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O MISTÉRIO DE HENRI PICK | CRÍTICA

Uma ambiciosa editora de livros descobre, em uma biblioteca de manuscritos rejeitados, aquilo que poderia ser descrito como “o romance dos romances”. Tão incrível e envolvente que era difícil acreditar que o mesmo havia sito rejeitado. Ela então publica a obra, mas passa a ser questionada por um renomado crítico literário que acredita que o tal “romance dos romances” seja uma farsa. Esse é o plot de O MISTÉRIO DE HENRI PICK.

De começo esse enredo pode não se mostrar promissor. Eu admito que não se mostrou pra mim. Mas quando assisti ao longa tive uma grata surpresa, que talvez você também tenha.

O MISTÉRIO DE HENRI PICK apresenta uma história que parece boba, mas que se torna envolvente pela forma como conduz os protagonistas a buscarem pela verdade.

Nesta crítica vamos elucidar alguns dos pontos altos e baixos do longa que estreia no dia 25 de julho nos cinemas brasileiros.

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– “AS ÚLTIMAS HORAS DE UMA HISTÓRIA DE AMOR”, DO MISTERIOSO HENRI PICK. UM VERDADEIRO TRIUNFO LITERÁRIO.

Poucas vezes eu me senti tão imerso em uma Comédia Dramática. É um gênero com uma proposta muito corajosa, mas que se dosado de maneira errada pende apenas para um dos lados, drama ou comédia. Justamente por serem opostos é preciso saber balancear as doses ao longo da história para não entediar o espectador e/ou vender a mensagem errada. E esse balanço o diretor e roteirista Rémi Bezançon atinge com maestria, com a parceria de Vanessa Portal, em O MISTÉRIO DE HENRI PICK.

Chega a ser curioso como uma proposta tão simplória pode gerar uma narrativa tão interessante. E depois de analisar bem a trama de O MISTÉRIO DE HENRI PICK acredito que posso descrever os segredos da dupla Bezançon e Portal nessa divertida e intrigante jornada em busca da verdade por traz da autoria do tal “romance dos romances”.

Basicamente, O MISTÉRIO DE HENRI PICK tem dois fatores primordiais, muito bem explorados, tornando a busca tão interessante. Primeiro, Bezançon e Portal tornam absolutamente tudo pessoal para os envolvidos; depois, enlaçam diversos mistérios “menores” a mistérios “maiores”. E por fim, ligam estes ao maior de todos: como Henri Pick escreveu aquele livro? Neste momento, você, leitor, argumenta:

– Ué?! Mas é só perguntar pro tal Henri Pick.

Pois é, caro leitor. Isso não seria um problema se o dito cujo não estivesse morto. O que nem é um spoiler. Está no trailer. E justamente tal ponto deixa a busca por essa resposta mais imersiva.

Henri Pick era um pizzaiolo bretão, de poucas palavras, não muito letrado, basicamente xucro, que não aparentava ser capaz de escrever uma obra tão majestosa entre uma pizza e outra. Mas Madeleine (Josiane Stoléru), sua viúva, e Joséphine (Camille Cottin), sua filha acreditam – mesmo surpresas – que Henri era plenamente capaz, e com a ajuda de Daphné Despero (Alice Isaaz), a editora que encontrou e publicou o manuscrito, estão dispostas a encarar a bisbilhotagem de Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), o mais famoso e respeitado crítico literário francês da atualidade.

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– REALMENTE ACHA QUE O PAPAI ESCREVEU O LIVRO ENTRE DUAS FORNADAS DE PIZZA?

Daphné Despero é uma editora de livros jovem e ambiciosa, noiva de um escritor igualmente jovem e ambicioso. Ambos buscam ascender profissionalmente. Daphné, almejando publicar algum título memorável; e Fred Koskas (Bastien Bouillon), seu noivo, anseia escrever algo que decole sua carreira. Quando Daphné encontra a obra de Pick, publica e começa a viver os dias de glória advindos do reconhecimento de seu ótimo trabalho Fred se sente deixado de lado e fica enciumado porque sua noiva sequer parou para ler seus trabalhos alguma vez e agora mal tem tempo para o relacionamento. Ou seja, para Daphné é pessoal a integridade de Henri Pick, pois isso lhe garante status no trabalho, enquanto que para Fred é pessoal que a desconfiança com a obra de Pick chegue logo a um fim, pois quem sabe assim ele pode ter a atenção de sua noiva novamente.

