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SHAFT | CRÍTICA

Um investigador particular sessentão politicamente incorreto e um jovem analista de dados do FBI politicamente correto, ambos a 80km/h… Parece piada. E é. Mas não apenas uma piada, este é o enredo de SHAFT, estrelado por Samuel L. Jackson e recentemente estreado na Netflix.

O quinto filme da franquia que teve início nos anos 70 dá continuidade a história do investigador mais linha dura do Harlem, John Shaft. Agora, tendo de se habituar à sociedade moderna enquanto ajuda o filho a solucionar a morte do melhor amigo. Nessa busca por justiça, pai e filho vão descobrir que precisam unir forças e deixar de lado as diferenças para resolver o caso.

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Numa nova roupagem do clássico tipo de filme “onde o novo encontra com o velho” – ou se preferir “Old school VS New school” -, SHAFT não poupa piadas ácidas, tiroteios, palavrões, tampouco se preocupa em ser um filme memorável, mas sim descontraído e tocando sempre em pontos de tensão.

Nesta crítica vamos analisar os pontos altos e baixos de SHAFT, que teve sua estreia nos cinemas americanos na segunda semana de junho deste ano e, no dia 28 do mesmo mês, foi lançado direito na Netflix.

Como sempre, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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-- REGRA NÚMERO UM: QUALQUER MULHER QUE SE ARRUMA PRA SAIR NUMA TERÇA-FEIRA À NOITE É O MEU TIPO DE MULHER. COMO ACHA QUE EU CONHECI SUA MÃE?

Aprender com as diferenças” é geralmente um Tema bastante eficaz para se fundamentar um Enredo. E se você não sabe a diferença entre Tema e Enredo leia a nossa Crítica de Espírito Jovem para entender melhor as particularidades, até porque o Enredo de Espírito Jovem carrega um problema de Tema. Mas voltado a SHAFT

A escolha do Tema de SHAFT é bastante eficaz, de maneira geral. Um tema que se bem explorado nunca sai de linha e sempre possibilita filmes divertidos. Justamente nesse ponto o diretor Tim Story e os roteiristas Kenya Barris e Alex Barnow acertaram em cheio, porque a narrativa é bastante assertiva em elucidar as diferenças de um homem xucro, nascido no final dos anos 50, criado nas ruas e tendo de lidar com todo tipo de criminoso sangue frio; e um jovem recatado, nascido no final dos anos 80, criado numa boa vizinhança e que sempre contou com os amigos para lidar com os problemas. Se levarmos em conta a situação atual de convívio social na vida real vamos perceber que essas diferenças servem bem como ponto de tensão.

SHAFT satiriza tanto o xucro quando o recatado. Ao primeiro pinta a caricatura exagerada da malandragem e da bravura até para as situações mais corriqueiras do dia a dia; enquanto que ao outro reserva castigo quase que constante por tentar interagir de maneira educada com quem só entende o diálogo da violência. E é sutil como o roteiro demonstra que nem um, nem outro conseguem se comunicar com as pessoas à sua volta, a não ser quem divide o mesmo nicho.

Vale ressaltar que embora o Tema se feche, se conclua de maneira redonda, o final de SHAFT não constróis clímax em seu terceiro ato. Isso porque o vilão não tem o papel de Anti-Tema. Essa função é atribuída a JJ Shaft (Jessie T. Usher), filho de John Shaft. É isso mesmo que você leu. O Anti-Tema de SHAFT é seu filho, John Shaft Jr.

Enquanto que de um lado Samuel L. Jackson carrega as características de Tema (por obviamente ser o protagonista da história), como ser decidido, convicto, másculo, valente, metido a pegador e desbocado; o personagem de Jessie T. Usher transborda todas as características contrárias ao Tema, como ser indeciso, nada persuasivo, apreensivo com masculinidade tóxica, evita valentias, não leva jeito com as mulheres e está sempre preocupado em não ofender ninguém. Essa divisão entre Tema e Anti-Tema é tão clara que coloca os personagens em constantes atritos ideológicos em diversos níveis ao longo de toda trama. Já o desfecho da obra -- no caso, o embate com o vilão -, não funciona tão bem justamente porque o vilão não tem espaço para ser um Anti-Tema, na verdade a única diferença entre ele e Shaft é que um escolheu agir prezando o mundo do crime. Só.

Se por um lado a constante colisão ideológica, social, ética e moral entre pai e filho funciona muito bem, por outro lado o vilão (Isaach De Bankolé) acaba não tendo praticamente peso dramático nenhum. Ele até tem uma função importante no prólogo da película, mas de maneira indireta e a partir daí é totalmente ignorado, sendo apenas mencionado em alguns momentos por terceiros. O que não é suficiente para construir a personalidade de um antagonista, ainda mais um que é descrito como perverso. E uma coisa é dizer isso por meio de terceiros no longa, outra coisa é demonstrar ao público através das atitudes do personagem.

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-- REGRA NÚMERO DOIS: NUNCA RECUSAR BEBIDAS DE GRAÇA DE MOÇAS BONITAS.

O humor em SHAFT é algo propositalmente pesado. Meticulosamente pensado em, novamente, tocar em pontos de tensão. E funciona muito bem, assim como a ação característica da franquia.

Shaft é um sujeito grosseiro e mulherengo que faz piada com absolutamente tudo e todos. Ah! Ele também desce a porrada com igualdade. Já Shaft Jr. é mais educado e preocupado com os sentimentos alheios, inclusive de quem lhe quer mal. Essa combinação consegue tirar boas risadas e fazer um sempre sentir vergonha alheia do outro. Isso regado a uma trilha sonora muito bem arranjada que casa perfeitamente com as cenas, resgatando o espírito do Blaxploitation que fez SHAFT se torna tão conhecido.

Ainda falando de trilha sonora, o compositor Christopher Lennertz acerta a mão nas Big Bands que ajudam a direcionar as emoções do espectador em SHAFT, sempre remetendo ao Soul Music dos anos 70. Lennertz também é conhecido por assinar as trilhas de PERDIDOS NO ESPAÇO (2018), SOBRENATURAL (2005 -- 2019), THE BOYS (2019), CRIMES EM HAPPYTIME (2018), ACRIMÔNIA – ELA QUER VINGANÇA (2018), BAYWATCH: S.O.S MALIBU (2017), A CHEFA (2016), FESTA DA SALSICHA (2016), AGENTE CARTER (2015 -- 2016), POLICIAL EM APUROS (2014), MASS EFFECT 3 (2012) e muitos outros.

Aproveitando a menção da ação de SHAFT, vale resaltar que de toda a franquia este seja talvez o título com menor volume de pancadaria, tiroteio, perseguição de carros e afins. Embora bastante precisa e bem coreografada, a ação não é o norte pelo qual a trama guia pai e filho para ajustarem as diferenças. Na verdade o que os leva ao respeito mútuo é o viés investigativo e como este basicamente obriga ambos a aprenderem um com o outro. Mas não só isso, até porque “aprender um com o outro” não quer dizer “fazer uso do que foi aprendido”. No caso, o aprendizado está no fato de respeitar quem o outro é, no que acredita e conviver com isso. Nada relacionado a mudar pelo outro. É meramente respeito.

Se tem uma coisa que você pode ter certeza ao final de SHAFT é que nem John Shaft, nem John Shaft Jr. deixam de ser quem são para agradar ao outro, mas aprendem a respeitar as diferenças entre si e conviver  com elas. Isso particularmente foi interessante de analisar, porque me passou despercebido na primeira vez que assisti ao longa. Mas na segunda ficou mais claro.

É bem verdade que há momentos em que vemos ambos os Shafts usando dicas pontuais um do outro, mas esses momentos são poucos e mesmo assim, no todo da obra, não fazem os personagens mudarem quem são. O ciclo se fecha quando um aprende a conviver com as diferenças do outro, não quando reconhecem que precisavam mudar.

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-- REGRA NÚMERO TRÊS: NUNCA VOMITE NA MULHER GOSTOSA QUE TÁ A FIM DE VOCÊ.

Outro aspecto positivo de SHAFT é o elenco. Samuel L. Jackson está muito bem acompanhado, com nomes como Regina Hall, Isaach de Bankolé, Amato D’Apolito, Leland L. Jones, Ian Casselberry, Alexandra Shipp, Jessie T. Usher e até Richard Roundtree. Este último tem uma participação pra lá de especial.

Mesmo com alguns destes citados não tendo tanto tempo de tela não se pode negar que o carisma de cada um coopera muito no conjunto da obra, como é o caso de Bankolé, que interpreta o traficante Pierro “Gordito” Carrera. Personagem que passa pelos problemas citados anteriormente.

Regina Hall é um show a parte interpretando Maya Babanikois, ex-esposa de Shaft e um ponto alto da narrativa, sempre fazendo contraponto ao que o ex-marido possa representar ao filho deles, e também servindo como contraponto ao que Shaft quer que o filho evite da personalidade da mãe. Já dá pra imaginar a quantidade de brigas, né? Tudo bem que a relação dos personagens de Regina de Jackson é bastante previsível, mas ainda assim é funcional e cai bem à proposta de SHAFT.

