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O OFICIAL E O ESPIÃO | CRÍTICA

Paris, França, 1884. O Capitão Alfred Dreyfus, um dos poucos judeus a integrar o exército francês na época é injustamente acusado do crime de alta traição por colaborar com os alemães. Em uma época em que os franceses ainda não tinham engolido a derrota na Guerra Franco-Prussiana, o nacionalismo e o antissemitismo eram via de regra, uma conspiração envolvendo o alto escalão das forças armadas francesas fazia sentido para firmar novamente a fé do povo em seus líderes, no Estado, no poderio bélico e na inteligência francesa. Dreyfus é condenado e preso. Nesse meio tempo, um de seus antigos professores na escola de guerra assume o comando da Inteligência, o Coronel Georges Picquart. E ao se deparar com as pistas de uma investigação, Picquart percebe que Dreyfus é inocente, que há um esquema armado contra seu ex-aluno. Começa então uma batalha investigativa, jurídica, midiática e popular para provar a inocência de Dreyfus, batalha esta que cobrou altos preços de muitos. Este é o Plot de O OFICIAL E O ESPIÃO, suspense dramático que estreia hoje, 12 de março, com direção de Roman Polanski, estrelado por Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner, Grégory Gadebois e Hervé Pierre. Com distribuição da California Filmes.

O OFICIAL E O ESPIÃO aborda uma história real repleta de desconfianças, inimizades, perdas, perdas, perdas e mais perdas, com raros momentos felizes. E do diretor Roman Polanski alinha isso muito bem em O OFICIAL E O ESPIÃO. Há uma atmosfera de insegurança, perigo à espreita durante todo o filme, o que eleva muito a tensão e o fator espionagem da história. Porém, adaptar para o cinema eventos reais não é uma tarefa fácil. E muitas vezes até mesmo grandes diretores e roteiristas renomados patinam em certos aspectos, fazendo a narrativa soar desinteressante em alguns momentos. Este mesmo problema, infelizmente, também se faz presente em O OFICIAL E O ESPIÃO, que embora tenha pontos altos realmente altos, ainda assim exibe ribanceiras no roteiro que desconectam completamente o espectador da experiência narrativa.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de O OFICIAL E O ESPIÃO e discorrer como Saltos Temporais e baixo foco na empatia podem atrapalhar o desenvolvimento de um filme.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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-ACUSO O GENERAL MERCIER DE SER CÚMPLICE DE UMA DAS MAIORES INJUSTIÇAS.

Adaptar histórias reais para as telonas é sempre uma tarefa árdua. É preciso se valer de certo grau de liberdade criativa para modificar algumas camadas de acontecimentos para que todos os envolvidos na trama estejam sendo guiados pela mesma Motivação Temática, assim a audiência se mantém atenta porque todos os personagens, mesmo que em maior ou menor grau, enfrentam os mesmo problemas, almejam as mesmas coisas. Aliás, recentemente publicamos a crítica de um filme que teve problemas sérios em sua estrutura narrativa por não fazer seus personagens terem as mesmas Motivações Temáticas. Para ler a crítica basta clicar aqui. E isso (crítica indicada), se tratando de uma ficção. Quando o assunto é a vida real esse fator passa a ser ainda mais determinante.

Agora, como exercer liberdade criativa sobre acontecimentos reais para colocar todos os personagens de uma história sob as mesmas Motivações Temáticas? E pior, como fazer isso sem alterar os rumos da história em si? Como “costurar” todos envolvidos no mesmo tecido motivacional sem alterar suas personalidades, crenças, decisões e posicionamentos? Percebeu o “X” da questão? É justamente por isso que adaptar histórias reais para o cinema é um baita desafio. Sempre.

O OFICIAL E O ESPIÃO consegue amarrar bem as motivações sobre um tema, Dever. Polanski alinha, a partir daí, tanto anseios quanto conflitos baseados no dever de cada uma das peças da história. Dreyfus, por exemplo, é um Capitão que sempre honrou seu dever junto ao exército francês, mas que acaba tendo a lealdade de seu dever questionada e por isso é preso. O Coronel Georges Picquart também é um homem que sempre colocou o dever acima de sua própria integridade, inclusive enquanto instrutor de Dreyfus, pois mesmo Picquart sendo antissemita jamais deixou que isso interferisse em suas obrigações como professor. Justamente por ter seu dever muito bem fundamentado, Picquart é confrontado por seus superiores a abandonar o Caso Dreyfus, pois abandonar aquele judeu “era seu dever”. O mesmo vemos com os demais oficiais das forças francesas. Todos são movidos pelo dever. Um dever cego e unilateral de tentar restabelecer a confiança da nação em seu exército? Sim, mas ainda assim é um dever. E todos os personagens estão dispostos a morrer pelo dever. Este é um ponto altíssimo de O OFICIAL E O ESPIÃO, pois faz o espectador mergulhar de cabeça na trama e presenciar o quão determinados eram aqueles comandos. Isso ajuda a construir o clima de tensão, porque todos os conflitos se dão pelo mesmo motivo, como também cria uma ambiência de desconfiança e perigo que é de dar inveja em muito filme de espionagem por aí. Aliás, isso é o que falta em muito filme de espionagem por aí.

