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SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! | CRÍTICA

Júlio é um  garoto tímido, estabanado, genial em matemática… Que não tem um pingo de amor próprio, mas sonha em encontrar seu grande amor. Crente de que a garota mais popular da escola possa gostar dele, decide se declarar para ela. Entretanto, acaba criando uma confusão dos diabos e servido de chacota para toda escola. É então que, desesperado e desiludido, faz um pedido a uma estrela cadente desejando ser a pessoa mais popular do colégio. Para alegria de Júlio, o pedido é atendido, só que com um porém: ele acorda numa realidade paralela onde é uma garota chamada Júlia. Agora, entre inúmeras trapalhadas e descobertas, Júlio(a) entra numa corria contra o tempo para voltar a ser um garoto, contudo não imaginava que encontraria o amor de sua vida nessa algazarra. Esse é o plot de SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! que estreou dia 22 de agosto nos cinemas brasileiros.

SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! é uma comédia nacional com “Q” de cinema internacional, abordando a clássica troca de corpos e as costumeiras confusões que decorrem daí, como descoberta das particularidades do corpo alheio, desafios de se ver na pele do outro… Mas com um diferencial: não é uma troca, propriamente dita. Júlio não muda de corpo com alguém, como em SE EU FOSSE VOCÊ, SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA ou mesmo a animação japonesa YOUR NAME. Pelo contrário, o longa leva o espectador a acompanhar a mente de Júlio, desperta, em sua versão feminina, numa realidade alternativa.

Embora inovadora na forma de abordar o cerne da trama, a comédia não chega a ser tão engraçada e a narrativa cai em diversos problemas que impedem a obra de alavancar seu potencial máximo. Por isso, nesta crítica, vamos abordar os altos e baixos de SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! e discorrer a respeito.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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– CARA, NA BOA, ISSO AQUI NÃO É UMA BARRACA. É UM REPELENTE PRA MULHER. OLHA ISSO!
– HÁ! COMO SE A GENTE PRECISASSE, NÉ?

Comédias sobre troca de corpos geralmente são funcionais por um fator: a troca. O público assiste a ambos os protagonistas sentindo na pele o que é “calçar os sapatos da outra pessoa”, que por mais que ache que a vida do outro é fácil e sempre 100% oba-oba, no final das contas descobre que viver não fácil ou justo para ninguém. E por mais que seja engraçado de acompanhar tanto homem quanto mulher vivendo em corpos opostos, sempre se vê aquele fundo moral de não presumir que a outra pessoa leva uma vida regalada. Mas claro, quando existe uma troca de corpos na trama, o que não é o caso aqui.

SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! não aborda as mudanças de perspectivas (plural), mas sim de perspectiva (singular). De apenas um ponto de vista. A narrativa segue Júlio acordando Júlia e, da noite pro dia, tendo de aprender a viver no corpo de uma mulher. Justamente aí a inovação do roteiro vira inimiga do mesmo, porque você não acompanha Júlia também acordando Júlio e descobrindo o que é estar na pele de outra pessoa e, da noite pro dia, aprendendo a viver no corpo de um homem. Por essa decisão de abordagem dramatúrgica toda a história fica limitada a apenas um ponto de vista, e quando menos se espera os seguintes questionamentos começam a brotar na cabeça:

Peraí! Mas se a mente do Júlio acordou no corpo da Júlia de outra realidade, o que aconteceu com a mente da Júlia? Acordou no corpo do Júlio também? Será que vai ter um próximo filme que mostre o que aconteceu do ponto de vista dela? Quais os problemas que ela enfrentou na pele dele? E se ela não acordou no corpo dele, mas no corpo de outro cara? Será que essa realidade em que o Júlio vira Júlia só foi criada pra ele aprender a dar mais valor a si próprio, ou ela de fato existe e num próximo filme vão abordá-la melhor?

