Le|Pop
Nao-Mexa-Com-Ela-Banner-Critica-Lepop

NÃO MEXA COM ELA | CRÍTICA

Orna Haviv é uma mulher jovem, casada, mãe de três filhos e que precisa voltar ao mercado de trabalho para ajudar o marido. O casal tem um restaurante recém-aberto que não está indo bem. Ela consegue, então, emprego em uma imobiliária de alto padrão e logo começa a crescer profissionalmente, mas o sucesso no serviço é seguido por assédios sexuais, por parte de seu chefe. Agora, Orna precisa enfrentar a situação e decidir o que fará de sua vida daquele momento em diante, percebendo-se mais sozinha do que nunca. Este é o plot de NÃO MEXA COM ELA.

NÃO MEXA COM ELA, produção israelense da diretora e roteirista Michal Aviad, estreia hoje, 08 de agosto, nos cinemas brasileiros, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília, Salvador, Recife, Porto Alegre, Vitória e Santos.

Com um enredo forte e tocante, NÃO MEXA COM ELA é uma produção ousada, disposta a causar mal-estar no público, mas que no auge do terceiro ato opta por algumas decisões narrativas que cortam o impacto da conclusão da película. Contudo, ainda assim, boa parte da proposta de NÃO MEXA COM ELA foi entregue de forma assertiva. E nesta crítica vamos discorrer sobre seus pontos altos e baixos.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

Nao-Mexa-Com-Ela-Critica-Orna-Marido-Lepop

– ORNA HAVIV. ÓTIMAS RECOMENDAÇÕES. ESTAMOS PROCURANDO POR ALGUÉM COM EXPERIÊNCIA PARA ME AJUDAR.

É crucial para o início dessa crítica, esclarecer que NÃO MEXA COM ELA é um filme propositalmente desacelerado. A história não se preocupa em firmar um ritmo frenético de acontecimentos. Não. Definitivamente, NÃO MEXA COM ELA é uma obra que cria seu próprio tempo, que constrói sua própria rítmica. E isso é interessante porque faz o público entrar na vida de alguém que está tentando retomar o ritmo de trabalho, então toda informação é dada aos poucos e conforme Orna vai crescendo e descobrindo seu potencial a narrativa sobe a ladeira com ela.

Intencionalidade é a palavra-chave para NÃO MEXA COM ELA. Tudo é meticulosamente pensado para fazer o espectador sentir na pele o desconforto crescente das situações que Orna vivencia. Esse é um ponto muito alto da direção de Michal Aviad. A diretora opta por câmeras de mão, para seguir a protagonista nas ruas e nas construções, possibilitando closes mais imersivos e intimistas; cores pouco saturadas para transmitir incerteza, solidão e pesar; pouquíssimo apelo musical para ambientar melhor a atmosfera de crueza urbana… Até a mobília do apartamento de Orna é posicionada cuidadosamente para fazer o ambiente parecer menor, claustrofóbico, como se não houve espaço para a protagonista mesmo em sua própria casa.

Enquanto que por um lado temos esse cuidado na construção da ambiência, da atmosfera sufocante de NÃO MEXA COM ELA, por outro lado a película denota um ponto fraco numa particularidade narrativa: a forma como Orna é puxada pela história, e não o contrário. Em termos mais diretos, a protagonista não é ativa. Não é ela quem dá rumo aos acontecimentos da película. Na verdade ela é uma protagonista passiva, que é conduzida pela história. Você até vê Orna ativa ao conseguir o emprego na cena de abertura, e ao termino do filme, quando finalmente decide o que fazer a respeito dos assédios. Mas nisso temos um trecho do início da narrativa e outro trecho do final, há ainda todo o desenvolvimento que preenche essa lacuna e justamente nesse desenvolvimento nós só vemos Orna ser empurrada pela história. Não é ela quem escolhe o que fazer, não é ela quem dá o tom dos acontecimentos, não é ela quem traz a responsabilidade de fazer a narração andar. É como se ela tivesse de ir até determinados locais simplesmente para vivenciar algo porque o roteiro quer. Não é apresentado motivo de ela estar onde está, tampouco de ela ter escolhido conduzir a história aonde precisava chegar.

