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OBSESSÃO | CRÍTICA

Uma jovem com dificuldades em superar a morte da mãe acaba cruzando o caminho de uma misteriosa (e perigosa) senhora que vive a solidão de não ter sua filha por perto. Essa é a premissa de OBSESSÃO, suspense do diretor Neil Jordan que estreia nesta quinta-fera, 13 de junho.

Com uma narrativa elaborada de maneira bastante concisa, OBSESÃO explora bem tanto as necessidades maternas de uma garota bastante apegada à mãe, quanto os delírios psicóticos de uma idosa disposta às últimas consequências para não viver sozinha.

Embora apresente alguns pequenos problemas de ritmo, OBSESSÃO definitivamente é um título que pode render bom entretenimento aos fãs de suspense. E é sobre isso que vamos discorrer na crítica de hoje.

Como sempre, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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-- OI, MEU NOME É FRANCES E EU SEREI SUA GARÇONETE ESSA NOITE.

Solidão é um tema bastante recorrente na arte, de maneira geral. É retratada à exaustão na pintura, poesia, música… Mas, na maioria das vezes, essa retratação é dada como um auxílio para o indivíduo aceitar a ideia de que cedo ou tarde terá de lidar com isso. Por esse motivo, a solidão é uma temática mais recorrente em dramas do que em suspenses. O que obriga o roteirista a trazer algo novo, um “Q” a mais.

Justamente nesse ponto Ray Wright e Neil Jordan acertaram a mão tecendo uma história de duas pessoas solitárias – cada qual a seu modo – obsecadas com a ideia de não viver mais essa situação. Contudo, uma destas é a presa, e a outra é uma caçadora meticulosa, disfarçada sob uma aparência amável e inofensiva.

O roteiro de OBSESSÃO brinca com diversos paralelos das preocupações das personagens centrais, enquanto faz o espectador reviver alguns bons momentos dos filmes de stalkers dos anos 80 e 90. Com uma nova roupagem, é verdade, mas com o mesmo espírito.

A forma como os atos evoluem é muito envolvente, mesmo havendo problemas de ritmo em cada ato. O curioso é que a retomada desse ritmo sempre se dá num crescendo súbito, numa escalada muito elevada.

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-- OH, DEUS TE ABENÇOE.

Chloë Grace Moretz interpreta FRANCES McCULLEN, uma jovem que divide um apartamento em Nova York com a melhor amiga, ERICA PENN (interpretada por Mika Monroe). FRANCES leva uma vida reclusa por não lidar bem com a morte da mãe. Embora ERICA se esforce para enturmar FRANCES, a garota prefere o isolamento e leva uma vida de “casa e trabalho”. Só.

O roteiro de Ray Wright e Neil Jordan é sutil em evidenciar que a personagem de Chloë Grace Moretz nutre uma necessidade afetiva por figuras mais velhas do que ela, e em diversos momentos se porta com atitudes infantis, num conflito consigo mesma. Exibindo autonomia e carência quase que simultaneamente. Contudo, essa transição de sentimentos, essa contradição interna de FRANCES é muito bem escrita. Muito bem estruturada e muito bem interpretada por Moretz. Nada fica escancarado. É tudo tênue, como se a personagem realmente não soubesse de seus problemas. Muito humanizado.

Já a premiada atriz Isabelle Huppert dá vida a GRETA HIDEG. Uma senhora que perdeu marido e filha e nunca se recuperou do ocorrido. Porém possessiva a ponto de impor atitudes extremas para nunca mais ficar sozinha. Incluindo trancafiar a companhia consigo – e mais.

O papel de GRETA é igualmente construído de maneira bastante perspicaz. Ela demonstra tristeza profunda, olhar distante e trejeitos contidos de quem almeja contato, mas tem receio ao fazê-lo. O fantástico, porém, é que a personagem de Huppert age propositalmente assim. Não que não seja solitária e triste, mas sim que se aproveita dessa condição para evidenciá-la ainda mais para atrair suas vítimas. Estamos falando de uma caçadora meticulosa, ardilosa. Que dá cada passo com bastante planejamento. GRETA definitivamente não é uma vilã caricata (embora haja momentos caricatos) do tipo que se vê em diversas histórias.

Um problema, entretanto, que incomoda na construção de GRETA é que se espera mais de seu lado cruel, mas a entrega é contida. Tímida. Há momentos em que a narrativa faz o expectador acreditar que GRETA vai agir de maneira conturbada, violenta… Mas não. A personagem toma um rumo que não condiz com o que se almeja para as situações apresentadas. É funcional? Sim. Mas não tão impactante. O que não quer dizer que atuação de Isabelle Huppert seja fraca, porque definitivamente não é. Quer dizer que o enredo não favoreceu uma apresentação mais visceral em certos momentos da vilã.

