Filmes como HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO deveriam ser estudados minuciosamente por amantes da sétima arte, justamente por ser uma aula de como inovar na forma de contar histórias visuais.

Mesmo com alguns problemas (sim, nada é perfeito), o longa consegue transportar a plateia para um universo paradoxalmente fictício e tangível ao mesmo tempo; pegando uma trama batida e apresentando a mesma de forma inovadora.

 Como sempre, antes de tudo, a crítica a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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EU POSSO DEVOLVER SE NÃO SERVIR?

HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO pode ser melhor descrito como uma HQ animada, pois toda sua estética foi cuidadosamente planejada para aludir aos quadrinhos. Com onomatopeias pulando na tela (ora ou outra), enquadramentos típicos de quadrinhos e uma narrativa que tem poucos – bem poucos – descansos.

Em alguns momentos essa narrativa acelerada funciona bem, mantendo o espectador preso na cadeia de acontecimentos ininterruptos, mas há situações em que esse ritmo non-stop atrapalha o desenvolvimento dos personagens e os faz aceitar ou recusar premissas rápido demais.

Por vezes – sim, no plural -, vemos situações em que tanto personagens principais como coadjuvantes se colocam em aceitação ou negação de proposições sem sequer questionar ou mesmo se dar o devido tempo de refletir a respeito. Ao melhor estilo “Joãozinho acabou de conhecer Pedrinho e já viraram amigos inseparáveis de toda uma vida”.

Embora hiperbólico, o exemplo acima é realmente presente em HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO e asperge em basicamente todos os personagens. Seja lidando com situações, seja conhecendo pessoas. Certas atitudes são tomadas rápido demais e isso não dá tempo para o espectador digerir a interação/apresentação. Causa estranheza. Não retira o brilho da história, mas causa estranheza.

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MILES, A PARTE MAIS DIFÍCIL DESSE TRABALHO É QUE NEM SEMPRE VOCÊ CONSEGUE SALVAR TODO MUNDO.

A narrativa de HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO nos leva a um dos universos paralelos da MARVEL COMICS, onde o PETER PARKER daquele universo luta para destruir uma maquina criada pelo REI DO CRIME e outros vilões para fundir realidades paralelas. O herói acaba morto durante uma fase de testes da maquina e o jovem MILES MORALES presencia tudo após ser picado por uma aranha radioativa oriunda do cruzamento de diversas realidades.

MORALES ainda tenta ajudar o herói, mas tem de escolher entre sair vivo do local, fugindo de um impiedoso assassino, ou permanecer ali e morrer com o HOMEM-ARANHA.

Como se não bastasse, o HOMEM-ARANHA ainda percebe que MORALES também adquiriu os Poderes de Aranha e incumbe o garoto de dar fim a maquina e parar os planos do REI DO CRIME.

Agora, some isso a um adolescente que tem problemas de relacionamento com os pais e que busca sua autoafirmação em atos contidos de rebeldia. Já sabe aonde Isso vai parar, não é? Exatamente, um garoto completamente obstinado em cumprir sua promessa e honrar a memória do herói que não só o inspirava como também o salvou.

Não é preciso ser nenhum gênio pra saber que essa nova jornada do herói não será fácil e que o jovem MILES MORALES terá de superar inúmeros obstáculos pelo caminho.

O problema, entretanto, é a forma como ele lida com certos desses obstáculos. Pra alguns, MILES não dá lá muita importância, e isso fica tão claro na trama que tais obstáculos até somem da menção da história e você só se lembra deles quando os mesmo ressurgem por acaso. Isso incomoda em alguns momentos porque você não sente pressão de urgência, responsabilidade e sequer vê MILES sendo diretamente afetado por alguns desses atravancos, como é o caso do relacionamento do rapaz com os pais. Poucas são às vezes em que esse problema de relacionamento atua como intempérie para o seu desenvolvimento como futuro HOMEM-ARANHA daquele universo.

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ISSO NÃO TEM COMO FICAR MAIS ESQUISITO.

De maneira geral, a MARVEL COMICS vem sendo criticada pelos fãs pela forma como introduz novas versões de seus personagens em seu multiverso. Pegando personagens já estabelecidos e, ou os achincalhando, ou os colocando no ostracismo, ou destruindo suas reputações (que na prática é a soma dos anteriores) para que suas novas versões entrem em cena e agora “tenham espaço” para existir.

Em HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO isso não é diferente. Quando as realidades paralelas se colidem o PETER PARKER do universo “original” (Terra-616), o universo que nós conhecemos, aparece na realidade de MILES MORALES (Terra-1610), e a partir daí temos uma sequência de cenas que colocam o PETER PARKER que conhecemos como um completo inútil, babaca e pior de tudo: conformado em ser assim, em ter sucumbido aos seus problemas. Um derrotado completo.