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Fotos por: Guy Ferrandis

-ACUSO O GENERAL BILLOT DE TER PROVAS DA INOCÊNCIA DE ALFRED DREYFUS E OMITI-LAS.

Como nem tudo são flores, se de um lado a liberdade criativa de Polanski estabelece uma muito boa Motivação Temática que amarra os conflitos e anseios dos protagonistas de O OFICIAL E O ESPIÃO, por outro lado essa mesma liberdade criativa não é explorada no que tange o sofrimento de Dreyfus na ilha-prisão a qual é sentenciado. Isso acarreta problemas de empatia da parte do público para com Dreyfus.

Nós já abordamos em outras críticas o problema de se expandir demasiadamente os pontos de vista de um filme, pois quanto mais pessoas você apresenta numa história e as faz ter importância para o andar dos fatos, mais tempo de roteiro você precisa destinar para introduzir as qualidades, defeitos, crenças, traumas, alegrias, ambições e motivações dessas pessoas. Como também deixamos claro que “tempo” é algo muito caro em um filme, por isso o uso da Arma de Chekhov é tão importante.

Agora, uma coisa é você introduzir uma tonelada de personagens e querer contar a história pelos olhos de todos eles, outra coisa é você ter um personagem (ainda que não o protagonista) que foi injustamente sentenciado à prisão perpétua e não gastar sequer cinco minutos (de um total de duas horas e doze) para mostrar ao público o que esse personagem enfrentou, o quanto sofreu, como sofreu, o quanto chorou, se chorou, o quanto sentiu saudades de sua família, as dificuldades que passou, se foi vítima de maus tratos de outros presos e/ou guardas. Nada. Sequer o sofrimento da família de Dreyfus é exibido. Ao todo, são cerca de três ou quatro cenas que mostram Dreyfus na prisão. Somadas, as cenas não chegam a totalizar dois minutos. E mais, nessas cenas mal se vê Dreyfus sofrer. É quase como se ele estivesse conformado com o fato de ter sido preso injustamente.

Qual o problema disso? Primeiro de tudo é o famigerado Show Don’t Tell (Demonstre, Não Diga) que abordamos inúmeras vezes aqui. É muito mais poderoso, impactante, para a audiência VER o decorrer de um fato e suas consequências do que OUVIR sobre os mesmos. E é exatamente o caso de O OFICIAL E O ESPIÃO. O espectador praticamente não presencia o sofrer de Dreyfus, apenas ouve – raramente – mencionarem que o Capitão injustiçado sofre na prisão. Com isso, o público basicamente não se comove com a injustiça feita ao judeu.

O segundo problema em não colocar a plateia com Dreyfus na sela pra acompanhar sua luta diária, suas superações e batalha entre manter ou perder de vez a esperança, é que isso retira completamente o senso de urgência, e por causa disso, quem assiste a O OFICIAL E O ESPIÃO não sente a necessidade de retirarem o Capitão Dreyfus de trás das grades o mais rápido possível, pra que a justiça seja feita o quanto antes. Não, você, enquanto espectador, simplesmente aceita a estadia forçada de Dreyfus no xadrez e se algum dia ele sair de lá, mesmo que com 80 anos, “tudo bem. O que importa é que ele saiu”. Percebe o problema? E tem mais, como se não bastasse o roteiro te FALAR sobre o sofrimento de Dreyfus em vez de MOSTRAR, o filme ainda faz questão de mencionar Dreyfus pouquíssimas vezes ao longo de toda a história. Esse detalhe causa uma desconexão incrível, porque tem horas que você simplesmente se esquece do motivo de Picquart estar sendo perseguido por seus compatriotas e colegas de farda. Chega uma hora que você sequer lembra da existência de Dreyfus. E por mais que haja quem queira argumentar que isso é “proposital”, o fato é que essa decisão é um baita desfalque, é um baita problema. Porque os personagens da história podem (e devem) esquecer a existência de Dreyfus. Eles precisam apagar qualquer memória assimilada ao Capitão da artilharia. O sucesso da trama, da conspiração depende disso. É o público, o espectador que não pode esquecer a pessoa de Dreyfus, caso contrário esse mesmo público começa a questionar qual o motivo de Picquart estar sofrendo ameaças… E um filme que faz a audiência esquecer o motivo pelo qual o protagonista age, luta, é um filme que pouco será indicado aos amigos.

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Fotos por: Guy Ferrandis

-ACUSO OS PERITOS DE TEREM ALTERADO OS RELATÓRIOS DE FORMA FRAUDULENTA.