Jean-Michel Rouche é um exímio crítico literário com anos e anos de bagagem nas costas e uma reputação que construiu com muito esforço. Entretanto, em seu programa ao vivo na TV, quando recebe a viúva e a filha de Pick para falarem do romance, Rouche fica indignado com o fato de o autor ser pouco letrado mas ter tamanha maestria em escrita – ainda mais uma escrita que demonstra conhecimento nada modesto em literatura russa. O crítico publicamente debocha de Pick, ofendendo a família do pizzaiolo, que deixa o estúdio na mesma hora. Então Rouche perde o emprego e ao chegar em casa sua esposa ainda pede divórcio, em grande parte pela forma esnobe como tratou os Pick em seu programa, e outra parte por alegar que Rouche já não vê mais beleza na vida e que agora é um homem que olha os outros de cima. Ou seja, é pessoal para Madeleine e Joséphine que a história se esclareça para que a memória de Henri seja honrada; e é pessoal para Jean-Michel Rouche que Henri de fato não seja o verdadeiro autor, assim o nome e a honra de Rouche enquanto crítico literário se restabelece.

Com essa simples premissa de tentar descobrir o que diabos realmente aconteceu, se de fato Henri Pick era ou não um gênio literário, o roteiro consegue criar um grau de importância altíssimo para os cinco principais envolvidos na história de O MISTÉRIO DE HENRI PICK, fazendo o público sentir empatia de cara com cada um justamente por ser uma questão tão pessoal para eles. Mas o que é ainda mais interessante em O MISTÉRIO DE HENRI PICK é que à medida que cada personagem vai descobrindo algo novo sobre os dotes narrativos de Pick também desvenda segredos sobre si mesmo e os demais.

É bem verdade que alguns têm mais segredos e mais bem guardados do que outros, mas de fato todos têm segredos, e a forma sutil como a trama vai entregando isso ao espectador é muito bem construída. Sempre ponderando entre o humor leve e ácido em alguns momentos, e o drama bem articulado, tangível vivido pelos protagonistas. Essa ponderação é um ponto altíssimo de O MISTÉRIO DE HENRI PICK porque toda vez que se acha que a história vai entrar em algum momento maçante, pouco imersivo ou irrelevante você se surpreende com alguma quebra de expectativa. Seja para o lado cômico, seja para o lado trágico. Tudo sem exageros, na medida certa.

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– NÃO SEI QUEM ESCREVEU ESSE LIVRO, MAS VOU ESNCONTRÁ-LO.

O MISTÉRIO DE HENRI PICK nos faz acompanhar Jean-Michel Rouche como foco principal do enredo e Joséphine Pick como sua contraparte. Ambos têm muito em comum, bem como inúmeras diferenças, o que mais uma vez balanceia o longa. Aliás, a química entre eles é muito boa, muito divertida e a forma como foram construídos coopera muito para essa diversão do espectador. É basicamente uma viagem por grandes clássicos da literatura, pois conforme as buscas de Rouche e Joséphine avançam, empacam… Conforme vão se entendendo ou desentendendo acabam citando acontecimentos semelhantes que já ocorreram nas páginas de livros renomados. Genial.

Rouche e Joséphine conseguem realmente manter a atenção da plateia presa. Os atores incorporaram tão bem seus personagens que você compra a paixão de cada um em solucionar o mistério na mesma hora. E o pingue-pongue das descobertas que ora pendem positivamente para Rouche, ora pendem positivamente para Joséphine ajuda não só a atiçar a curiosidade do público como também a elevar a incerteza de quem estará certo no final das contas.

Outro ponto alto de O MISTÉRIO DE HENRI PICK é como os diálogos são precisos. Cada fala é meticulosamente pensada para aguçar a curiosidade de quem assiste, sem entregar nada além da conta, nem gerar confusão por omissão de informações importantes. Isso mostra a capacidade de Rémi Bezançon e Vanessa Portal na hora de adaptar o livro de David Foenkinos para as telas dos cinemas.

Completando a película com o devido primor, a trilha sonora é muito afortunada e guia perfeitamente tanto a narrativa quanto o público pelos sentimentos vivenciados pelos protagonistas ao longo de O MISTÉRIO DE HENRI PICK. É um casamento realmente muito bem orquestrado. Sem rebarbas.

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– QUEM VOCÊ PENSA QUE É? COMO TEM CORAGEM DE VIR AQUI? VOCÊ ESTÁ LOUCO?

