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MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS | CRÍTICA

Dois irmãos são lançados à própria sorte em um mundo cruel e desumano, onde até mesmo o menor traço de bondade pode significar perigo eminente. Sem lar, sem comida nem água, há dias caminhando pela floresta cada vez mais densa e pouco convidativa, os irmãos avistam uma casa bastante suspeita, com um farto banquete à mesa, praticamente os convidado a entrar. É então que um pesadelo começa em suas vidas. A casa não é o que parece, a indefesa idosa que ali habita não é o que parece. E diferente do conto de fadas, esta história não é feliz e também não tem migalhas. Este é o Plot de MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS, Fantasy Horror (Fantasia Sombria) dirigida por Oz Perkins (A Enviada do Mal, O Último Capítulo), estrelada por Sophia Lillis (It: A Coisa) e Alice Krige (Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, Thor: Mundo Sombrio) e estreia nos cinemas brasileiros em 20 de fevereiro.

Inspirada no conto alemão dos Irmãos Grimm, MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é uma proposta interessante de adaptação que tinha tudo para dar certo, mas que infelizmente bate na trave, por uma série de fatores que serão abordados aqui. Dentre eles, os que pra mim são os mais problemáticos: a infinidade de Subplots e o mau uso da Arma de Chekhov. Inclusive, é impossível elucidar os solavancos de MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS sem dar diversos spoilers. Então, pra resolver esse problema, o conteúdo com spoilers vai ficar numa “área especial” e será preciso clicar nela pra ler, ok? Assim, quem não gosta de spoilers pode degustar a crítica sossegado, enquanto que quem não liga pra isso tem a opção de acessar o local indicado para conferir o conteúdo.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS e discorrer como o uso de várias subtramas pode atrapalhar o desenvolvimento de um longa e causar confusão à plateia.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers , exceto, como dito anteriormente, o trecho específico que será indicado.

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-MEU NOME É MARIA, E ESTE FOLGADO AQUI É O MEU IRMÃO, JOÃO.

Antes de falar das falhas de MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS quero dedicar algumas linhas para os pontos altos da produção. Porque mesmo com diversos tropeços, ainda assim existem pontos positivos que merecem ser destacados. Dentre eles, atuação, Color Grading, fotografia, e um em particular que me chamou muito mais a atenção porque é um baita complemento aos demais: a construção da atmosfera de perigo e incerteza que não é só constante, como também crescente.

Quando o assunto é Terror/Horror, seja o subseguimento que for dentro desse tema, nada, absolutamente nada, é mais assustador do que o desconhecido. Não importa se o filme em questão abordar demônios, bruxas, monstros, espíritos, alienígenas, assassinos em série, deuses antigos… O que der na telha. E também não importa o quanto a produção tenha se empenhado em criar as criaturas mais abstratas, pegajosas, enrugadas, contorcidas, repulsivas e disformes a fim de causar medo. Definitivamente, nada é mais aterrador do que aquilo que a individualidade da mente humana desconhece e tenta imaginar. Aquilo que está oculto, ou parcialmente revelado. Como um longo corredor escuro que ecoa os passos de quem adentra, uma blusa pendurada de qualquer jeito em um quarto mal iluminado… É o desconhecido que faz com que a incerteza cresça, e com ela o desconforto de estar naquela situação também se eleve. E nesse ponto MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS acerta quase que em cheio. Logo logo você vai entender o “quase”, mas por hora vamos continuar nos pontos altos.

Todo o trabalho de atuação, fotografia, trilha sonora, colorização e até a própria escolha das locações das filmagens coopera positivamente para criar uma atmosfera de incerteza e perigo constante e crescente em MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS. Tanto que, logo nos primeiros 03 (três) minutos de filme, você enquanto espectador já está completamente imerso por essa ambientação assombrada, crua, má, impiedosa. Pronta para ser descoberta, ao mesmo tempo em que percebe que não é bem vindo ali. E isso se estende por todo o Primeiro Ato. Sendo só a partir do Segundo Ato que os problemas começam a se acumular. Não que o Primeiro Ato seja perfeito, infelizmente não é. Mas em relação aos demais, ele é o que melhor se desenvolve.

