LE|POP
PANICO-2022-BANNER-LEPOP

PÂNICO (2022) | CRÍTICA

25 anos se passaram desde os acontecimentos brutais que chocaram a tranquila cidade de Woodsboro. Contudo, como de costume na franquia PÂNICO, o passado sempre volta, trazendo novos horrores consigo. Desta vez, as irmãs Sam e Tara Carpenter são arremessadas em uma trama de morte e perseguição envolvendo mais sete amigos, para descobrir quem é o novo assassino mascarado que voltou a assolar a cidade. E na luta para sobreviver, estes jovens vão contar com a ajuda de algumas figuras do passado que sobreviveram aos ataques anteriores do temido Ghostface. Este é o Plot de PÂNICO (2022), que estreou ontem, 13 de janeiro, nos cinemas nacionais.

PÂNICO (2022) vem na mesma linha de GHOSTBUSTERS: MAIS ALÉM, com a ideia de servir tanto de continuação, como de reboot ou “revisitação” para a franquia que teve início em 1996. Alguns preferem chamar isso de “Soft Reboot”, porque se trata de uma “passada de tocha” para um novo corpo de atores, se valendo de saudosismo para agradar a fanbase de longa data, ao mesmo tempo que prepara terreno para a assim chamada “audiência atual”.

É uma aposta ousada e que, apesar de todos os esforços de Hollywood, com tantos e tantos títulos já testados sob esta fórmula, ainda não galgou sucesso, especialmente no que tange o equilíbrio entre os alicerces deste Template: personagens antigos e icônicos de uma franquia, saudosismo, recontar a história que deu início à franquia (ou se inspirar na mesma), adicionar personagens novos (especialmente jovens) e fazer a passagem da tocha, do legado, para os novatos.

PÂNICO, se valendo deste mesmo modelo, tenta entregar ao público uma experiência imersiva que brinca com Metalinguagem, Jumpscares e Suspense, e teria dado muito certo, se não fosse o uso excessivo da Metalinguagem fazendo com que o título não se levasse a sério, justamente em horas cruciais, prejudicando a imersão da narrativa. Contudo, este não é o maior problema de PÂNICO. O maior problema da película terá de ser abordado na Sessão de Spoilers, ao final desta crítica, costumeiramente antes da Ficha Técnica. Lembrando que é preciso clicar no local indicado para ler os spoilers, ok?

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de PÂNICO e discorrer como o Soft Reboot virou uma aposta desesperada de Hollywood, bem como detalhar qual é o principal fator que faz um Soft Reboot funcionar.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

PANICO-2022-POSTER-LEPOP

HÁ CERTAS REGRAS PARA SOBREVIVER. ACREDITE, EU SEI DISSO.

Metalinguagem é o uso de uma determinada linguagem para referir-se a si mesma. Por exemplo, o desenho de um desenhista se desenhando. Ou a letra de uma música que fale sobre compor uma música. Outro exemplo clássico de Metalinguagem pode ser encontrado em Watchmen (a HQ de 1986-1987), onde ao final da trama, Ozymandias, o vilão, discursa seu triunfante plano para Rorschach, Coruja e Espectral dizendo:

Eu não sou um vilão de quadrinhos, que na hora “H” fica revelando seu grande plano para o mocinho (…).

Quando na verdade trata-se de uma HQ, onde o vilão está, de fato, contando seu grande plano para os mocinhos.

Essa é a graça (e a inteligência) da Metalinguagem. É usar de uma forma de linguagem específica (seja música, cinema, teatro, literatura, escultura, pintura, poesia etc.) para referir a si mesma e brincar com a percepção do consumidor do produto final.

O problema é que embora a Metalinguagem seja um recurso interessante, o excesso da mesma (principalmente no cinema) acarreta na quebra da imersão. E quando isso ocorre em pontos cruciais para o avanço narrativo, a coisa fica ainda pior. É precisamente o acontece em PÂNICO.

PÂNICO expressa uma vontade tão grande de parecer inteligente pelo uso da Metalinguagem, que acaba soando apelativo, aponto de ter como TEMA a própria Metalinguagem. O cerne, o vértice da trama é justamente ser um conto de horror sobre a continuação de um conto de horror – e sim, isso é literal.

PANICO-2022-CRITICA-1-LEPOP

O ASSASSINO ESTÁ SEMPRE RELACIONADO A ALGO DO PASSADO.