Quando se tem um protagonista que não age, mas que só reage, fica mais difícil sentir empatia por sua personalidade. E aqui eu quero deixar bem claro que não me refiro ao dilema ao qual Orna é colocada, tendo de optar entre por comida na mesa ao custo de assédios sexuais, ou largar o emprego, denunciar seu chefe e ficar no olho da rua. Não. O que quero dizer com “ser ativa ou ser reativa” é relacionado à forma como a personagem foi construída e como as ações da mesma implicam no andamento da história.

Num primeiro momento, quando assisti NÃO MEXA COM ELA, cheguei a considerar que talvez isso pudesse ser proposital, haja vista a intenção de ritmo pesaroso, ambientação opaca e claustrofóbica da produção. Mas ao analisar mais minuciosamente os detalhes da forma de Orna interagir com os demais personagens e situações fica evidente que não se trata de uma escolha de roteirização, mas de um deslize na estruturação da personagem.

Nao-Mexa-Com-Ela-Critica-Restaurante-Lepop

– E SE NÃO DER CERTO?
– ELE ME DEU UMA CHANCE.

Novamente falando de pontos positivos, NÃO MEXA COM ELA acerta muito tanto na maneira como molda a personalidade do chefe abusador de Orna, quanto na construção das cenas de investidas do mesmo. Benny, o chefe, não é um antagonista caricato, falastrão, que se gaba a todo o momento. Na verdade, Benny é o oposto disso. É bem educado, vive pedindo desculpa por seus atos, bem articulado… Está mais para algo do tipo “bate e assopra”. E a relação de Benny com Orna é muito bem construída, pois o roteiro consegue evidenciar que Orna é uma mulher que está sempre disposta a dar uma segunda chance às pessoas, então quando a primeira tentativa de Benny ocorre e não tem resultado, o antagonista se apressa para pedir desculpas e reverte a situação, se valendo da boa fé da funcionária.

A forma como o roteiro evidencia o conflito entre Orna e Benny é realmente bem feita. O predador cresce nas fraquezas da vítima, com pequenas bajulações, favores fiscais ao marido de Orna, ligações de negócios nos horários mais inusitados fora do expediente para tratar de absolutamente nada com Orna, situações constrangedoras no serviço… A diretora teve um grau muito elevado de preocupação com a caracterização de Benny, de realmente criar alguém ardiloso, manipulador. E a narrativa consegue deixar bem clara também a imprevisibilidade da maneira de Benny agir, ora numa investida direta, súbita; ora com gracejos mergulhados em segundas e terceiras intenções. Tudo isso, tudo esse cuidado de Michal Aviad criar essa personalidade tão velhaca do dono da imobiliária coopera muito, mas muito mesmo para que o espectador fique apreensivo por cada instante em que Orna está na presença do chefe. É como se uma sirene de alerta começasse a tocar, sem parar, toda vez que Orna tem de ir trabalhar.

Nao-Mexa-Com-Ela-Critica-Benny-Orna-Lepop

– SE IMPORTA SE EU FIZER UM COMENTÁRIO? ACHO QUE VOCÊ FICA BEM DE CABELO SOLTO.

Entretanto, se o roteiro acerta tão bem em criar uma atmosfera realmente sufocante, que leva o público a se inquietar nas poltronas, por outro lado erra nas decisões narrativas de todo o terceiro ato, de tudo o que se refere à forma de Orna lidar com a resolução de seu problema.

A trama cria uma solução simplista para o problema e força essa solução como sendo a única possível, a melhor possível… Só que a entrega do ato final, ou melhor, a reação da plateia com a entrega do ato final é a clara resposta de que não foi a maneira mais proveitosa de finalizar a história de NÃO MEXA COM ELA.

