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OPERAÇÃO FRONTEIRA | CRÍTICA

Um grupo de ex-militares saudosistas e endividados, amigos de longa data e várias missões, resolve voltar à ativa para roubar milhões de dólares de um perigoso traficante internacional escondido no Brasil. Contudo, o que os combatentes não imaginavam é que o maior perigo que enfrentariam era conhecer a própria ganância, colocando à prova a lealdade de uns para com os outros e os imergindo em uma cadeia de eventos inesperados, cada vez mais perigosos e frustrantes. Essa é a premissa de OPERAÇÃO FRONTEIRA, suspense de ação da Netflix que, embora lançado em março deste ano na plataforma de streaming mundial, não teve lá muita aderência no gosto do público BR.

Estrelado por Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Garret Hedlund, Pedro Pascal e Adria Arjona, OPERAÇÃO FRONTEIRA é um longa que tinha tudo para ser memorável: um elenco promissor, Tema interessante, proposta ousada… É, tinha… Entretanto, OPERAÇÃO FRONTEIRA se castiga por algumas decisões de roteiro e direção que não foram bem executadas. E nesta crítica vamos destrinchar os pontos altos e baixos que incorporam a narrativa do filme.

Como sempre, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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– PRIORIDADES: QUEM QUISER PODE DESISTIR E NÃO PRECISA TER VEGONHA. MAS TEM DE SER AGORA.

Enfrentar as consequências da própria ganância” é um Tema que pode render ótimos Enredos, com histórias interessantes. E este é um dos Temas que mais me chama a atenção em produções cinematográficas, justamente por ser uma motivação que consome os personagens aos poucos, fazendo-os enfrentarem a si mesmos em situações que jamais esperariam passar. Na minha opinião é um ótimo Tema para suspenses e dramas. O problema é que OPERAÇÃO FRONTEIRA promete te entregar essa experiência, mas se perde no meio do caminho.

Muito embora bastante competente em certos aspectos como apresentação de personagens, demonstrar de maneira lúcida e humanizada os dramas de cada um, criar e representar de forma tangível a atmosfera torpe que envolve a trama, descrever visualmente a incrível habilidade dos comandos, deixado claro o quanto os caras são bons… Infelizmente, a partir da metade do segundo ato, OPERAÇÃO FRONTEIRA começa a patinar em decisões que pouco cooperam para a fluidez da película, deixando o espectador sempre com aquela sensação de “quase” entalada na garganta.

É importante ressaltar que OPERAÇÃO FRONTEIRA não é um filme ruim, contudo também não é uma obra-prima. E, em partes, isso se deve a dois fatores: mudança de foco no protagonista – mais de uma vez – e a promessa de levar a consequência do assalto para um lado pessoal, mas culminar em uma gama de acontecimentos abertos não relacionados diretamente com o roubo.

Mas antes de entrar nos pontos baixos quero dedicar alguns parágrafos para elogiar devidamente os acertos de OPERAÇÃO FRONTEIRA.

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– MUITA GENTE VAI VIR ATRÁS DE VOCÊ.

Verdade seja dita, os pontos altos de OPERAÇÃO FRONTEIRA são de fato bem altos. Especialmente a maneira como o filme desenha primorosamente ao público o quão bons são os ex-combatentes das forças especiais que protagonizam a história. Toda a construção das cenas táticas, a demonstração da perícia e da segurança de cada um dos personagens e a confiança que estes têm um no outro e em suas próprias habilidades é espetacular.

A cena do assalto chega a empolgar, e muito provavelmente vai te levar a vociferar alguns palavrões em admiração à destreza dos comandos, e especialmente com as atuações de Affleck, Isaac, Hunnam, Hedlund e Pascal. É difícil, depois de assistir ao filme, não acreditar que estes sejam apenas atores e não membros de forças de elite.

Ainda falando da ofensiva, a construção do clímax de tensão desde os preparativos para a extorsão do dinheiro até a conclusão do ato é muito boa. Dá até pra arriscar dizer que é fantástica, porque você realmente se afunda na cadeira à medida que os ex-militares vão ganhando terreno, como constroem plano de invasão, ataque, saída, estratégias de contenção de danos… Toda essa parte tática e intelectual dos combatentes é minuciosamente trabalhada e entrega uma experiência imersiva muito satisfatória ao espectador.

Mas como nem tudo são flores, todo o resto de OPERAÇÃO FRONTEIRA que não está relacionado ao aspecto de técnicas de infantaria não consegue sair da linha da média e por muitas vezes oscila entre o bom e o ruim, dando aquela nada agradável impressão de que o ápice da história nunca vai vir… E de fato não vem.

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– NÃO FOI COM ISSO QUE EU CONCORDEI.