Raciocine comigo: se de um lado você tem um cara que não se dá bem com o pai, nem com o irmão, nem com ninguém da escola a não ser o melhor amigo, e do outro lado você tem uma patricinha que é adorada por todo mundo, que o pai faz de tudo por ela, que tem mais de três milhões de seguidores em seu canal no YouTube sobre maquiagem, que é convidada pra todo tipo de festas… Não seria bacana ver ambos tendo de se virar na pele um do outro? Não seria interessante ver ambos descobrindo que viver não é fácil nem pra quem é adorado pelo público e leva uma vida vazia, nem pra quem é ignorado por onde passa e vê a própria inteligência como fraqueza? E não seria interessante, também, os personagens aprenderem a ver o lado positivo de estar na pele do outro? Pois é… Seria, mas não é o que acontece. Como SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! não tem esse contraponto, a trama discorre unilateralmente e por mais que o andar da carruagem tente compensar a ausência de outra ótica, a sensação da falta de acompanhar o outro lado da história está sempre presente.

Esse efeito se deve a um fator bem simples: a comparação. Filmes desse molde são sempre comparativos. O personagem “X” troca de corpo com a personagem “Y” e a audiência vai acompanhar as comparações de desafios que cada um vai enfrentar. Uma vez que apenas um dos lados é exibido é como se o roteiro ignorasse completamente a existência do outro. E por mais talentoso(a) que seja o(a) ator/atriz que interprete tal personagem, ele(a) sempre vai soar desconexo(a) com a trama porque não está estabelecido(a) na mesma. Uma coisa é fazer “X” trocar de corpo com “Y” e nos mostrar quem é quem, no que acreditam, o que gostam, o que detestam… Nos fazer se importar com cada um. Outra coisa é fazer “X” trocar de corpo com “Y” e só dar o ponto de vista de um deles, ignorando completamente a existência do outro, do que o outro gosta, do que desgosta, quais seus sonhos, pesadelos… Uma escolha desse tipo não gera conexão do público com o personagem.

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– SAI. DAQUI. AGORA.

A proposta do enredo não é o único problema de SOCORRO, VIREI UMA GAROTA!. Outro problema da película é a atuação. É forçada em diversos pontos e justamente por esse motivo você não consegue identificar a “linha de comédia” em si. Por exemplo, a tal “Comédia-Pastelão” (Slapstick Comedy). É um subgênero da comédia onde prevalece uma trama simplória, tramoias, travessuras, motivos de riso fácil, violência física… Basicamente como são estruturados os episódios de TOM & JERRY, PICA-PAU ou ainda OS TRÊS PATETAS, O GORDO E O MAGRO, OS TRAPALHÕES… E por aí vai. Há também a “Comédia Maluca” (Screwball Comedy), que tem como característica situações que tendem ao ridículo, irreais, palhaçadas envolvendo troca de papeis entre homens e mulheres, tentativa de manter algum segredo, mal-entendidos e, de maneira geral, são comédias onde o relacionamento afetivo (namoro, noivado, casamento, divórcio, novo casamento) é usado como motivador. Filmes como AS TRÊS NOITES DE EVA (1941), ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934), ou ainda O MONSTRO (1994) se enquadram nesse aspecto. Claro, também existem outros subgêneros como Comédia de Ação, Comédia Romântica, Comédia Dramática, Humor Negro… E se parar pra analisar vai ver que até o Trash pode pender para comédia. Por ser uma produção propositalmente malfeita, o Trash pode ser moldado para qualquer gênero ou subgênero cinematográfico. Enfim… Você já entendeu.

O fato é que, as atuações de SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! seguem uma linha tão forçada e vaga em alguns momentos que, somado aos problemas de roteiro, você não consegue definir linguagem. Há horas que o filme ruma pra algo mais Pastelão, há momentos mais Comédia Dramática, outros momentos de Comédia Maluca, Trash… E nesse meio de linguagens colidindo a sensação de desconexão não é pequena.

