Le|Pop
MINHA-MAE-E-UMA-PECA-3-BANNER-LEPOP

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 | CRÍTICA

A vida é um constante aprendizado, tanto para filhos, quanto para pais. E quando uma mãe bastante coruja finalmente percebe que seus filhos saíram definitivamente do ninho ela precisa passar por mais essa fase de aprendizado, ainda mais quando esta mãe é ninguém menos que Dona Hermínia, a senhorinha mais desbocada do cinema nacional atual. E pode apostar que em MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 a Dona Hermínia vai continuar aprontando.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 é uma comédia leve que dá continuidade direta aos acontecimentos dos filmes anteriores da franquia que se iniciou nos palcos de teatro, com a peça homônima criada por Paulo Gustavo, e inspirada em sua própria mãe.

Repleta de momentos bastante engraçados, MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 traz o comediante Paulo Gustavo em ótima performance. Mas como nem tudo são flores, a obra apresenta alguns problemas com o elenco de apoio e com a construção da personagem de Dona Hermínia. Também uma sensação incômoda causada pela forma como a película é estruturada, porque há momentos em você não sente que está assistindo a um filme, mas sim alguns sketches.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 e discorrer sobre como o conflito de linguagens pode atrapalhar uma obra que tinha tudo para despontar.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

MINHA-MAE-E-UMA-PECA-3-POSTER-LEPOP

-MARCELINA, MINHA FILHA, POR QUE EU NÃO CONHEÇO SEU NAMORADO AINDA?
-UÉ! PORQUE EU TÔ COM ELE HÁ TRÊS MESES.

-UÉ, MINHA FILHA! ENTÃO SE VOCÊ CONHECE O CARA HÁ TRÊS MESES E TÁ GRÁVIDA HÁ TRÊS MESES… VOCÊ DEU PRO CARA NO PRIMEIRO DIA, MINHA FILHA.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 não é o tipo de filme que se foca em apresentar uma trama elaborada, cheia de reviravoltas e salpicar situações cômicas ao longo dessa empreitada. Na verdade, simplicidade é algo que se percebe bem no decorrer do enredo. São decisões simples, ações simples, consequência simples. Isso não é nem necessariamente bom, tampouco ruim. É mais uma escolha de rota. De qual caminho seguir para construir as circunstâncias da história. Precisamente após isso é que começam a surgir os problemas.

Uma vez que se tem o norte da história definido, a linguagem passa a ter um papel muito importante, porque é esta quem traz consigo os personagens. É a linguagem da obra quem dita o ritmo, o feeling, se vai ter um apelo mais caricato, ou mais sério, talvez mais dramático, ou ainda que seja algo experimental. Se terá palavrões, nudez, ou foco no público mais família, enfim. Linguagem ainda vai além, porque a TV têm sua linguagem, assim como o cinema, as séries, as Sitcoms, os games, o teatro, literatura, HQs... Cada qual tem suas particularidades, formas e fórmulas de estruturação e apresentação.  Uma comédia, por exemplo, é apresentada de uma maneira diferente para o público dos quadrinhos do que para o público da internet. O mesmo vale com o cinema e as séries. Não só comédia, mas também todo e qualquer gênero e/ou subgênero dramatúrgico (seja literal ou ficcional) é estruturado de forma distinta dependendo da mídia a qual está sendo destinado. É aí onde as coisas ficam desconexas com o título analisado nesta crítica.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3, por diversas vezes, se apresenta como uma coleção de sketches. Há cenas inteiras que só servem ao propósito de entregar espaço para a personagem de Dona Hermínia proferir seus desbundes costumeiros de forma solta, sem que estes guiem a história para algum lugar. Em outras palavras, estas cenas só existem para que a personagem de Paulo Gustavo tenha falas, não para que a história vá do ponto “A” ao ponto “B”. E isso por um motivo: linguagem.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 tem uma mescla grande de linguagem de teatro e internet, mas pouco de cinema. Por si só, isso não é objetivamente ruim, mas desconexo com a mídia escolhida para apresentar a história ao público, consequentemente criando certa estranheza em quem assiste. Porque por mais engraçado que seja o trabalho de Paulo Gustavo esse problema não deixa de existir, e mais: soa como uma limitação imposta ao comediante, não do comediante.