Se você é um leitor assíduo das HQs do Teioso, já sabe onde quero chegar: que não importa a dificuldade, o PETER PARKER que todos conhecem nunca se conforma em se ver derrotado. Tantos e tantos títulos de HQs poderiam ser citados aqui, como A SAGA DO CLONE, que durou cinco anos. Nessa saga vimos PARKER ser testado, massacrado, humilhado por cinco longos anos ininterruptos nos quadrinhos e mesmo nas horas mais dolorosas para o Amigo da Vizinhança em momento algum ele sucumbiu às adversidades que o confrontavam. E mais, a SAGA DO CLONE ainda pega toda a fase da SAGA MASSACRE MARVEL, onde vemos PARKER ter de salvar vidas, inúmeras vezes, SEM seus poderes, sem superforça, sem sentido de aranha, sem superagilidade… Nada disso. Sem falar que um prédio ainda desaba com ele dentro tentando salvar uma garota. Tudo isso com Mary Jane grávida, tia May morta… Só de saber disso já fica difícil engolir o comportamento (e a apresentação) do PETER PARKER da Terra-616 em HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO; vendo no longa animado o motivo pífio que o colocou em tal situação de derrota então, é risível (eu nem vou falar da escolha desumana que NORMAN OSBOURNE empurra em PARKER, na SAGA DO CLONE, o fazendo decidir entre salvar sua esposa ou sua tia).

E fica evidente o descaso com o HOMEM-ARANHA (Terra-616) quando vemos, em sua apresentação, que PARKER pertence a um universo dez anos mais velho. Ou seja, “esse herói velho e batido não presta, os novos são mais legais”.

Particularmente, acredito ser mais proveitoso criar novos personagens que ganhem apreço por serem interessantes e terem histórias, dramas, alegrias e conflitos interessantes do que fazer pouco caso de um herói já estabelecido, que tem milhões de fãs ao redor do mundo, com medo de que este ofusque os novatos. E sendo bastante honesto, se existe medo/receio de que o velho ofusque os novos, o problema definitivamente não está no personagem mais datado.

Entretanto, devo admitir que, ao assistir o longa novamente – após já ter escrito este texto -, pude reparar um detalhe crucial que circunda todo o enredo da animação e até consegue fazer com que essa questão seja funcional e proposital na película. Muito embora não invalide o argumento apresentado nos últimos seis parágrafos, preciso reconhecer a genialidade da proposta. E sim, vou dedicar um texto exclusivo a isso também, até porque não vi mais ninguém comentar a respeito. Aguarde.

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ISSO DOEU COMO UM CARTOON?

Acredite ou não, são apenas estes os problemas de HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO que me incomodaram. De resto o filme é um verdadeiro show visual e uma aula de como contar histórias visuais. Há outros problemas no titulo? Sim, há. Mas não incomodam tanto – fora a sanha de todo mundo querer tirar a máscara sem o menor sentido, já que todos enxergam tão bem com elas.

Algumas motivações dos personagens de HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO não são tão impactantes assim, mas o roteiro consegue contornar esse problema e faz um ótimo desenvolvimento desses personagens mesmo assim.

A relação entre os diversos Aranhas das mais variadas realidades é muito bem construída e com poucas cenas você já sente aquele ar de família nos heróis. Como se já se conhecessem há muito tempo. Isso, essa interatividade, nas cenas de ação é impagável. É de encher os olhos. Mas mesmo assim, em alguns momentos, ainda permeia na interação dos heróis o problema descrito entre os parágrafos 6 e 9 desta crítica.

Aproveitando o gancho, tenho que ressaltar que a experiência visual de HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO é impar. A estética da animação ganha o público logo nos primeiros instantes da película e a imersão naquele universo animado é quase que instantânea.

Os planos escolhidos para compor principalmente as cenas de ação são belíssimos e não apenas empolgam como também emocionam.

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ACABEI DE LAVAR AS MÃOS, POR ISSO ESTÃO MOLHADAS. NENHUM OUTRO MOTIVO.

A trilha sonora de HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO cai como uma luva. Tanto as musicas que compõe a soundtrack, como as orquestrações de DANIEL PEMBERTON, que é famoso por títulos como OITO MULHERES E UM SEGREDO, BLACK MIRROR (um episódio), STEVE JOBS, REI ARTHUR: A LENDA DA ESPADA, O AGENTE DA U.N.C.L.E., DIRK GENTLY (2010 – 2012), HELL’S KITCHEN, VENOM, TOP GEAR (2016), O CONSELHEIRO DO CRIME, dentre outros.