A personagem de Mika Monroe, ERICA PENN, é outro ponto muito interessante da história. Porque ela tem o papel importante de puxar FRANCES para a realidade, tentar tirar a amiga da solidão e superar a perda da mãe, mas ao mesmo tempo demonstra ser uma pessoa fútil e que pouco se importa com os outros – exceto FRANCES, sua melhor amiga. E ao longo da trama a interação entre ERICA e FRANCES evolui muito bem, embora seja relativamente breve em alguns aspectos. Ainda assim a elaboração da personagem foi muito bem arquitetada.

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-- ELA TÁ ME ASSUSTANDO.
-- ÁREA PÚBLICA. NÃO PODEMOS FAZER NADA.

Um bom Suspense é marcado pela capacidade imersiva de sua narrativa. Pelo crescendo dos atos e pela sensação de desespero e incerteza dos protagonistas, que cena após cena cresce mais e mais. E OBSESSÃO entrega tudo isso de forma bastante honesta.

Vemos FRANCES, em toda sua ingenuidade, sendo seduzida pelos encantos de uma promessa materna bastante suspeita. Presenciamos ERICA alertando e alertando a amiga de maneira cada vez mais ríspida. Acompanhamos GRETA construir uma relação sólida de confiança com sua presa conforme obstáculos vão surgindo para todos os lados. Tudo isso é desenvolvido organicamente. Sem excessos, quase sem malabarismo. Mas com um problema de ritmo.

Durante cada ato, na escalada dos acontecimentos, existem momentos em que a história não evolui. São trechos onde o roteiro empaca em algum diálogo que não dá continuidade aos acontecimentos, não desenvolve os personagens, não entrega nenhuma informação relevante ao público. Isso deixa tais momentos maçantes. Só que tem um fato curioso nisso. Esses momentos maçantes são seguidos de picos muito altos de tensão na narrativa de OBSESSÃO. Com uma evolução de bastante destaque, se recuperando muito bem do “vai-não-vai”. E isso ocorre ao longo de toda a película. Ou seja, pode ficar despreocupado quando for ao cinema assistir OBSESSÃO, porque esses momentos chochos são devidamente recompensados.

Ainda assim, com muito mais altos do que baixos, OBSESSÃO não é um suspense imprevisível. Há pontos do longa que são previsíveis, fato. E o maior inimigo de um filme com certo grau de previsibilidade é o trailer. É muito fácil, nesse tipo de situação, um trailer entregar demais. Sim, isso ocorre com o trailer de OBSESSÃO.

Não é como se em OBSESSÃO o trailer evidenciasse todos os plots, até porque há ótimos momentos do filme que não estão no trailer. Mas o trailer acaba entregando certas situações que elevariam muito mais a experiência do espectador se não tivessem sido exibidas antes.

O trailer entrega algumas surpresas de OBSESSÃO? Sim. Todas? Não. As mais importantes? Não. Porém, retira parte do impacto da surpresa de cenas pontuais. Por outro lado, o grau de previsibilidade em determinados atos de OBSESSÃO também dificulta a produção de um trailer que não exiba muito da história.

Mesmo com esse problema, OBSESSÃO consegue surpreender o público e garantir boa diversão aos fãs do cinema de suspense.

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VEREDITO

Intrigante, envolvente, com alguns problemas de ritmo e um trailer que exibe muito do enredo, mas, ainda assim, honesto em sua proposta, OBSESSÃO é um suspense que traz uma nova roupagem aos clássicos de stalkers oitentistas e noventistas.

Com personagens meticulosamente estruturados para aludir às mais corriqueiras contradições internas que vivenciamos no dia a dia, OBSESSÃO consegue torná-los tangíveis. Mesmo os coadjuvantes menos expressivos.

OBSESSÃO não é um suspense que tenta reinventar a roda, mas que ganha a audiência pelo cuidado na construção de personagens que compõem a película e na maneira envolvente que constrói a história.

Veredito 4 - BOM

FICHA TÉCNICA

Título Original: Greta
Lançamento: 13 de junho de 2019
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Ray Wright, Neil Jordan
Trilha Sonora: Javier Navarrete

Elenco: Isabelle Huppert, Chloë Grace Moretz, Maika Monroe, Jane Perry, Jeff Hiller, Parker Sawyers, Brandon Lee Sears, Arthur Lee, Rosa Escoda, Jessica Preddy, Thaddeus Daniels, Raven Dauda, Colm Feore, Zawe Ashton, Nagisa Morimoto, Navi Dhanoa, Elisa Berkeley, Stephen Rea, Hershel Blatt, Traci Hovel, Aneta Dina Keder, Graeme Thomas King, Darragh O’Connor, Romii Reilly, Angela Thompson.

Trailer:

OBSESSÃO - TRAILER OFICIAL (DUBLADO)

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.