Há ainda um terceiro problema, bem grave, na estrutura de O OFICIAL E O ESPIÃO, os Saltos Temporais. E este é grave por dois fatores: destaca ainda mais o impasse do Show Don’t Tell e retira a plateia do estado imersivo da narrativa.

O OFICIAL E O ESPIÃO segue um ritmo tímido, de início, mas ainda assim compassado. Os acontecimentos vão se enfileirando de maneira bastante natural, sem enrolação, mas também não são frenéticos. Assim, conforme fatos importantes precisam ser estabelecidos na história, Saltos Temporais são utilizados pra nos guiar até tais momentos. Só que o problema de O OFICIAL E O ESPIÃO é que são vários e vários Saltos. São tantos que causam estranheza, pois o público está imerso em alguns acontecimentos, vendo o desenrolar de certos assuntos… E então, do nada, um Salto Temporal te joga pra 3, 4 anos pra frente, onde na maioria das vezes aquele assunto que estava sendo tratado antes do avanço de tempo sequer volta a ser mencionado. Basicamente, o espectador é arrancado da trama, precisando de alguns minutos pra voltar a mergulhar no enredo.

Esse problema ainda piora, porque conforme os saltos no tempo avançam, cada vez menos citações ao Dreyfus são feitas, e cada vez mais você se pergunta por qual motivo o Picquart esta correndo risco de vida.

É bem verdade que ao Terceiro Ato esses Saltos aconchegam melhor o ritmo e os acontecimentos da trama, mas isso ao Terceiro Ato, praticamente ao final do longa, o que faz o problema percorrer 75% da narrativa de O OFICIAL E O ESPIÃO.

Por mais que seja uma obra com uma história intrigante, cheia de suspense e com uma produção ousada… Ainda assim, infelizmente, estas falhas têm um peso negativo na desenvoltura de O OFICIAL E O ESPIÃO e mostram que adaptar histórias reais para o cinema é um baita trabalho.

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Fotos por: Guy Ferrandis

VEREDITO

Ousado, intrigante, frio, com alguns problemas de roteiro, mas bem intencionado, O OFICIAL E O ESPIÃO é um filme que por pouco não foi tocante, pois optou deixar de lado a exposição do sofrimento do Capitão injustiçado Alfred Dreyfus em seu cárcere, focando mais nos dilemas do Coronel Georges Picquart.

Com uma atmosfera de espionagem de dar inveja em inúmeros filmes do gênero, O OFICIAL E O ESPIÃO acerta em determinados pontos, mas infelizmente tropeça em outros.

O OFICIAL E O ESPIÃO estreia hoje, 12 de março, nos cinemas brasileiros

FICHA TÉCNICA

Título Original: J’Accuse
Lançamento: 12 de março 2020
Distribuição: California Filmes
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, Robert Harris
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Edição: Hervé de Luze
Cinematografia: Pawel Edelman

O OFICIAL E O ESPIÃO é uma obra inspirada em em fatos reais, adaptada do livro “An Officer and a Spy” de Robert Harris.

Elenco: Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner, Grégory Gadebois, Hervé Pierre, Wladimir Yordanoff, Didier Sandre, Melvil Poupaud, Eric Ruf, Mathieu Amalric, Laurent Stocker, Vincent Perez, Michel Vuillermoz, Vincent Grass, Denis Podalydès, Damien Bonnard, Laurent Natrella, Bruno Raffaelli, Christophe Maratier, Pierre Poirot, Stéfan Godin, Yannik Landrein, Luca Barbareschi, Mohammed Lakhdar-Hamina, Kevin Garnichat, Vincent de Bouard, Luce Mouchel, Fabien Tucci, Fred Epaud, Nicolas Wanczycki, Franck Mercadal, Philippe Magnan, Pierre Forest, Édith Le Merdy, Jeanne Rosa, Benoît Allemane, Ludovic Paris, Gérard Chaillou, Nicolas Bridet, André Marcon, Pierre Aussedat, Rafaël de Ferran, Jean-Marie Frin, Swan Starosta, Jean-Gilles Barbier, Jean-Marie Lecoq, Thierry Gimenez, Clément Jacqmin, Boris Ventura-Diaz, Lionel Mur, Raphaël Caraty, Yves-Pol Deniélou, Élodie Auger, Margritte Gouin, Élodie Lobjois, Mélanie Malet, Carole Mongin, Laurine Ristroph, Thibault Signovert, Valentin Cotton, Florian Blot, Adrien Boulanger, Julien Francomano, Camille-Raphaël Bérard, Marc Legrand, Jean-Baptiste Souchon, Emmanuel Borghi, Jérome Duhamel, Patrick Perrin, Jean-Jacques Breniaud, Benjamin Dubos, Romain Mestre, Guy Chaillaud, Charles Lapierre, Mickael Cartier, Brigitte Boucher, Michèle Clément, Nicolas de Lavergne, Benjamin Gouzien, Romain Lehnhoff, Pierre Léon Luneau, Roman Polanski

Trailer:

O Oficial e o Espião - Trailer legendado [HD]

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.