Há boas atuações do elenco de apoio, é verdade. Nomes como Nelson Freitas, Vanessa Gerbelli e Lua Blanco são os responsáveis pelas boas atuações. Mesmo tendo papeis com menor tempo de tela, conseguem tornar as cenas pouco mais tangíveis e até equilibram o problema de linguagem descrito acima. Entretanto, no que tange os atores que despontam o longa, Thati Lopes, Victor Lamoglia e Léo Bahia as atuações ficam artificiais. A um nível de não se ter certeza de qual era o alvo da direção com aquilo. Se era estereotipar o “tipo canastrão”, estereotipar o perfil do “nerd com baixa habilidade social”… O que se tem certeza é que são forçadas. E não é um caso de falta de talento dos atores, mas que demonstra alguma tentativa da direção que não acabou sendo muito frutífera.

No elenco ainda estão Manu Gavassi e Kaiky Brito. Seus papeis têm pouco mais tempo de tela do que Nelson Freitas, Vanessa Gerbelli e Lua Blanco. E no quesito atuação não têm tantos problemas assim. Há momentos de boas atuações e momentos mais medianos. Contudo é de se estranhar a opção da direção de firmar/retratar os protagonistas como canastrões. Se há alguma razão para isso, não ficou clara. Até mesmo fincar estes personagens como top dos estereótipos chega a ser questionável, uma vez que não se tem tantos personagens assim para apresentar. Júlio (Victor Lamoglia) e Júlia (Thati Lopes) são a mesma pessoa, logo têm a mesma personalidade. E mesmo Cabeça (Léo Bahia) tem uma personalidade que é complementar à de Júlio/Júlia. Ou seja, não há necessidade para estereotipar tanto. Já, inclusive, discorremos sobre o uso mais assertivo de estereótipos em outra crítica. Para ler basta clicar aqui.

É importante ressaltar que o exagero é, sim, um recurso comumente usado tanto em Comédias Pastelão quanto em Comédias Malucas. E geralmente é funcional por ser previamente arranjado dentro da proposta de linguagem de cada tipo de filme, estruturando o roteiro de maneira a alinhar todos os personagens envolvidos na história e se encaixarem de uma forma ou outra dentro desse exagero; então o padrão de atuações fica homogêneo e não gera no público a impressão de que há personagens que não casam com a realidade proposta na narrativa. Contudo, ainda assim, há uma linha tênue entre o exagero que se encaixa na história e o exagero que soa como rebarba. Cabe à direção encontrar o balanço adequado. Em SOCORRO, VIREI UMA GAROTA!, infelizmente, há um desbalanceamento desse exagero e isso atrapalha a linguagem da comédia, a um ponto onde se sugere apelo a expressões exacerbadas, gritos, gritos e mais gritos… Como tentativa de instigar o riso. Não foi a decisão mais afortunada, a meu ver.

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– SER MULHER É COMO… SER UM X-MEN. E EU SOU O WOLVERINE.

Os pontos altos de SOCORRO, VIREI UMA GAROTA!, porem, são quesitos técnicos como montagem, som e trilha sonora. Nesses aspectos o filme tem uma melhor harmonia e mantém a mesma linguagem durante toda a obra. Aliás, a conversa entre montagem e trilha sonora merece ser elogiada. Não são poucos os momentos em que a escolha das músicas cai como uma luva nas cenas. E esse quesito inclusive é responsável por mascarar alguns dos problemas de roteiro, linguagem e atuação.

Há trechos em que a montagem se vale da música para compor detalhes que, de fato, trazem certa graça e até arrancam algumas risadas. O mesmo pode se dizer dos momentos tocantes da película. O trabalho de edição e a garimpada feita na hora de definir as músicas realmente se destacam de maneira positiva.

Por ser uma obra de abordagem jovem, SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! obviamente se firma em composições de música pop, abusando de remix, com uma pegada mais eletrônica. E não há como dizer que a escolha foi ruim. O casamento favoreceu muito o link entre as cenas, a ambientação das cenas. E se você prestar atenção vai perceber que a trilha sonora conversa, muito bem, quase que literalmente, com essas mesmas cenas.

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– DESCULPA AