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SIMONAL | CRÍTICA

Em meio ao período militar, um cantor talentoso e ambicioso galga a fama, ganha espaço e reconhecimento entre a classe artística da música popular brasileira. Tão logo o sucesso lhe eleva ao auge de sua carreia, a conta do preço da presunção chega. E o valor é muito alto. Esse é o plot de SIMONAL, cinebiografia do cantor Wilson Simonal, que saiu das favelas e ganhou os palcos com grandes canções, participações especiais junto a artistas internacionais, contratos milionários com multinacionais… E uma péssima gestão financeira que lhe rendeu uma bola de neve e ajudou a destruir sua carreia.

SIMONAL é uma obra ousada. Isso é inegável. Há uma preocupação ímpar em garantir que toda a trama seja intimista, que o expectador se sinta próximo ao protagonista, que seja transportado para a mente de Wilson Simonal e veja o mundo como o artista via. Contudo, há alguns problemas na proposta e no desenvolvimento de SIMONAL que fazem o filme não atingir seu potencial máximo.

Nesta crítica vamos elucidar os pontos altos e baixos de SIMONAL, que estreia nos cinemas brasileiros hoje, 08 de agosto.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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– É PROIBIDO MÚSICO NA PISCINA, SIMONA. AINDA MAIS CRIOULO, COMO VOCÊ.
– AH, É?! QUEM DISSE?

Definitivamente, SIMONAL é uma obra que merece ser vista, ainda mais pelos fãs de Wilson Simonal. É perceptível o carinho e o respeito ao qual o filme se presta em contar a história de vida de um dos maiores nomes da MPB, bem como a forma icônica que Wilson Simonal levantava as plateias por onde se apresentava. E essa particularidade de SIMONAL é muito bem explorada.

SIMONAL é uma película que combina bem a liberdade artística com a retratação de eventos históricos ocorridos a partir dos anos 1960, onde a trama do longa se inicia. Contando sempre com uma câmera próxima do ator Fabrício Boliveira, que interpreta o cantor Wilson Simonal, a imersão do público é praticamente instantânea. E isso se dá por toda a duração do título. Poucos são os momentos onde se tem um plano aberto que mostra Simonal mais distante do enquadramento. Esse é um ponto muito alto da produção, porque realmente faz o espectador vivenciar a pessoa do astro e acompanhá-lo em sua jornada durante os quinze anos que a narrativa cobre.

Por esse acerto, você se sente íntimo de Simonal e da forma como ele via e entendia o mundo; passando, lado a lado, pelos altos e baixos da vida do cantor. Inclusive sua maneira debochada de lidar com assuntos polêmicos. E a forma como isso é retratado em SIMONAL é muito, muito boa.

Outro aspecto positivo de SIMONAL é a interpretação de Fabrício Boliveira. Embora haja pontos fracos pontuais em sua caracterização, quero elucidar primeiro os pontos altos, como sua interpretação dos trejeitos de Wilson Simonal, a forma convencida e malandra de gesticular, o gingado característico enquanto cantava, a forma de sorrir, a alegria de se apresentar… Tudo isso é muito bem incorporado por Boliveira, e quem é fã do trabalho de Simonal vai se emocionar com o cuidado do ator nessas particularidades.

Isis Valverde também é um destaque em SIMONAL. A atriz interpreta Tereza, esposa do cantor, e tem um esmero incrível na forma de dar vida aos dramas da personagem, no vício em medicamentos, na tristeza profunda de aturar o marido mulherengo, na forma doce como demonstrava amor a Simonal, mesmo sendo mulherengo, e também no companheirismo forte e presente de Tereza em apoio ao amado. Mesmo com as brigas, Tereza se mostrava firme, sempre disposta a estender a mão, inclusive em suas horas de fraqueza com sua hipocondria.

Isis consegue tornar tangível a maré emocional de Tereza de uma maneira bastante fluida. É de sentir na pele especialmente as cenas dramáticas onde a atriz chora. Sem falar na ótima química entre Fabrício Boliveira e Isis Valverde. A dupla funciona realmente muito bem, com pouquíssimos desarranjos.