A ambientação de MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é muito bem planejada pra transmitir insegurança ao público espectador. A floresta parece te observar a cada passo. Como se sempre houvesse algo ou alguém à sua espreita. Como se o desconhecido estivesse às suas costas o tempo todo. As construções dos vilarejos, em pedra, causam uma sensação de frio ainda maior do que o que está na tela. A iluminação das cenas dá um ar fantasmagórico. A casa de Holda, a bruxa, curiosamente não é de pedra, mas de madeira. Preta. Ângulos retos. Nada de curvas. Pontiaguda. Intimidadora. A iluminação interna da casa e o Color Grading amarelo e sépia intensificam o ar de perigo ali. Perigo constante.

Esse esmero com a construção da ambientação funesta em MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é de tirar o chapéu. Fisga o espectador logo de cara. Transmite bem o quão nocivo e desonesto é o universo em que a história se passa. Porém, infelizmente, isso não é o suficiente para se construir e alentar uma boa história sombria. Seja um Terror Psicológico, seja um Slasher, Fantasy Horror, Torture Porn, Gore, Found Footage, Snuff Movie… O que for. O que realmente importa em produções do gênero é como a trama se sustenta e se torna cada vez mais claustrofóbica até o final do Terceiro Ato. Como esses elementos evoluem em conjunto com quem protagoniza o título. Justamente nesse ponto é que MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS começa a descer a ladeira.

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-ME CONTA AQUELA HISTÓRIA DE NOVO?
-É MUITO ASSUSTADORA, VOCÊ VAI COMEÇAR A VER COISAS QUE NÃO EXISTEM.

Nós publicamos alguns dias atrás uma crítica (que pode ser lida clicando aqui) onde o maior problema do filme analisado era não cumprir a promessa que foi feita no Trailer. Com MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS temos basicamente o mesmo contratempo. Só que aqui com um detalhe: o filme não dá medo. Você até toma um (sim, um) susto, mas não sente medo. Porém, antes de continuar, é preciso deixar bem claro que construir uma ambientação de constante perigo é uma coisa, causar medo é outra. Estar desconfiado o tempo todo é uma coisa, ficar apavorado é outra. É a partir de agora que você vai entender o “quase” que leu alguns parágrafos acima.

Muito embora MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS consiga arquitetar uma atmosfera de risco, de que o perigo desconhecido está sempre ali por perto, Isso não é o suficiente para causar medo. E se você leu a nossa última crítica sabe bem o que acontece quando você faz uma promessa e não cumpre: gera frustração pela confusão.

No momento em que se apresenta a proposta de uma história para sua audiência, claramente esperando que esta vá prestigiar sua produção, é preciso levar em conta que quem for ao cinema estará ali porque gosta da proposta. Porque quer consumir aquilo que foi ofertado/prometido. E por mais que isso pareça obvio, nem sempre é levando em consideração. Qual o público que assiste uma Comédia Romântica? Ora, quem gosta de Comédia Romântica. E o que esse público espera ver em um título do gênero? Ora, Comédia e Romance. Agora, o que você acha que aconteceria com esse público se chegasse ao cinema para assistir a uma Comédia Romântica e desse de cara com um Gore? Isso mesmo, frustração. Mas e se estivermos falando de um filme de um subgênero do Terror/Horror, que constrói muito bem a atmosfera de risco, levando o público a sentir cada vez mais o perigo constante em todo canto, vendo a tensão crescer, e crescer, e crescer, e crescer… Mas não causa medo? O que você acha que vai acontecer na cabeça desse público? Exatamente, confusão e frustração. Sendo mais específico: frustração pela confusão.

Qual o sentido de ambientar tão bem o perigo se você não entrega o medo? Qual o sentido de deixa o espectador apreensivo e não fazê-lo temer? Qual o sentido? Lembra o conceito da Arma de Chekhov? Tudo o que é estabelecido precisa necessariamente ser utilizado, senão não há motivo pra estar na história. Caso contrário, a mensagem que é passada a quem assiste àquela película é que o tempo da pessoa foi desperdiçado, ela prestou atenção em detalhes que não agregaram nada ao desenrolar da trama, acompanhou fatos que não tiveram importância no enredo… Sentiu frustração pela confusão de informações conflitantes, ou mesmo ausentes no longa em questão.

Se um filme promete uma história de Terror/Horror, precisa entregar uma história de Terror/Horror. Precisa causar medo, pavor, receio, angústia, desespero na plateia. MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS, infelizmente, nesse quesito, está mais para um Suspense Dramático Sombrio do que para um Fantasy Horror propriamente dito.