Curiosamente, em meio a tantos elogios a O MISTÉRIO DE HENRI PICK, especialmente na forma como os dramas são construídos, o ponto baixo da película é justamente a estrutura de apresentação de um desses dilemas. Na verdade, um dos dilemas mais importantes para o personagem principal, Rouche, o término de seu casamento.

O MISTÉRIO DE HENRI PICK peca em não estabelecer, logo de início ao público, que Rouche era casado e como era o seu relacionamento com a esposa. Você não sabe como ele era antes, se era do tipo que recitava poemas para ela, se era carinhoso, se lembrava de todas as datas importantes, se a presenteava com flores… Você também não tem acesso ao agora, como está no momento, se não é mais romântico, se não é mais carinhoso, se não dá mais atenção a datas comemorativas do casal, se não recita mais poemas para a amada… Você não tem acesso a nada disso. O roteiro não entrega nenhuma dessas informações para a plateia. Tudo o que você vê é a abertura do filme mostrando o programa de Rouche, e após mais alguns minutos de história pra frente você presencia nosso protagonista recebendo a publicação de Pick em seu apartamento repleto de livros, daí se tem uma elipse (omissão de tempo) e Rouche termina de ler a obra. Só.

Por essa escolha, de não apresentar um fato tão importante para melhor compreender a vida de quem protagoniza a trama, o diálogo de Rouche com sua ex-esposa é chocho. Não tem peso dramático quando ela diz que agora ele é um homem que não vê mais beleza na vida. E pior, também não é engraçado porque, novamente, não foi estabelecido como o casal interagia. Você não sabe se eram alegres, se sorriam o tempo todo, se viveram grandes desafios juntos… Nada. Nem um flashback. Então se tem um diálogo importantíssimo para o desenvolvimento do protagonista, com uma decisão dolorosa a ser tomada… Mas que no final das contas acaba não sendo nem dramático, nem sequer engraçado porque o espectador é privado de acessar esse ponto-chave da vida do personagem que puxa a história.

É infelizmente um caso de “Show, Don’t Tell” (Demonstre, Não Diga), algo que já abordamos em outras críticas aqui no LEPOP. Porque toda vez que você DIZ para o público algo que aconteceu a algum personagem, em vez de DEMONSTRAR e dar ao público acesso aos acontecimentos, você rouba a emoção da cena. Impede maior conexão com as motivações que guiam aquele personagem.

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VEREDITO

Divertido, inteligente, envolvente, com um problema de omissão que era simples de resolver, mas ainda assim surpreendente, O MISTÉRIO DE HENRI PICK é um filme que sabe como prender a atenção do público sem apelos, utilizando apenas uma boa trama.

Com uma premissa que parece boba, mas que se mostra provocadora e jocosa, O MISTÉRIO DE HENRI PICK entrega uma ótima dose de diversão a quem gosta de enigmas, transformando a necessidade de cinco pessoas de firmarem sua honra em uma espécie de caça ao tesouro, onde o vencedor desvenda um mistério mais elaborado do que se pensava, com um final mais surpreendente do que se imaginaria.

Mas para desvendar O MISTÉRIO DE HENRI PICK só a partir de 25 de julho, nos cinemas.

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Le Mystère Henri Pick
Lançamento: 25 de julho de 2019
Direção: Rémi Bezançon
Roteiro: Rémi Bezançon, Vanessa Portal
Trilha Sonora: Laurent Perez Del Mar

O Mistério de Henri Pick é uma adaptação do livro homônimo de David Foenkinos.

Elenco: Fabrice Luchini, Camille Cottin, Alice Isaaz, Bastien Bouillon, Josiane Stoléru, Astrid Whettnall, Marc Fraize, Hanna Schygulla, Marie-Christine Orry, Vincent Winterhalter, Florence Muller, Philypa Phoenix, Lyès Salem, Tristan Carné, Annie Mercier, Marion Petitjean, Vanessa Marillier, Jeanne François, Mélanie Leray, Timéo Guennoc, Jean Kergrist, Youlia Zimina, Muriel Riou, Hervé Mahieux, Eva Lallier, Clément Vieu, Thierry Barbet, Aymeric Cormerais, Pierre Bourel, Louka Meliava, Louis Descols, Serguei Vladimirov, Jean-Claude Tagand, Michel Nabokoff.

Trailer:

O Mistério de Henri Pick – Trailer

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.