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– TODAS AS VEZES QUE EU SUBO NO PALCO, EU ESTOU REPRESENTANDO O HOMEM SIMPLES, BRASILEIRO…
– MAS VOCÊ TEM DUAS MERCEDES.

Som é um diferencial em filmes musicais. Precisa ser bem balanceado, transmitir todas as nuanças das composições de maneira adequada, seja reproduzindo um fonograma, um show em uma casa noturna ou mesmo a céu aberto. Isso, é claro, sem contar o trabalho de foley, responsável por dar vida auditivamente a toda ambiência exibida no filme. E som é algo ímpar em SIMONAL, muito bem trabalhado, com destaque especial para as músicas.

Há um trecho de show ao vivo de Wilson Simonal que é exibido. Nesse caso a produção optou por não remasterizar a apresentação. Embora cause um choque sonoro com as demais apresentação de Simonal no longa, por ser uma gravação antiga, captada ao vivo em uma época que não dispunha de tanto aparato de alta tecnologia, ainda assim funciona bem com o resto da obra e é possível ver o próprio Wilson Simonal em ação. É nessa hora que você percebe o excelente trabalho de interpretação de Fabrício Boliveira, que embora mais alto e esguio, agrega toda presença do cantor. Fica inegável a qualidade da interpretação.

Em se tratar de áudio, SIMONAL é uma das cinebiografias nacionais de artistas musicais com melhor qualidade sonora que já vi até o momento. É um cuidado técnico que faz muita diferença no todo da obra.

É possível perceber influências de musicais como LA LA LAND, ELIS e até CHICAGO em SIMONAL. Há momentos de alusão bastante peculiares. Alguns melhores do que outros, é verdade, mas ainda assim, no todo, SIMONAL consegue ter uma identidade própria em meio a essas bases de inspiração e essa identidade é bastante sólida.

Como era de se esperar, nem tudo são flores. SIMONAL apresenta alguns problemas. Uns com o desenvolvimento da narrativa e outros, acredite ou não, com a parte musical da obra.

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– MO NUM PA TROPI ABENÇOA POR DE E BONI PO NATURE, MA QUE BELE

Ainda falando de áudio, muito embora haja todo capricho de SIMONAL com a qualidade auditiva da película, o uso dos playbacks não foi uma jogada bem executada, e por mais que Fabrício Boliveira tenha entregado seu melhor na atuação, os momentos em que precisa dublar o cantor não são dos mais felizes. Ficam perceptíveis trechos de assincronia labial, inegável diferença vocal e também problemas de inflexão.

É importante ressaltar que a questão com os playbacks reflete uma falha na direção, que embora tenha sido afortunada em outros aspectos foi descuidada neste. E por se tratar de uma cinebiografia musical, com diversas cenas de apresentações interias de Wilson Simonal, a balança pende negativamente. Se a obra exibisse menos momentos do cantor nos palcos essa desventura não teria tanto peso no resultado final. Por outro lado, é evidente que o diretor Leonardo Domingues quis homenagear o artista mostrando tantos shows. A partir daí a conta é simples: mais shows, mais tomadas com erros de sincronia com os playbacks, maior estranheza dos espectadores.

Alguns momentos das montagens com os playbacks até passam batidos, mas há outros que fisgam o público de forma contrita. E quanto mais se presta atenção nas cenas, mais se percebe que Boliveira apenas mexia os lábios para tentar sincronizar com as músicas, o que tira toda autenticidade da atuação.

De fato, Wilson Simonal teve uma voz única e emblemática. Exigir tamanha destreza vocal do ator seria algo imaturo de pensar e teria um custo muito elevado na produção como um todo, com aulas e mais aulas de canto por muito tempo antes das filmagens e o resultado ainda seria incerto. Não por falta de talento, mas por tessitura e particularidades na voz de Simonal que, apesar de imponente era naturalmente aveludada, enquanto que Boliveira tem voz mais áspera e com drives naturais que diferem bastante do artista interpretado.

A alternativa, talvez, teria sido dar a Boliveira a oportunidade de soltar a voz, e não apenas mexer os lábios, pois traria mais veracidade às execuções e seria mais fácil da montagem sincronizar com maior precisão essas cenas. Porque mesmo que Boliveira não seja cantor só o fato de vociferar as frases nas músicas já eliminaria a estranheza da edição.