É comum ao Fantasy Horror ter elementos do Terror Psicológico. Galgando gradativamente o clímax, Entrando na mente do espectador e aos poucos dosando o medo. Mais e mais medo a cada avanço narrativo. O problema, entretanto, com MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é que o que é dosado é o perigo, a preocupação, não o medo. Precisamente o oposto do que o Trailer promete.

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-CUIDADO, QUERIDA. NÃO GOSTARIA QUE VOCÊ COMEÇASSE ALGO QUE NÃO PODE PARAR.

Ainda falando sobre Arma de Chekhov, existe outra questão bastante problemática com MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS, a quantidade de Subplots.

MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é uma obra com uma hora e vinte e sete minutos de duração, que conta a história de um casal de irmãos que vive em uma região sombria e perigosa, onde a própria mãe os abandona, e que pra sobreviverem precisam encarar uma floresta nada convidativa e uma bruxa canibal “esfomeada” (vai entender as aspas na sessão de Spoilers).

Contudo, o enredo não se foca apenas nisso. Nós temos os dilemas de Maria. Afinal, é ela quem protagoniza a história. Também temos os dilemas de Holda, a bruxa. Justo, pois é a antagonista. Mas as coisas não param por aí. Se somarmos todos os dilemas e anseios dos envolvidos na história do filme nós teremos:

Os dilemas de Maria com relação a si mesma;
Os dilemas e vontades de Maria com relação a João;
Os dilemas de Maria com relação àquele ambiente em que vive;
Os dilemas de Maria em relação à sua mãe;
Os dilemas e vontades de Maria em relação à Holda;
Os dilemas e vontades de Maria em relação à bruxaria;
Os dilemas de João em relação a si mesmo;
Os dilemas de João em relação à Maria e sua família;
Os dilemas de João em relação à Holda;
A história de uma menina misteriosa com poderes psíquicos;
Os dilemas dessa menina com relação à Holda;
Os desejos dessa menina com relação à Maria;
Os desejos dessa menina misteriosa com relação a todos que moram naquele lugar;
Os desejos de Holda em relação a João;
Os desejos de Holda em relação à Maria;
Os dilemas e desejos e Holda em relação à menina misteriosa;
Os dilemas e desejos de Holda com relação ao que precisa acontecer entre Maria e João.

Percebeu? Mas a cereja no bolo é um detalhe crucial em todo esse emaranhado de intenções e interações: não existe um elemento em comum entre os envolvidos na trama. Cada qual quer uma coisa diferente. E ainda há dentre eles quem começa querendo “X” e simplesmente, minutos depois, resolve querer “R”. Eu vou detalhar melhor esse tópico nos Spoilers, mas para firmar o argumento aqui e não ficar parecendo que é só “reclamação por reclamação” me deixe apresentar o ponto:

Um filme pode ter mais de uma perspectiva. Aliás, isso precisa acontecer, caso contrário não há conflito. Se não há conflito, não existe obstáculo. Sem obstáculo o(a) protagonista não tem desafios a superar, nem mesmo verdades a aprender. E sem ter o que superar e/ou aprender não há o que contar na história. Na verdade, sem isso não há história. Sendo assim, conflitos são necessários para edificar boas histórias. O próprio Aristóteles já dizia isso. Em seu livro Poética, Aristóteles fez questão de esmerilhar o poder dos conflitos por meio de “Intenção e Obstáculo”. Ou seja, conflitos são fundamentais em uma boa trama. O problema é quando há tantos subconflitos que o foco principal da narrativa fica perdido e os espectadores começam a se questionar qual era o cerne da trama. Por quê? Porque os conflitos não apontam para o mesmo alvo. Maria quer uma coisa. Holda quer outra. João, outra. A menina misteriosa também quer outra. Além disso, cada um dos citados quer dos demais uma série de coisas distintas.