Como se não bastasse a confusão e a quebra de imersão causadas pelo excesso de Metalinguagem, o desenvolvimento da trama ainda é atrapalhado pela própria ideia de Sof Reboot:

Há trechos muito bons, especialmente com os personagens antigos, dos primeiros títulos da franquia, que são até emocionantes. Só que isso de nada adianta se quando a narrativa volta aos personagens novos e eles estão ali, literalmente, apenas para a passagem do manto. É como se o roteiro se preocupasse apenas em dizer aos espectadores que aqueles novos rotos são o futuro da saga e que os novos filmes serão direcionados para a assim chamada “audiência atual”. Consegue perceber o problema?

Basicamente, PÂNICO (2022) não é um filme que visa expandir (ou dar continuidade) ao universo em que o enredo se passa, mas sim comunicar a “audiência atual” que mais uma vez Hollywood está tentando “modernizar” uma série de filmes que marcou uma geração, mas que têm um discurso, muitas vezes, politicamente incorreto e pode não agradar a “audiência atual”, por isso a modernização – e algumas decisões narrativas bastante questionáveis também.

Isso é problema, porque faz com a narrativa perca o poder imersivo. Infelizmente. Quer dizer que o longa é ruim? Não. Entretanto, também não é espetacular. Há ótimos momentos de tensão, Jumpscares bem planejados e bem executados (aliás, magistralmente bem planejados e bem executados), momentos tocantes… Só que estes pontos positivos se esvaem no todo.

São poucos os personagens novos que o roteiro se preocupa em criar um background, então você, espectador, não gera conexão com os mesmos. Logo, não se importa à medida que estes vão morrendo. Isso faz com que as mortes soem chochas, vazias. Qual a alternativa? Criar situações para usar os personagens dos títulos anteriores (que o público já conhece) em cenas que tenham maior apelo emocional. E é isso o que PÂNICO faz.

Por outro lado, a película não utiliza adequadamente os personagens antigos nos momentos de tensão, ou nos Jumpscares – salvo uma exceção. Este espaço é dedicado majoritariamente aos novos rostos. Ou seja, há uma divisão clara que prejudica, novamente, a imersão e o desenvolvimento lógico dos acontecimentos, porque se “o assassino sempre está relacionado com algo do passado”, qual o sentido de destinar o suspense, as perseguições, as intenções malignas do Ghostface dominantemente aos novatos? E é possível perceber que em algum momento os roteiristas se depararam com esse problema – e até tentaram solucioná-lo, mas o caminho escolhido não foi o mais frutífero.

PANICO-2022-CRITICA-2-LEPOP

NUNCA DIGA “EU JÁ VOLTO”, PORQUE PODE SER QUE VOCÊ NÃO VOLTE.

Embora pareça uma boa aposta, um Soft Reboot precisa de um elemento crucial para dar certo, caso contrário tem sérias chances de ser um baita tiro no pé. Este elemento não é o saudosismo, nem protagonistas antigos. Este elemento é o respeito aos fãs. GHOSTBUSTERS: MAIS ALÉM está aí para provar meu ponto.

Se você leu a nossa crítica de GHOSTBUSTERS: MAIS ALÉM (clique aqui caso ainda não tenha lido), viu o quanto esse fator corroborou para o sucesso do longa, mesmo com o problema de querer homenagear demais os títulos anteriores. Foi o respeito aos fãs que fez com que o roteiro fosse trabalho com esmero, se preocupasse em entregar uma história divertida (mesmo que com furos) e que teve uma ótima recepção do público. Tanto isso é verdade que entrou para o box dos DVDs de colecionador, enquanto que GHOSTBUSTERS (2016) foi deixado de lado, ao melhor estilo “pô, esquece isso aí, cara“.

O que leva a uma pergunta retórica: entre GHOSTBUSTERS: MAIS ALÉM (2021) e GHOSTBUSTERS (2016), qual dos dois teve respeito pelos fãs?

PÂNICO (2022) tem uma proposta abissalmente diferente. E isso é realmente triste. PÂNICO não tem a intenção de honrar os fãs da franquia, que por anos deram dinheiro, compraram DVDs, ingressos, itens colecionáveis e etc., que possibilitaram o investimento em novos títulos e a expansão da história dos assassinatos de Woodsboro. Não. PÂNICO (2022) é um filme para atacar os fãs. Infelizmente. Mais detalhes disso serão abordados na Sessão de Spoilers.

