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MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR | CRÍTICA

Estratégia é o que pode definir os rumos de uma guerra, tanto a ponto de vencê-la, quanto a ponto de evitá-la. Entretanto, em uma guerra, ambos os lados estão sendo estratégicos e nem sempre se consegue prever o próximo passo do adversário. Um descuido, uma hora a mais de sono, uma linha errada numa mensagem codificada, um metro, uma milha… Podem fazer muita diferença no resultado final. Em MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR essa preocupação estratégica é muito bem retratada e pode-se dizer que é um dos pilares do filme.

MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR narra os acontecimentos reais envolvidos durante a batalha de Midway, confronto entre as Forças Americanas e a Marinha Imperial Japonesa seis meses após o ataque a Pearl Harbor. A trama mostra a trajetória de líderes e soldados que usaram instinto e coragem para superar as adversidades e sobreviver durante a guerra no meio do Oceano Pacífico.

Corajoso, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR vem na contramão da produção vista em 2001, PEARL HARBOR, e mostra o real sufoco dos soldados da Marinha Americana em superar a tecnologia bélica da Marinha Imperial Japonesa, levando o espectador a um verdadeiro espetáculo visual com algumas ótimas atuações. Entretanto, mesmo sendo historicamente mais preciso, com atuações alinhadas, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR tem um problema sério para um filme de guerra, ele não consegue construir emoção nos momentos em que mais precisa.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR e discorrer um pouco sobre o problema do enredo na hora de levar emoção ao público.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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TINHA UM GAROTO… ELE ACHAVA QUE NÃO IRIA DAR CONTA. EU ACHAVA QUE ERA SÓ NERVOSISMO E RESOLVI CUIDAR DELE. ELE TINHA RAZÃO DE TER MEDO.

Antes de nos aprofundarmos nos pontos negativos de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR, quero dedicar alguns parágrafos aos pontos positivos, porque são realmente muito bons. E atuação é um deles. Todas as atuações do longa? Não. Infelizmente, nem todas as atuações são grandiosas em MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR, mas as que se sobressaem o fazem com maestria.

Como era de se esperar, Woody Harrelson, Aaron Eckhart, Dennis Quaid e Jun Kunimura são destaques em MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR, cada um a seu tempo dentro da trama. Não é à toa que o diretor Roland Emmerich fez questão de entregar justo a estes atores papeis de liderança na história, porque todos conseguem passar inspiração, coragem, determinação e respeito ao dever com muita naturalidade.

Patrick Wilson, Mandy Moore, Luke Evans e Ed Skrein também são destaques positivos da película, contudo não brilham da mesma forma que os citados anteriormente. Wilson interpreta bem um agente da inteligência que carrega um peso enorme de culpa consigo, Mandy e Ed interpretam um casal típico da época, com boa química, mas sem grande expressividade – mesmo Ed Skrein encabeçando o elenco e sendo o foco principal da história.

Uma aposta curiosa, entretanto, do diretor Roland Emmerich para MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR é o resto do elenco, formado em grande parte por garotos com pouca experiência diante das câmeras. O que dá a entender é que Emmerich apostou no fato de serem novatos para trazer mais realismo na hora de apresentar “marinheiros de primeira viagem” no grupo de pilotos da Marinha Americana. Por um lado, funcionou. Eles realmente conseguem transparecer que não sabem o que fazer no meio de uma guerra, entretanto também transparecem que não sabem o que fazer diante das câmeras.

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PEARL HARBOR É O MAIOR FRACASSO DE INTELIGÊNCIA DA HISTÓRIA AMERICANA.

A qualidade técnica de efeitos visuais de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR é impressionante. Um verdadeiro show a parte. São pouquíssimos momentos em que se vê algum problema ligado ao CGI da obra.

Representações inclusive de física em MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR chegam a surpreender. Você sente o peso dos Porta-Aviões se movimentando na água, consegue perceber a diferença aerodinâmica dos modelos de aviões no ar, impacto das explosões, pressão da água, disparos de tiros, peso de maquinário bélico… São detalhes que elevam em muito o nível de realismo dos embates de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR.

Todo esse cuidado ajudou a demonstrar o quão tecnologicamente avançado era o Japão em poderio de guerra, auxiliando na construção de um enredo onde é preciso superar as próprias limitações e ter muita força de vontade e bravura para derrotar um adversário imbatível. Se você parar pra analisar, vai perceber que essas características são comumente vistas em animes e mangás do gênero Shonen, que são obras particularmente muito emocionantes. Conseguem fazer o espectador se comover com cada novo obstáculo a ser superado e o preço que isso irá custar ao protagonista da história. O problema, caro leitor, é que MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR não é um Shonen e tampouco consegue levar a história a picos de emoção consideráveis. Por muitas e muitas vezes em MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR presenciamos a narrativa tentando enternecer a audiência, mas, em sua grande maioria, essas tentativas são frustradas.

MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR denota um problema sério em consequência de dois erros básicos: o longa não consegue entregar emoção porque não consegue construir tensão. E não constrói tensão de maneira adequada porque não faz o público gerar empatia pelos personagens que deveria, além de criar problemas apresentando cenas desnecessárias com personagens irrelevantes pelo mau uso do princípio da Arma de Chekhov.

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– OS JAPONESES PLANEJAM ALGO MUITO MAIOR.
– E QUAL É O ALVO?
– ACREDITAMOS QUE SEJA MIDWAY.
– WASHINGTON DISCORDA.
– WASHINGTON ESTÁ ERRADA.

Qual o maior problema em construir o enredo de um filme com vários personagens? Dar relevância a todos. Isso inclusive já foi comentado aqui no site em outra crítica. E quanto mais personagens você incorpora em sua história, menos tempo tem para construir a personalidade de todos eles. Foram necessários 22 filmes para que a Disney/Marvel apresentasse quase 50 personagens numa batalha e fizesse a plateia se importar com cada um deles. Ou seja, não é uma tarefa fácil.

MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR peca na hora de introduzir ao público boa parte dos personagens que vão morrer na história. Isso acontece no primeiro ato, acontece no segundo e também no terceiro, justamente porque MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR continua introduzindo personagens novos a cada avanço narrativo em vez de se focar em utilizar menos personagens e construí-los de maneira adequada, deixando claro quais são suas ambições, medos, sonhos, qualidades, fraquezas, defeitos, receios… Não, o texto de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR insiste em continuar apresentando novos personagens até no terceiro ato.

Pior do que adicionar novos figurantes supostamente “importantes” para a história, aos 47 da prorrogação, é fazê-lo deixando estes personagens com arco incompleto. Você não sabe de onde essas pessoas vieram, o que elas querem de fato, porque estão ali – pra começo de conversa… Como também, ao final do longa, não sabe o que aconteceu aos mesmos. Pra onde foram? O filme não mostra. O que fizeram depois da batalha de Midway? O filme não mostra. Que relevância tiveram para suas cidades, estados e/ou nações após a guerra? O filme não mostra. O que teria acontecido se essas pessoas não estivessem no embate? O filme não mostra. É aí que entra o problema do mau uso da Arma de Chekhov:

Se algo, ou alguém, não tem relevância para o desenvolvimento da história, se não vai acrescentar nenhum elemento narrativo que coopere para o andar dos acontecimentos, este algo (ou alguém) sequer deveria fazer parte do enredo, porque isso é fazer uma falsa promessa aos espectadores. É desrespeitar o tempo de sua audiência e usar em vão os Gatilhos Mentais da Antecipação e da Curiosidade.

O mais interessante, é que boa parte destes que são jogados no meio da trama de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR são soldados que deram suas vidas para proteger a de outros. E aqui está um dos problemas: como o público vai sentir empatia por esses comandos se mal sabe quem são? Como sentir a dor da perda de alguém que você não conhece, não acompanhou, não sabe o que pensa, não viu superar adversidades, não viu depositar a fé em algo?

E pior, além de não estruturar propriamente essas personalidades, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR tenta forçar a empatia da audiência a estes fazendo os demais companheiros de guerra discursar homenagens e honrarias aos que deram suas vidas. O problema é: se são pessoas realmente importantes a ponto de serem mencionadas em momentos de luto por que diabos não foram adequadamente construídos ao longo da película?

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SE PERDERMOS… OS JAPONESES VÃO TOMAR TODA A COSTA OESTE. SEATTLE, SÃO FRANCISCO, LOS ANGELES… VÃO QUEIMAR.

O ponto anterior evidencia o início do problema de criar emoção em MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR. E a partir daí fica mais fácil perceber a bola de neve que isso acarreta.

Se o roteiro insiste em adicionar novos personagens (a cada ato) apenas para serem feridos e/ou perderem suas vidas durante as cenas de ação e não estabelece corretamente quem de fato deveria, como é possível construir tensão nestes mesmos momentos? Como o público vai se sentir aflito pela vida de alguém que não sabe quem é? E por que o público deveria sentir isso? Como a plateia vai se emocionar com isso?

Esses problemas são, de longe, os maiores entraves de MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR, porque toda vez que um ataque se inicia na película você fica imaginando se finalmente vai entrar na pele dos combatentes e suar frio com eles, vivenciar o desespero de ser perseguido por aeronaves inimigas que metralham como se não houve amanhã, ver seus companheiros frustrados a cada torpedo perdido, a cada tiro desperdiçado, a cada informação imprecisa, vibrar com cada adversário abatido… Mas isso não acontece. O roteiro não consegue criar pesar, como também não entrega satisfação, e por mais que a trilha sonora tente compensar essa lacuna, uma andorinha só não faz verão.