Vamos ver um exemplo aqui de um filme que contou com 50 personagens, VINGADORES: ULTIMATO. O que ligava todos os envolvidos da história? As Joias do Infinito. Qual o conflito central de ULTIMATO? Os Vingadores querendo desfazer o que Thanos tinha feito cinco anos atrás, enquanto que um Thanos do passado queria garantir que não apenas nada fosse desfeito, como queria readquirir as Joias para fazer ainda pior. Por quantos olhos a trama se desenrolou? Três: Stark, Rogers e Thanos. Qual o ponto em comum entre eles? Todos queriam uma vida simples, mas só um deles conseguiu. Duvida? Thanos, logo ao início do filme é mostrado em um planeta solitário, levando uma vida simples em um casebre de madeira. Mais adiante, somos apresentados à família de Stark com uma vida simples e uma casa de campo. Já ao final, Rogers retorna ao passado para finalmente viver ao lado de sua amada, deixando pra trás seus dias como Capitão América pra ter uma vida simples. Percebeu?

O que nós temos em MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é uma gama de intenções, conflitos e anseios diversos que não se estendem a todos os personagens envolvidos no core do enredo. Verdade seja dita, há alguns elos comuns entre alguns desses personagens, mas não a todos. Os mesmos elos que unem Maria e Holda, por exemplo, não se aplicam a João. O que une Holda e a menina misteriosa não se aplica nem a Maria, tampouco a João. Aquilo que entrelaça Maria e a menina misteriosa, não inclui João. E por aí vai.

Outro fator a considerar é que com tantas subtramas, teria sido mais proveitoso tornar MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS em uma série, porque aí sim haveria tempo pra estabelecer tantas histórias e anseios distintos, evitando confusão a quem assiste à película.

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-TEM ALGO ERRADO AQUI.
-MAS É TÃO GOSTOSO.

-ONDE ESTÃO OS ANIMAIS? DE ONDE ELA TIRA O LEITE?

Além de tudo o que foi mencionado até o momento, MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS tem também outro caso preocupante: estabelecer um universo maligno, mas não explicar o que torna aquele universo maligno, quais criaturas o habitam, como a magia funciona ali. Porque por mais que isso pareça insignificante à primeira vista, na verdade é uma coluna importantíssima para firmar as regras que regem o agir dos personagens. Sem estas regras bem descritas, delimitadas, claras ao público, isto necessariamente implica em brechas e mais brechas e saltos lógicos no roteiro. Exemplo?

Vamos aproveitar toda a polêmica envolvendo Star Wars pra explicar a importância de estabelecer e seguir regras em uma produção. Isso vai facilitar o entendimento.

 Em Star Wars existe uma presença quase que mística conhecida como A Força, que pode ser manipulada por algumas pessoas através de treinamento árduo. Dentre as possibilidades advindas da manipulação da Força, está a capacidade de fazer sugestões “irrecusáveis” a indivíduos destreinados na Força. Ou seja, é possível sugerir que uma pessoa que não manipula a Força corretamente/minimamente esqueça o próprio nome, ou mesmo pule de um precipício. Agora… Por que há aspas na palavra “irrecusáveis” acima? Porque existe um condicionador: “indivíduos destreinados na Força“. Isso quer dizer que tentar induzir pensamentos de uma pessoa treinada na Força, que controla A Força muito bem, não é possível. Duvida? Ora, por que Obi-Wan não tentou induzir Vader a se render? Ou por que Yoda não tentou induzir o Conde Dooku a se matar, ou mesmo desistir do embate? Ou então por qual motivo Qui Gon Ginn sequer cogitou sugerir que Darth Maul não soubesse como controlar A Força? E a resposta a todas essas perguntas é: existe uma regra e precisa ser seguida. Então, qual o problema com a nova trilogia Star Wars? Simplesmente, do absoluto nada, você que acompanhou essas restrições por anos, se depara com um cara usando A Força para ler mentes (?), enquanto que uma dessas pessoas a terem a mente lida (que nunca treinou seu domínio da Força) consegue bloquear a investida (?). Mas não para por aí, porque de repente A Força também consegue fazer objetos atravessarem o Tempo-Espaço e serem projetados a galáxias de distância, basicamente em tempo real. Curiosamente, nada disso nunca havia sido estabelecido antes na franquia. Ou seja, as regras pré-estabelecidas foram ignoradas. Brechas foram abertas no roteiro, porque uma vez que foram firmadas regras/normas em uma história, elas passam a ser cânone.