Honestamente, isso é uma pena, especialmente porque os pontos altos de PÂNICO são realmente altos, enquanto que os pontos baixos são causados justamente pela vontade de atacar os fãs – inclusive os problemas já descritos nesta crítica.

Se Hollywood vai continuar desesperada investido em Soft Reboots, é bom salientar que morder a mão que alimenta não é uma boa estratégia. Há uma lista colossal de flops aí para provar meu ponto.

PANICO-2022-CRITICA-3-LEPOP

VEREDITO

Ora competente, ora perdido e pouco imersivo, ora tocante, ora apático, PÂNICO (2022) é um longa que aposta no Soft Reboot como Template, mas peca no cerne deste modelo: o respeito aos fãs.

Focado em atacar os fãs de longa data (não só desta franquia, mas de qualquer franquia), PÂNICO parecer uma produção mais preocupada em propagar agenda do que em entregar entretenimento. O que é uma pena, pois há momentos muito bons na história, que seriam muito mais emocionantes e impactantes se a proposta da película fosse entreter.

Resta saber se, caso novos títulos sejam confirmados, essa ideia de denegrir fãs vai permanecer ou não. Vamos aguardar.

SESSÃO DE SPOILERS – CLIQUE AQUI PARA LER

Apesar de esta ser uma de nossas menores críticas escritas até o momento, a demora da mesma não se deu pela proximidade da data da cabine de imprensa com a data de lançamento. Não. Na verdade, a crítica em si foi até rápida de escrever, mas esta Sessão de Spoilers, não.

Esta Sessão de Spoilers foi a mais difícil de escrever até o momento; nem tanto pela organização das ideias em si, mas pela tristeza de ver um filme utilizar como TEMA o ataque aos fãs. E, também, a tristeza de ver uma cabine de imprensa lotada de críticos vibrando a cada ataque aos fãs.

A que ponto chegamos…

Se você é um leitor assíduo do LEPOP, já sabe que TEMA é um recurso narrativo que é utilizado para:

1 – Criar coesão entre construção de personagens, ações e consequências destes mesmos personagens;

2 – Criar coesão entre motivações e conflitos de protagonistas e antagonistas, culminando num desenvolvimento de personagens com maior robustez;

3 – Linkar cenas, dando sentido às mesmas por fazê-las motivadas pelos mesmos preceitos-base;

4 – Passar uma mensagem de cunho ético e/ou moral através da história em questão.

Em outras palavras, o TEMA é o fio, o trilho por qual toda a história passa, sempre mantendo o mesmo motivador (Tema).

Por exemplo, “O Poder da Amizade” é o TEMA de O SENHOR DOS ANÉIS (trilogia); “O Novo vs O Velho”, é o TEMA de PROJETO GEMINI (2019) e THE OLD GUARD (2020). “Trazer Ordem a Gotham” é o TEMA de BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008). Já PÂNICO (20222) tem com TEMA o argumento “Fãs são Tóxicos”.

E esta é a motivação dos vilões. Literalmente.

Ambos os assassinos de PÂNICO (2022) são fãs de longa data dos filmes inspirados pelos acontecimentos em Woodsboro, que não gostam de como os últimos filmes da franquia “perderam sua essência”, porque “Hollywood está sem ideias originais e não consegue fazer um filme descente”, então resolveram se unir e sair matando por aí. E, bom, eu não sei você aí lendo este texto, mas pra mim, esta parece ser uma posição bem clara do que boa parte da elite de Hollywood pensa a respeito dos fãs que só querem uma boa história e do que eles acreditam que os fãs são capazes de fazer…

– Oh, você é fã de longa data de Star Wars, mas não gostou da última trilogia, nem dos derivados e das novas séries? Você acha que esse conteúdo “não é Star Wars de verdade”? Acha que são produções ruins?! A culpa disso, dessa baixa qualidade, não é dos roteiristas, produtores e diretores. A culpa é sua! Porque você é um fã tóxico!

– É fã de Caça-Fantasmas, mas não gostou do filme de 2016? Então você é um fã tóxico! Você não é capaz de entender a genialidade de um humor inteligente, com pensamento crítico!

– Diz que é fã de Indiana Jones, mas não gostou do último filme e não está botando fé em “Indiana Jones 5”? Como você é tóxico!

– Se diz fã de “As Panteras” e não gostou do Reboot? Quanta toxicidade… Você não se envergonha de ser assim não?