As composições de PEMBERTON conversam muito bem com a soundtrack da animação e por diversas vezes você não percebe o ponto de corte das mesmas – salvo vez ou outra, por erro da edição, não do compositor.

É tudo tão bem arranjado que o espectador se deixa levar pela música e sequer nota que os violinos deram lugar às batidas do Hip-Hop. E isso por várias vezes.

Um ponto altíssimo é a dublagem. É realmente muito, muito boa. Não há estranheza nas vozes. Já na versão original, é curioso ouvir NICHOLAS CAGE como HOMEM-ARANHA NOIR, CHRIS PINE como PETER PARKER do universo de MILES MORALES (Terra-1610) e MAHERSHALA ALI empresta sua voz a AARON, tio do jovem MILES MORALES.

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DE ONDE TÁ VINDO ESSE VENTO? A GENTE TÁ NUM PORÃO.

O enredo de HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO é que é o zênite da coisa toda. Mas é impossível discorrer a respeito sem entregar uma quantia significativa de spoilers então voou me ater apenas em apontar certos detalhes e tentar instigar quem ainda não se permitiu assistir HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO a correr para os cinemas.

A premissa do enredo é batida, já conhecida e até mesmo cansada de tanto ser usada. Os filmes dos anos 90 e início dos anos 2000 utilizaram tanto, mas tanto que automaticamente julgamos como “ruim” ou “fraco” um filme que se vale das mesmas bases estruturais em sua trama.

Mas o que acontece em HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO é uma repaginada simples, porém muito eficaz, que com pequenas alterações conseguiu criar toda uma nova atmosfera numa temática já surrada. Embora certos conflitos sejam ainda bem superficiais, a narrativa se move bem, com bastante fluidez dando espaço e importância para a maioria dos personagens e mesmo os que se valem de menor tempo de tela na animação auxiliam muito bem no andar da aventura.

Definitivamente, mesmo com algumas ressalvas acima citadas, os roteiristas PHIL LORD e RODNEY ROTHMAN merecem honras pela forma como construíram uma história tão bonita a partir de uma proposição tão desgastada.

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VEREDITO

Dinâmico, envolvente, tocante, um pouco confuso e até desrespeitoso com um dos personagens mais queridos do Universo Marvel, HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO é um ótimo filme, que sem dúvida vai garantir diversão para todas as idades. Desde o fã mais chato e exigentes, como este que vos escreve, até aquele que conheceu o aracnídeo pelos recentes títulos cinematográficos da MARVEL.

E mesmo com o descaso ao PETER PARKER que todos conhecem o longa, ainda assim, é divertido, leve e apresenta uma boa história – com certos furos, é verdade, mas de maneira geral o todo é mais assertivo do que negativo.

Com bom ritmo, bom desenvolvimento, boa interação entre personagens, mais acertos do que erros entre trilha sonora e edição, HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO consegue dar uma nova roupagem a uma já tão batida premissa, e de quebra ainda se vale de uma narrativa visual belíssima para isso.

Mais um detalhe precioso merece elucidação, a cena pós-créditos. Se você é um leitor mais antigo do Teioso e chegou a acompanhar a década dos anos 90 do aracnídeo nas HQs, prepare-se para a melhor cena pós-créditos já feita num filme da MARVEL até hoje.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Spider-Man: Into the Spider-Verse
Lançamento: 10 de janeiro de 2019
Direção: Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman.
Roteiro: Phil Lord, Rodnay Rothman.

Homem-Aranha é uma criação de Stan Lee e Steve Ditko e pertence ao universo das HQs da Marvel Comics.

Elenco: Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld, Mahershala Ali, Brian Tyree Henry, Lily Tomlin, Luna Lauren Velez, Zoë Kravitz, John Mulaney, Kimiko Glenn, Nicolas Cage, Kathryn Hahn, Liev Schreiber, Chris Pine, Natalie Morales, Edwin H. Bravo, Oscar Isaac, Greta Lee, Stan Lee, Jorma Taccone, Joaquín Cosio, Marvin ‘Krondon’ Jones III, Kim Yarbrough, Lake Bell, Gredel Berrios Calladine, Jessica Mikayla Adams, Sarah D. Cole, Kelby Joseph, Mimi Davila, Claudia Choi, Melanie Haynes, Joseph Izzo, Nick Jaine, Muneeb Rehman, Carlos Zaragoza, Post Malone, David Applebee, Juan Carlos Arvelo, Adam Brown, Jon Bruno, Darcy Rose Byrnes, Oscar Camacho, June Christopher, Alycia Cooper, Michelle Jubilee Gonzalez, Terrence Hardy Jr., Bridget Hoffman.

Trailer:

Homem-Aranha no Aranhaverso | Teaser Trailer | 10 de janeiro nos cinemas

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.

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