MINHA-MAE-E-UMA-PECA-3-HERMINIA-3-LEPOP

-ME VÊ UM MAMÃO DESSE AQUI PRA SOLTAR O INTESTINO, MENINO.
-MAMÃOZINHO! MAIS ALGUMA COISA?

-ME VÊ UMA BANANA TAMBÉM.
-MAS BANANA PRENDE. A SENHORA NÃO TÁ QUERENDO SOLTAR?
-NÃO, EU QUERO EQUILIBRAR.

Em consequência da questão de linguagem, temos ainda um problema na estrutura da Dona Hermínia. Ela oscila entre ser uma protagonista ativa e ser uma protagonista passiva. Por várias vezes (esse assunto já foi abordado em outras críticas pra lê-las é só clicar aqui 1 e aqui 2). E o problema de ter um protagonista passivo/reativo é que este não age, não quer, não tem metas definidas, não tem ambições a atingir, não persegue um objetivo claro a fim de mover o enredo, a fim de puxar a história. Na verdade, um protagonista passivo é alguém que é puxado pela história. Alguém que só está onde está porque o roteiro diz que precisa estar, não porque tem uma necessidade pessoal a ser galgada ali.

Durante o primeiro e o segundo ato inteiros de MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 nós vemos Dona Hermínia titubear. Algumas vezes é ativa, outras tantas é passiva. O que leva o público a questionar se realmente há motivo pra se importar com Dona Hermínia. Ora, se ela mesma não tem metas a atingir e é o cerne da trama, por que o espectador deveria se importar com o que ela quer?

Verdade seja dita, no terceiro ato de MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 as rédeas da narrativa voltam às mãos de Dona Hermínia e a gangorra para, o problema é que esse deslize perdurou toda a introdução e desenvolvimento da película, comprometendo em muito a conexão da personagem principal com a audiência na cabine.

MINHA-MAE-E-UMA-PECA-3-HERMINIA-LEPOP

-PARÔ DE RESPIRAR. COMO É QUE RESOLVE?
-Ó, TAPINHA NAS COSTAS.

-NÃO, AÍ CÊ EXPLODIU O PULMÃO DA CRIANÇA, NÉ?

Este terceiro tópico é algo vejo em recorrência não só nos filmes do Paulo Gustavo, mas também nos do Leandro Hassum. O elenco. Não que o time de atrizes e atores selecionados para os projetos não seja competente. São. O problema é que Gustavo e Hassum são tão bons que o resto do casting não consegue acompanhar a “pegada” humorística destes. Novamente, voltamos a bater na tecla da linguagem.

Humor é, de forma bastante resumida, quebra de expectativa e timing. É aquele algo inesperado tão inesperado e numa hora tão improvável que te arranca risos. Aquela “tirada” que você não espera, aquele trocadilho que você não espera, aquela comparação que você não espera, etc. Quem consegue dominar esses aspectos de linguagem do humor, de maneira geral tende a retirar boas gargalhadas do público. O problema é que dominar essas características de linguagem não é uma tarefa fácil, tampouco é “da noite para o dia”. Mesmo humoristas consagrados treinam muito pra ter a fluidez necessária pra se destacar. É aí que entra o problema dos demais atores em MINHA MÃE É UMA PEÇA 3.

Se de um lado nós temos Paulo Gustavo com seu jeito despojado de interpretar, do outro nós presenciamos os demais do elenco de maneira lustrosa. Esse contraste é tão grande que chega a parecer que o casting não sabe o que fazer quando está em cena. É como se houvesse uma Avenida entre Gustavo e os outros. Porque por mais que o time de atores seja talentoso, a diferença de linguagem entre eles e Gustavo é abissal.

Enquanto Paulo Gustavo claramente se preocupa em como tornar um diálogo mais engraçado, os outros nitidamente se focam em como trazer mais veracidade para suas atuações, não em como auxiliar a construir o humor. E mais, é como se estes não tivessem outro propósito a não ser criar brechas e brechas para que Dona Hermínia tenha falas, o que, novamente, coopera para os pontos anteriormente destacados neste texto.