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– NÃO TENHO NENHUM ENVOLVIMENTO COM POLÍTICA. MEU LANCE É CANTAR A MÚSICA PRO POVO. O BRANCO, O POBRE, O RICO, O PRETO…

SIMONAL relata como ápice dramático a ascensão social de Wilson Simonal em meio ao período de ditadura militar no Brasil, o reconhecimento frente à classe artística da época e sua queda por má gestão financeira, esta em parte por presunção e parte pelo escândalo envolvendo seu contador. Escândalo este que culminou na fúria dos artistas e da mídia brasileira, que destronaram o cantor tão rápido quanto o haviam coroado.

Toda dramaticidade do enredo é bem amarrada em desenhar esses acontecimentos, menos nos momentos em que Wilson Simonal e Tereza discutem por questões financeiras, as constantes puladas de cerca de Simonal, ou pela altivez do artista. Na maioria dessas cenas nós vemos o tão famoso “Show, Don’t Tell” (que já discorremos várias vezes aqui no LEPOP – e você pode ler mais a respeito clicando aqui, aqui e aqui.).

Apenas um exemplo, para não dar muitos spoilers, há uma cena em que Tereza pergunta a Simonal o que fazer para resolver o crash em suas contas bancárias. Ele responde ríspido que nunca deixou de pagar a mesada dela, da sogra, das tias… Da família de Tereza de modo geral. O problema é que em momento algum da película você vê isso acontecer. O filme exibe o cantor fazendo de tudo por sua mãe, comprando casa, carro, apartamento, roupas, viagens… Mas não demonstra absolutamente nada relacionado à família de Tereza. E como já falamos em outras críticas sobre esse mesmo problema, isso não gera conexão entre público e história. O público está sendo privado de uma informação importante que será necessária para aderir melhor os dilemas vividos pelos atores. Uma coisa é mostrar o que aconteceu, outra coisa é dizer que aconteceu.

A omissão de eventos importantes ocorre várias vezes ao longo de SIMONAL. Seja de forma descritiva, seja visual. E todas elas privam o espectador de se conectar melhor com a narrativa. Infelizmente, muitos desses momentos acontecem em horas de diálogos conflitantes entre os envolvidos na trama, que são momentos importantes para construir de maneira sólida as crenças e descrenças de cada figura que passa por SIMONAL. Mas tais diálogos acabam não tendo tanto peso em função do lapso de informação.

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VEREDITO

Ousada, intrigante, auditivamente impressionante, com alguns problemas de narrativa, mas com atuações muito boas, SIMONAL é uma produção afortunada. Com maestria técnica, ritmo envolvente e visível carinho na reprodução da vida de um dos maiores nomes da MPB, a película entrega uma proposta bastante honesta de entretenimento e saudosismo aos fãs do artista.

SIMONAL alinha palco e bastidores de forma intimista, onde o público é imediatamente convidado a ser amigo de Wilson Simonal e presenciar de perto seus sonhos e pesadelos. Sem pretensões polêmicas, a película é bastante humana em relatar erros e acertos do cantor, seu carisma e sua presunção.

Com um desfecho não muito emocionante, mas aceitável, SIMONAL entrega aos fãs e filhos de fãs de Wilson Simonal uma experiência imersiva, repleta de música, em uma jornada pelas casas de shows, gravadoras, páginas dos jornais, penitenciárias, perseguição militar, perseguição midiática… Onde o público acompanha do sorriso ao choro de muito, muito perto.

Veredito 4 - BOM

FICHA TÉCNICA

Título Original: Simonal
Lançamento: 08 de agosto de 2019
Direção: Leonardo Domingues
Roteiro: Victor Atherino

Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Billy Blanco Jr, Caco Ciocler, Bruce Gomlevsky, João Guesser, Silvio Guindane, Leandro Hassum, Letícia Isnard, Jess Laurens, Mariana Lima, Dani Ornellas, Luciano Quirino, Fabricio Santiago, João Velho, João Viana

Trailer:

Simonal | Trailer Oficial

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.