O maior problema com os envolvidos nos acontecimentos de SHAFT é o mal uso de um ótimo ator como Isaach de Bankolé. Mesmo sendo carismático e bastante seguro do papel, Bankolé acaba por servir de sombra na história, como já mencionado. E analisando friamente o roteiro de SHAFT dá pra ver claramente que seria possível agregar mais espaço de tela para o ator construir um vilão condizente com a aura obscura e perigosa que é demonstrada naquela representação de Harlem, fazendo o público temer o antagonista e também despertar outros sentimentos característicos como raiva, repulsa, desgosto… Enfim, uma pena não o aproveitarem melhor.

Mesmo atores mais novos como é o caso de Alexandra Shipp e Jessie T. Usher não deixam a desejar em qualidade de atuação. Claro que a proposta de SHAFT não é ser um indicado ao Oscar ou ao Globo de Ouro, não. Mas Shipp e Usher conseguem definir bem as personalidades que interpretam e fazem emergir uma boa química em diversos aspectos diante das câmeras.

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-- AH! QUER USAR O MEU CARRO?
-- NÃO, EU NÃO TENHO CARTEIRA DE MOTORISTA.
-- NEM EU.

SHAFT não é um filme ambicioso, preocupado em ser memorável. É muito pelo contrário. SHAFT é um filme que não se leva a sério e faz piada de tudo, exclusivamente se dedicando a contar uma história com viés escapista para fazer o público rir. É notório que mesmo transmitindo uma mensagem clara de que as pessoas deveriam aprender a conviver melhor com as diferenças, SHAFT, assim como o personagem principal, não dá a mínima se as pessoas de fato passarão a ser mais comedidas ou se vão se ofender com algo na película.

Indiferente de reflexões e aceitação de críticos, SHAFT já vem ganhando apreço popular. Até o momento o placar do título no Rotten Tomatoes é de 94% positivo da parte dos fãs.

Não espere de SHAFT um filme profundo sobre a natureza do ser humano, com diálogos rebuscados debatendo a seriedade de causas sociais, ou mesmo divagações rutilantes sobre o transcendental… Não. Essa não é a proposta de SHAFT.

SHAFT é uma comédia de ação com pitadas nada contidas de humor ácido e provocativo. Basicamente utiliza a metalinguagem para aludir aos tempos modernos, colidindo entre novo e antigo “jeito de fazer cinema”, entre o novo e o antigo “público que consome cinema”. E isso sem a menor preocupação de colocar uma nova vestimenta num personagem já consagrado, na tentativa de ajustá-lo para os moldes atuais. Novamente, SHAFT não dá a mínima pra isso.

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VEREDITO

Divertido, ácido, despretensioso, áspero, com um bom Tema, mas com um antagonista mal utilizado, SHAFT dá continuidade nos acontecimentos da vida do investigador particular mais linha dura do Harlem, também funcionando perfeitamente como um filme solo, visto que embora seja uma sequência não requer do espectador conhecimento prévio dos demais títulos da franquia.

Disposto a preservar as características do personagem, SHAFT aposta em se manter Old School ante críticos e parte do público que clamam por novos moldes. E, a julgar pela resposta positiva do grande público, parece que acertou a tacada.

O futuro de SHAFT é outra história. Talvez haja mudanças num próximo título, ou talvez não haja um próximo título – pelo menos até o momento não houve pronunciamento a respeito -, mas até lá o bom e velho SHAFT está aí, sendo ele mesmo. Gostem ou desgostem. Ele não dá a mínima.

Veredito 4 - BOM

FICHA TÉCNICA

Título Original: Shaft
Lançamento: 28 de junho de 2019
Direção: Tim Story
Roteiro: Kenya Barris, Alex Barnow
Trilha Sonora: Christopher Lennertz

Shaft é um personagem criado por Ernest Tidyman.

Elenco: Samuel L. Jackson, Jessie T. Usher, Richard Roundtree, Regina Hall, Alexandra Shipp, Matt Lauria, Titus Welliver, Method Man, Isaach De Bankolé, Avan Jogia, Luna Lauren Velez, Robbie Jones, Aaron Dominguez, Ian Casselberry, Almeera Jiwa, Amato D’Apolito, Leland L. Jones, Jalyn Hall, Sylvia Jefferies, Whit Coleman, Chivonne Michelle, Tashiana Washington, Philip Fornah, Laticia Rolle, Ryan King Scales, Tywayne Wheatt, Kenny Barr, Mike Dunston, Jordan Preston Carter, Nyah Marie Johnson, Joey Mekyten, Sawyer Schultz, Esmeree Sterling, Jose Miguel Vasquez, Gabriel ‘G-Rod’ Rodriguez, Keith Brooks, DominiQue MrsGiJane Williams, Michael Shikany, Lucia Scarano, Greta Quispe, Heather Seiffert, Charles Green, Dorothi Fox, Shakur Sozahdah.

Trailer:

Shaft | Trailer oficial | Netflix

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.