Em MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS esse mesmo contratempo exemplificado no parágrafo anterior dá uma passeada pela narrativa. Por exemplo, a história institui que há certas condições para se tornar uma bruxa. Não é qualquer mulher, nem por qualquer motivo. Há circunstâncias bastante específicas para que uma feiticeira adquira seus poderes. Mas, curiosamente, vemos estas exigências sendo completamente ignoradas no desenrolar dos fatos. O mesmo se estende a criaturas. E sim, isso será detalhado no bloco de Spoilers.

Em nossa última crítica, foi mencionado o conceito de Pure Cinema de Alfred Hitchcock, o qual explica que é mais efetivo passar informações de maneira visual do que por diálogos. Contudo, em MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS as informações sobre grande parte das regras e quebras de regras sequer são passadas para o público, nem por diálogo, nem por ação. Quem assiste MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS simplesmente fica sem as respostas.

Bom, como prometido, abaixo está a sessão de Spoilers. Para ler, basta clicar no retângulo cinza.

SESSÃO DE SPOILERS – CLIQUE AQUI PARA LER
1 – Holda, a bruxa, começa a história querendo comer João e Maria, por isso faz questão de entupi-los de comida, especialmente João. Mas no meio do filme decide que vai comer apenas João e transformar Maria em bruxa, já que Maria apresenta aptidão para a arte das trevas, tem visões, pressentimentos, premonições e etc. Mas é ao Terceiro Ato que Holda revela que para ser uma bruxa é preciso matar e comer crianças. Então, força Maria a tentar comer João, enquanto que ela mesma (Holda) vai ficar só olhando. Ou seja, engordou os dois pra nada.

2 – É estabelecido que para se tornar uma bruxa e adquirir a totalidade de seus poderes é preciso se alimentar de crianças. Por quê? O filme não explica. Simplesmente joga a informação no ar.

3 – Ao final de MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS vemos Maria se tornando bruxa após matar Holda, libertar João e mandar o menino de volta pra sua antiga casa. Sim, ela não matou o irmão e tampouco o devorou, ou mesmo devorou parte dele, ou ainda alguma parte de Holda. Bastou mandar João para casa e magicamente os dedos de Maria se tornaram pretos, como os de Holda, um sinal de que seus poderes foram adquiridos em totalidade. Ou seja, a regra pré-estabelecida da obrigatoriedade da morte e ingestão de carne infantil foi quebrada.

4 – O longa não estabelece especificamente por que a necessidade de matar e comer crianças para se tornar uma bruxa. Mas é enfático em determinar que precisa haver morte, precisa ser de criança e precisa de canibalismo. Justificativa? Não é transmitida ao espectador.

5 – O longa estabelece que naquele universo existam bruxas e também um tipo de feiticeiras/sacerdotisas. Entretanto, num dado momento, vemos um zumbi. Motivo? O roteiro simplesmente não explica.

6 – João é um menino que anseia muito ter um machado. Esse desejo inclusive é utilizado por Holda para capturar o garoto e afastá-lo de Maria. Por que razão João é tão aficionado em machados a ponto de falar a cada cinco minutos que quer um? Não há explicação por parte do roteiro.

7 – Holda teve três filhos antes de se tornar bruxa. Um deles é a menina misteriosa que possui poderes psíquicos. Seu nome é Clicky. E os poderes de Clicky vieram como benção/maldição após uma doença grave ser magicamente retirada de si ainda quando era um bebê. A extração da doença se deu por parte uma feiticeira/sacerdotisa misteriosa logo ao início do filme.

7.1 – Clicky passou a ter o dom da clarividência, sendo capaz de ver o futuro. Tentou usar seus poderes para auxiliar as pessoas, mas ninguém nunca queria seguir o que ela falava. Então se revoltou e passou a envenenar a mente de todos para se matarem.

7.2 – Dentre as pessoas que Clicky assassinou, estava o próprio pai. Holda então mata seus outros dois filhos para adquirir seus poderes e usá-los para levar Clicky pra longe, no meio de uma floresta assustadora, para que a menina morra lá. Desde então, Holda passa detestar a filha morta? Passa a detestar os poderes de bruxa? Passa a detestar outras bruxas ou pessoas com poderes? Não. Ela passa a detestar a figura masculina. Por qual motivo? O filme não estabelece.