MINHA-MAE-E-UMA-PECA-3-HERMINIA-2-LEPOP

-EU QUERIA SABER MAIS SOBRE O PARTO ECOLÓGICO.
-QUE “ECOLÓGICO”, MARCELINA, QUE CÊ NUM É ECOLÓGICA?! FICA HORAS NO BANHO!

Bom, com os detalhes negativos levantados até agora, você deve estar se perguntando se MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 vale o ingresso. A resposta é: definitivamente. Embora os desfalques narrativos mencionados na crítica existam, eles não atrapalham o tom do humor no filme. Apenas causam incômodo em certos trechos, mas mesmo assim a obra vai arrancar gargalhadas dos que forem ao cinema.

Paulo Gustavo é sempre um show à parte e a maneira leve com a qual a trama entrega as patacoadas de Dona Hermínia ao público também entretém bastante. Aliás, de maneira geral, MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 é uma boa comédia. Talvez não tão marcante quanto os títulos anteriores da franquia, mas ainda assim é um bom filme e de certo vale o ingresso.

Se você já acompanha Dona Hermínia de outros carnavais, MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 vai te agradar bastante enquanto fã. Agora, se você nunca assistiu nenhum da trilogia, mas bateu aquela curiosidade… Corre, que ainda dá tempo. MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 estreia dia 26 de dezembro nos cinemas nacionais.

MINHA-MAE-E-UMA-PECA-3-CRITICA-MARCELINA-LEPOP

VEREDITO

Divertida, leve, descontraída, com problemas de linguagem, elenco e uma protagonista que oscila entre puxar e ser puxada pelo Plot, MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 é uma comédia de arrancar gargalhadas em vários momentos.

Com um humor sempre afiado, Paulo Gustavo conduz o público pelo universo paralelo que é estar na presença de Dona Hermínia, enquanto aproveita o fato da personagem ser inspirada na própria mãe para contar aos fãs parte de sua história de vida ao longo da franquia.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Minha Mãe É Uma Peça 3
Lançamento: 26 de dezembro de 2019
Distribuição: Downtown Filmes, em codistribuição com Paris Filmes
Direção: Susana Garcia
Roteiro: Paulo Gustavo, Fil Braz e Susana Garcia
Trilha Sonora: Zé Ricardo
Edição: Leonardo Gouvea
Cinematografia: Dante Belluti

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 é uma obra inspirada na peça teatral homônima criada por Paulo Gustavo.

Elenco: Paulo Gustavo, Mariana Xavier, Rodrigo Pandolfo, Herson Capri, Samantha Schmütz, Alexandra Richter, Patricya Travassos, Malu Valle, Stella Maria Rodrigues, Lucas Cordeiro, Cadu Fávero, Bruno Bebianno, Honey Lauren, Bruna Bueno, Jesse Grant, Davi Goulart, Marcus Vinícius.

Trailer:

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 - O FILME : TRAILER OFICIAL • DT

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

E aí, curtiu? Então compartilhe com geral e mostre o LEPOP pra mais gente.

Se você é novo(a) por aqui, aproveite pra conhecer mais do LEPOP:
Gosta de Contos e Literatura? Então conheça o CRONICANDO
Gosta de Games? Então dê uma conferida no LEPOPGAMES e no QUICK MATCH
Gosta de Podcast? Então ouça o LEPOPCAST.
Gosta de Action Figures? Então acompanhe o LEPOP ACTION REVIEW.

Se depois de tudo isso você viu que vale a pena acompanhar o nosso trabalho, se inscreve lá no nosso canal do YouTube, dá uma curtida na nossa página no Facebook, segue a gente no Instagram e no Twitter. Assim você fica por dentro de todas as novidades daqui do LEPOP. E pra não perder nenhuma notificação você pode entrar no nosso canal no Telegram.

E já que você gosta de cinema:

Aproveite também pra ler outras das nossas críticas.


Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.