Um dos maiores problemas em escrever um filme com vários personagens de igual relevância para o andamento da história está na maneira como você demonstra para o público quem é quem. Aquele que de fato protagoniza a narrativa e devemos nos importar mais, quem é a segunda pessoa mais importante, a terceira… E por aí vai. Agora, se já é difícil demonstrar isso ao público de maneira apropriada e fazer esse mesmo público sentir empatia pelos personagens certos, com um roteiro redondo e tal… Imagina quando você tem um longa que te apresenta o protagonista como sendo o sujeito “A”, mas depois simplesmente resolve mudar de ideia e te diz que na verdade era “B” e quando você está começando a se acostumar com a ideia de que “B” – do nada – virou o centro da parada o diretor (que também é um dos roteiristas) resolve tirar “B” da jogada e voltar a faixa de capitão para “A”.

Consegue imaginar a maçaroca? Pois é…

OPERAÇÃO FRONTEIRA, num primeiro momento, demonstra que Santiago Garcia (Oscar Isaac) é o centro do enredo. E como o roteiro faz isso? Pegando os primeiros 14 minutos e 19 segundos (de um filme de duas horas e cinco) pra apresentar Santiago; depois o roteiro ainda usa outros 15 minutos fazendo Santiago convencer e reunir os amigos especialistas a aceitarem o seu plano. Ou seja, São 29 minutos dedicados apenas a construir a autoridade do personagem de Isaac. E pra quê? Pra depois, do nada, essa autoridade ser passada para Tom Davis (Ben Affleck). E então, na exata marca de uma hora e trinta e cinco minutos o protagonismo da jornada é retirado de Affleck de maneira abrupta e volta para o colo de Isaac. Quer dizer, já com uma hora e seis minutos a mais de história, com o espectador já confortado/conformado com a pessoa de Affleck como principal. Justamente nesse ponto os roteiristas decidem que Santiago é quem vai ficar com a coroa de louros. Outra vez.

É bem verdade que nesse meio tempo o pódio oscila entre Isaac e Affleck, mas essa oscilação é muito pequena e pontual. São pouquíssimos os casos em que se vê Isaac novamente tomando as rédeas da narrativa, até porque quando isso acontece o personagem de Affleck é instantaneamente presenteado pelo roteiro com alguma atitude ou diálogo que o coloca em destaque. E aqui eu quero ser bem específico que não estamos falando de uma disputa de egos explorada como parte proposital do enredo. Não. Definitivamente, não. Estamos falando de uma inconsistência na forma como os personagens foram escritos e como este fato causa uma confusão safada na forma como o público se identifica com os envolvidos no plot de OPERAÇÃO FRONTEIRA.

Isso pode estar relacionado a alguma cláusula contratual da parte de Affleck? Pode. Pode estar relacionado ao fato dos produtores serem amigos de Affleck e também terem produzido outros filmes com ele como LIGA DA JUSTIÇA, A LEI DA NOITE, O CONTADOR e BATMAN VS SUPERMAN? Pode. Poderia estar relacionado com os vícios de direção de J. C. Chandor, que assina o longa, e também teve problemas similares em O ANO MAIS VIOLENTO e ATÉ O FIM? Sim, poderia. Talvez algo ligado ao roteirista Mark Boal, que já demonstrou problemas parecidos em GUERRA AO TERROR e A HORA MAIS ESCURA? Sim, também pode. Ou ainda, poderia ser uma somatória de todos os anteriores? É… É provável.

O fato é que: OPERAÇÃO FRONTEIRA inicia sua jornada narrativa dizendo ao espectador que Santiago é o protagonista, depois decide que esse papel fica melhor com Tom, mas muda de ideia e acha mais bacana voltar a função de destaque a Santiago. E quem acompanha passiva e ocularmente a trama? Bom… Dane-se.

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– VOCÊ LEVOU CINCO TIROS PELO SEU PAÍS E NEM CONSEGUE PAGAR A FACULDADE DA SUA FILHA.

Se você está propondo uma história de causa e consequência guiada de maneira pessoal, entregue isso ao público. Se a proposta for levar os acontecimentos para o lado impessoal, entregue isso ao público. Mas, por tudo o que é mais sagrado, não misture ambos. Por favor.

OPERAÇÃO FRONTEIRA é uma produção que se fundamenta no lado pessoal. Todos os dramas vivenciados pelos combatentes são advindos de decisões pessoais. A própria ideia de roubar centenas de milhões de dólares de um traficante é pessoal. Santiago persegue Gabriel Martin Lorea (Reynaldo Gallegos), o traficante, há anos. Nunca conseguiu por fim na matança de Lorea. Perdeu muitos homens tentando capturar o criminoso. Já está de saco cheio de viver pelas regras, a coisa agora é pessoal. Contudo, o que os roteiristas fazem é entregar consequências impessoais ao assalto.