– É fã de “007” e não gostou de “Sem Tempo Para Morrer”, porque achou que o filme desrespeita o personagem? Tóxico! Você é um fã tóxico!

– Leu as HQs da Marvel Comics por anos, acompanhou as 3 primeiras fases do MCU, mas não está gostando da quarta fase? Você é tóxico! É o mal do mundo. Você é o satanás na Terra!

– É fã de “Onze Homens e um Segredo” e “Doze Homens e Mais um Segredo”, mas não gostou de “Oito Mulheres e um Segredo”? Que vergonha… Como você pode ser tão tóxico assim? Seus pais deveriam te deserdar.

– É fã de “Cowboy Bebop” e “Death Note”, mas não gostou das adaptações da Netflix?! Tóxico! Tóxico! Tóxico! Você é toxicidade em pessoa!

Perceba, caro leitor, que em nenhum desses (e tantos outros) casos a culpa é dos roteiristas, ou dos diretores, dos produtores, ou mesmo dos estúdios por aprovarem tais projetos claramente fadados ao fracasso. Não! A culpa é sua por não ficar calado e consumir o suficiente.

Você, fã, não tem o direito de não gostar de um filme. Você tem a obrigação de ficar empolgado com um novo anúncio e consumir calado! Só pode se pronunciar se for para gritar aos quatro ventos que amou a nova produção (mesmo que seja mentira) e atacar quem discordar de você. Também lembre-se de ficar empolgado para um novo anúncio e consumir absolutamente tudo o que sair daquele material. Sem questionar. Porque se você não seguir estritamente estes passos, você é um fã tóxico!

É de extrema importância deixar bem claro que PÂNICO (2022) não faz “uma sátira” com as acaloradas discussões sobre os atuais rumos da produção de conteúdo de cultura pop, pelo contrário! PÂNICO (2022) é deliberadamente uma declaração em favor de corporações, mas em detrimento dos fãs/consumidores.

Novamente, isso é triste porque PÂNICO (2022), apesar dos problemas apresentados até aqui, acerta em vários pontos da história e poderia ter galgado resultado ainda melhor.

Agora, a tristeza é ainda maior porque ela vem somada de uma confusão. Confusão justamente por não saber classificar o que é mais triste:

Se é ver diretores e roteiristas investirem tempo e dinheiro em um projeto feito com o claro intuito de atacar fãs;

Se é o fato de produtores apostarem num projeto do tipo;

Se é mais triste ver estúdios dando aval para que uma proposta dessas saia do papel;

Ou se é uma cabine de imprensa cheia de críticos uivando de deleite com cada diálogo de ataque direcionado a fãs.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Scream
Lançamento: 13 de janeiro 2022
Distribuição: Paramount Pictures
Direção: Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett
Roteiro: James Vanderbilt, Guy Busick
Trilha Sonora: Brian Tyler
Edição: Michel Aller
Cinematografia: Brett Jutkiewicz

Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Marley Shelton, Melissa Barrera, Jenna Ortega, Dylan Minnette, Jack Quaid, Jasmin Savoy Brown, Sonia Ammar, Mikey Madison, Mason Gooding, Kyle Gallner, Reggie Conquest, Chester Tam, Sara Elizabeth Ezzell, Clayton Frank, Boomer Mays

Trailer:

Pânico | Trailer Final | 13 de Janeiro Nos Cinemas | Paramount Pictures Brasil

Como sempre enfatizamos: no final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não da obra.

E já que você gosta de cinema e séries:

Aproveite também pra ler outras críticas.


Siga o LEPOP nas redes sociais: Facebook | Twitter | YouTube | InstagramTelegram

Curtiu? Então, compartilhe com seus amigos. Fala da gente pra mais gente. Isso nos ajuda bastante; e se você gostou, muito provavelmente conhece uma galera que também vá gostar.

Se você é novo(a) por aqui, aproveite pra conhecer mais do LEPOP:
Gosta de Contos e Literatura? Então conheça o CRONICANDO
Gosta de Games? Então dê uma conferida no LEPOPGAMES e no QUICK MATCH
Gosta de Podcast? Então ouça o LEPOPCAST.
Gosta de Action Figures? Então acompanhe o LEPOP ACTION REVIEW.
Agora, se quer ouvir a gente opinando, reclamando e palpitando, então o LEPOPBOX é o que você procura.

TODAS AS NOSSAS REDES SOCIAIS ESTÃO AQUI

Muito obrigado e até a próxima.


LLeo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.