Imagine que você é um surfista que está no mar há horas aguardando uma onda, mas não qualquer onda, AQUELA onda. E você vê essa onda, ao longe, vindo, vindo, vindo, cada vez maior. Você se prepara, fica ligado, esperando o exato momento de entrar na onda e poder fazer suas manobras. Então, do nada, a onda diminui de tamanho drasticamente e quando te alcança já não tem mais a mesma força, nem a mesma velocidade. Pois é… Infelizmente, no que tange emoção, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR se comporta do mesmo jeito.  

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VEREDITO

Visualmente competente, com algumas ótimas atuações, certo grau de dinamismo narrativo, mas com sérios problemas na hora de levar tensão e emoção ao público e com uma curiosa insistência em adicionar novos integrantes à história mesmo no terceiro ato, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR é um filme que ainda assim pode ser uma boa diversão aos amantes das produções de gênero de guerra, até porque mesmo com os problemas apresentados nesta crítica a obra em si não é ruim. Está longe disso, contudo não chega a ser um título memorável.

Apostando em ser historicamente mais preciso em relatar o embate entre Estados Unidos e Japão nas águas do Pacífico durante a segunda guerra, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR entrega uma experiência cinematográfica aceitável enquanto deixa clara a homenagem aos soldados que lutaram na ocasião. Infelizmente, porém, pelos pontos falhos da estrutura narrativa, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR bate na trave diversas vezes em quesitos aos quais não poderia e de BOM cai para REGULAR.

Mesmo com os problemas pontuados por este texto, MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR é uma produção que merece atenção. O longa estreia oficialmente nos cinemas brasileiros em 20 de novembro, mas já está disponível para sessões de pré-estrias, então vá ao cinema e tire suas próprias conclusões.

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Midway
Lançamento: 20 de novembro de 2019
Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Wes Tooke
Trilha Sonora: Harald Kloser, Thomas Wanker

MIDWAY – BATALHA EM ALTO MAR é uma obra baseada em fatos reais.

Elenco: Ed Skrein, Patrick Wilson, Woody Harrelson, Luke Evans, Mandy Moore, Luke Kleintank, Dennis Quaid, Aaron Eckhart, Keean Johnson, Nick Jonas, Etsushi Toyokawa, Tadanobu Asano, Darren Criss, Brandon Sklenar, Jake Manley, Jun Kunimura, Nobuya Shimamoto, Brennan Brown, Jake Weber, Alexander Ludwig, David Hewlett, Mark Rolston, Eric Davis, Kenny Leu, Rachael Perrell Fosket, Peter Shinkoda, James Carpinello, Tim Beckmann, Sarah Halford, Cameron Brodeur, Hiromoto Ida, Hiroaki Shintani, Russell Dennis Lewis, Geoffrey Blake, Mikael Conde, Madison Roukema, Christie Brooke, Dustin Geiger, Jason Lee Hoy, Ellen Dubin, Jason New, Dean Schaller, Jacob Blair, Kayo Yasuhara, Rudolph Wallstrom, Matthew MacCaull, Philip Fu-Kang Wang, Johan Strombergsson-Denora, Nico De Castris, Alexandre Dubois, Tyler Elliot Burke, Raphael Grosz-Harvey, Trevor Danielson, Agostino Michael Cimino, Takeshi Kurokawa, Ryuta Kato, Garret Sato, Neil Girvan, Ellis Arch, Robert Crooks, Sean Colby, Kasey Ryne Mazak, Ryo Hayashida, Michael Chapman, Masahiro Tanikawa Masa Tani, Ryohei Arima, Hiro Kanagawa, Ken Takikawa, Leonardo Boudreau, Tony Nowicki, Yuta Takenaka, Tatsuya Shirato, Tyler Hall, Kyle Bougeno, David Dacosta, Kazuki Gonzalez-Adachi, Reyn Halford, Toyoaki Ito Leung, Halta Nonen, Adrian Spencer, James Hicks, Sebastian Pigott, Simon Pelletier-Gilbert, Philippe Verville, Shigeru Yabuta, Seunghwan Min, Christopher Tapia, Sangwon Jun, Motoo Taira, Ana Maria Lombo, Greg Hovanessian, Deke Richards, Mika Amonsen, Sammy Azero, Ilyes Belayel, Alexis Bellefeuille, Monika Bicarova, Sarah Bublavy, Svitlana Campbell, Amanda Chang, Robert D’Entremont, Dalton Fugate, Raynesa Jonas, Maxime Lamothe, John Lobato, Frank Marrs, Michael Daniel Murphy, Sean Timothy Penczak, Diezel Ramos, Raphaël Roberge, Adam Rogers, Jason Smiley, Huy Hao Tran, Thomas Vallieres, Amber Walls.

Trailer:

Midway – Batalha em Alto Mar | Trailer 2 Legendado | Novembro nos cinemas

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.