De fato, você até vê ramificações interessantes de consequências multilaterais, mas elas acabam soando chochas pela escolha do tipo de resolução. Isso porque NÃO MEXA COM ELA constrói as cenas de forma mais crua, sem firulas – embora sejam cenas longas, não há enfeites ou malabarismos no roteiro para estender as cenas. Então, quando se chega ao terceiro ato, a solução encontrada para lidar com o problema é, de longe, a menos impactante. E fica ainda menos impactante pela forma como Orna se agarra àquilo, como se fosse a Pedra de Roseta, basicamente uma firula.

Por mais que a partir desse ponto Orna passe a ser uma protagonista ativa, que guia a história, que toma as rédeas, o terceiro ato já não tem tanto peso dramático por conta do que foi atribuído como decisor para findar os abusos.

Nao-Mexa-Com-Ela-Critica-Orna-Benny-Esposa-Lepop

– A PARTIR DE AGORA, TRABALHAMOS PARA ELA.

Entre esses altos e baixos, vale destacar que NÃO MEXA COM ELA, ainda assim, tem uma entrega honesta dentro de sua proposta, que era a de causar mal-estar no público ao presenciar tão de perto as situações de assédio sexual vividas pela protagonista. E nisso a obra tem um destaque bastante elevado.

Outro ponto a ser destacado positivamente é o elenco, porque é realmente bom. Liron Ben-Shlush (Orna), Menashe Noy (Benny) e Oshri Cohen (marido de Orna) têm uma química muito boa na frente das câmeras. E a fluidez de seus diálogos é algo que deve ser mencionado positivamente também.

De maneira geral, o trabalho da diretora Michal Aviad em NÃO MEXA COM ELA tem um balanço positivo, que infelizmente só não foi ainda mais positivo por conta dos problemas descritos nesta crítica. Todavia, se você é fã de Cinema de Drama, fica o convite para procurar a sessão de exibição mais próxima de NÃO MEXA COM ELA e tirar suas próprias conclusões.

Nao-Mexa-Com-Ela-Critica-Predio-Lepop

VEREDITO

Inquietante, direto, com problemas na construção da protagonista, um final não tão impactante, com boas atuações e uma excelente construção de atmosfera, NÃO MEXA COM ELA é um filme que faz uma entrega muito assertiva em sua proposta, levando o espectador ao mal-estar de acompanhar os assédios vividos pela personagem principal.

Contudo, ao optar por uma resolução simplória, a película retira boa parte do impacto que o terceiro ato poderia ter atingido. E somando isso aos problemas de estruturação de Orna que se estendem por basicamente dois terços da obra, NÃO MEXA COM ELA, infelizmente não atinge seu potencial narrativo e de Ótimo cai para Regular.

NÃO MEXA COM ELA | CRÍTICA 1

FICHA TÉCNICA

Título Original: Isha Ovedet
Lançamento: 08 de agosto de 2019
Direção: Michal Aviad
Roteiro: Sharon Azulay Eyal, Michal Vinik, Michal Aviad
Designer de Som: Aviv Aldema

Elenco: Liron Ben Shlush, Menashe Noy, Oshri Cohen, Irit Sheleg, Dorit Lev-Ari, Gilles Ben-David, Corinne Hayat

Trailer:

Não Mexa com Ela | Trailer Legendado

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

E aí, curtiu? Então compartilhe com geral e mostre o LEPOP pra mais gente.

Acompanhe mais do LEPOP:
Gosta de Contos e Literatura? Então conheça o CRONICANDO
Gosta de Games? Então dê uma conferida no LEPOPGAMES e no QUICK MATCH
Gosta de Podcast? Então ouça o LEPOPCAST.
Gosta de Action Figures? Então acompanhe o LEPOP ACTION REVIEW.

E aproveite pra se inscrever em nosso canal do YouTube, curtir nossa página no Facebook, seguir a gente no Instagram, no Twitter. Assim você fica por dentro de todas as novidades.

Aproveite também pra ler outras das nossas críticas.


Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.