Uma vez que a tomada do dinheiro é concluída, os comandos são forçados a agir contrário a boa parte do planejado, tendo de matar capangas além da conta e, por esse motivo, dão de cara com a família de Lorea. Eu não quero entrar em maiores detalhes pra não dar muitos spoilers, mas o fato é que levando em consideração o ocorrido na mansão do criminoso, a família do mesmo deveria abrir uma temporada de caça para acabar com os militares. Convocar todos os cartéis, aliados e até rivais pra garantir que o nome Lorea fosse respeitado no submundo, afinal isso é o que se espera de homicidas do tipo… Só que o que acontece é justamente o oposto.

De fato há uma corrida contra o tempo para os militares saírem da região o mais rápido possível e boa parte do filme se foca em relatar a dificuldade que o esquadrão tem em lidar com a fuga e as intempéries que vão surgindo ao longo do caminho, entretanto não são os remanescentes da família Lorea que estão caçando os combatentes. Aliás, a família Lorea é completamente esquecida a esse ponto, sendo apenas mencionada. Quem castiga os soldados é a Cordilheira dos Andes.

Você pode até pensar que foi uma boa ideia, que isso gera uma boa quebra de expectativa… Só que não. Toda a construção, toda a escalada do clímax da fuga te vende a ideia de que os Lorea estão por perto. E por que eu posso afirmar isso? Porque o roteiro faz questão de ficar repetindo que “os Lorea têm gente por toda parte”, “eles têm olhos e ouvidos por todo canto”, “já devem ter colocado gente na nossa cola”. Isso leva o espectador a aguardar por um confronto vingativo, que não acontece. É bem verdade, entretanto, que há uma interação motivada por vingança num determinado momento da fuga, só que até isso é obra do acaso e não está ligado de maneira direta aos Lorea.

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– SE TIVÉSSEMOS CONQUISTADO METADE DO QUE CONQUISTAMOS EM OUTRA PROFISSÃO, ESTARÍAMOS COM A VIDA GANHA.

Vamos deixar um ponto bem claro: toda a série de acontecimentos na Cordilheira não é ruim, nem mal feita – fora um ou outro CGI -. O problema é que ela é um balde de água fria em quem teve a promessa de que presenciaria uma fuga épica, sob bala. E acaba por ficar só na promessa.

Imaginemos o seguinte: um grupo de ex-militares rouba quase 300 milhões de dólares de um traficante. Fazem uma chacina na casa do mesmo, fogem com mais de 200 sacolas cheias de dinheiro. Por algum motivo ficam presos nas Cordilheiras e percebem que estão cercados por um grupo de milícia enorme. Agora eles têm de optar por fugir sem o dinheiro; ou enfrentar um exército inimigo, perdendo sacolas e mais sacolas cheias de dólares à medida que precisam recuar pra se manterem vivos.

Imaginou o sugerido acima? Então, pois é… Isso é o que o filme promete, mas não te entrega.

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VEREDITO

Promissor, ousado, com um roteiro meio perdido em certos pontos, mas tecnicamente muito competente, OPERAÇÃO FRONTEIRA é um suspense de ação que tinha tudo pra dar certo, entretanto, infelizmente, bate na trave em diversos momentos da história.

Ao optar em fazer gangorra com os acontecimentos do clímax e oscilar o papel de protagonista, OPERAÇÃO FRONTEIRA causa confusão na resposta emocional que esperava atingir no público e não aproveita o potencial incrível que poderia ter galgado.

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Triple Frontier
Lançamento: 13 de março de 2019
Direção: J.C. Chandor
Roteiro: Mark Boal, J.C. Chandor
Trilha Sonora: Disasterpeace

Elenco: Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Garrett Hedlund, Pedro Pascal, Adria Arjona, Jeovanny Rodriguez, Juan Camilo Castillo, Reynaldo Gallegos, Madeline ‘Maddy’ Wary, Johan Ochoa, Francisco Martinez, Pablo Cesar Sanchez, Kevin Vasquez, Jose Rodriguez, Enzo Morales, Herberto Borjas, Johan Rivera Zumaqué, Isaac Daniel Medrano Sierra, Amber Stone, Hilliard Joshua Meeks, Michael Benjamin Hernandez, Mohamed Hakeemshady, Jason Quinn, Carlos Linares, Pedro Lopez, David Olmos, David Kanutta, Toneey Acevedo, Gustavo Gomez, Pedro Haro, Juan Martinez, Sheila Vand, Christine Horn, Adele Chu, Luis R. Espinoza, George Hayn, Rey Payumo, Russell Shimooka, Brandon Wolff, Terry Ahue, Bro Richmond, Richard P. Teel, Daniel Sanchez, Eric Haro, Miguel A. Baez Jr., James Burghardt, Richard Concepcion, Kila Young, Fairai Richmond, Jason Patterson, Pedro McDormand Coen, Victor Lozano.

Trailer:

Operação Fronteira | Trailer [HD] | Netflix

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.