8 – Clicky, embora morta, continua atormentando as redondezas da casa de Holda. Ela inclusive, instiga Maria a vasculhar a casa da bruxa para descobrir mais a respeito das verdadeiras intenções da velha. Por qual motivo Clicky faz isso? Se redimiu depois de morta? Não, o filme não explica. Curiosamente, Holda sabe que Maria vive bisbilhotando a casa, mas não se importa com isso, tampouco tenta impedir a garota. De contrapartida, ainda assim há uma aura crescente de perigo dentro da casa. Você sente o tempo todo que algo de ruim vai acontecer, mas nunca acontece, exceto no terceiro ato. O que ocorre são apenas sonhos/visões de Maria sobre a casa. Mais nada. Por isso o problema com o medo no filme. Ele estabelece bem tudo o que tange “perigo”, nas nunca conclui o ato perigoso, então não gera medo.

9 – Quando Maria finalmente enfrenta Holda para salvar João, a bruxa experiente, matreira, estabelecida como alguém que está sempre um passo à frente simplesmente fica parada esperando Maria atacar. Razão? Não é mostrada.

10 – Sobre a ausência de elos comuns:

10.1 – Clicky é quem atrai Maria e João para a casa de Holda;

10.2 – Tudo que João quer é comer, ganhar um machado e talvez voltar para casa;

10.3 – Maria quer um lar seguro, depois quer virar bruxa, então não quer mais, até que por fim se torna uma bruxa;

10.4 – Holda primeiro quer comer Maria e João, depois quer comer João e treinar Maria, mas resolve treinar Maria e forçar a garota a comer o irmão;

10.5 – Clicky quer que Maria descubra tudo sobre Holda. Pra ajudar a garota e o irmão? Bom, além do roteiro não explicar isso, também não faz sentido visto que é Clicky quem usa seus poderes para atrair os irmãos para o matadouro de Holda;

10.6 – Em suma, cada qual quer algo distinto, não necessariamente relacionado, mirando em alvos diferentes, dentro do mesmo roteiro. Holda começa querendo se alimentar, mas termina forçando Maria à antropofagia. Maria começa querendo um lugar seguro pra viver, termina como bruxa – sem passar pelo rito de iniciação. João começa querendo matar a própria fome, termina encontrando um machado. Clicky começa querendo ajudar pessoas, termina causando a morte da própria mãe.

11 – Além disso, o enredo não explica como Holda treinou seus poderes, com quem estudou, como estudou, por quantos anos, o que teve de passar, quais outras bruxas lhe acolheram, quais a rejeitaram, se foi rejeitada… É como se bastasse se alimentar de crianças mortas que, num piscar de olhos, todo o conhecimento sobre bruxaria, ritos, feitiços, poções, encantamentos e até mesmo grimórios surgissem do absoluto nada.

Enfim, todas essas lacunas são causadas por não se estabelecer adequadamente o universo em que a história se passa. E por serem informações importantes, um filme de uma hora e vinte e sete minutos é muito curto para apresentar tantas respostas.

Novamente, seria mais proveitoso para MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS ter sido produzido e apresentado como série, não como filme.

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VEREDITO

Intrigante, ousado, com ótima ambientação de perigo, mas com sérios problemas de subtramas, mau uso da Arma de Chekhov e diversas lacunas na história, MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS é um filme com uma proposta interessante, porém mal estruturada.

Claramente visando uma história maior, em um universo expandido – por assim dizer, MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS acaba sofrendo pela minutagem do corte final. O que evidencia que teria sido de maior proveito para este título uma produção e exibição como série, não como longa-metragem.

Apesar da quantidade de problemas, MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS não chega a ser um filme ruim, pois os pontos positivos são realmente bem executados e bem arquitetados. Porém, infelizmente, bateu na trave.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Gretel & Hansel
Lançamento: 20 de fevereiro
Distribuição: Imagem Filmes
Direção: Oz Perkins
Roteiro: Rob Hayes
Trilha Sonora: Robin Coudert
Edição: Josh Ethier, Julia Wong
Cinematografia: Galo Olivares

Maria e João: O Conto das Bruxas é uma obra inspirada em no conto alemão “Hansel and Gretel” dos Irmãos Grimm.

Elenco: Sophia Lillis, Samuel Leakey, Charles Babalola, Alice Krige, Jessica De Gouw, Beatrix Perkins, Ian Kenny, Abdul Alshareef, Manuel Pombo

Trailer:

Maria e João: O Conto das Bruxas | Trailer Oficial

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.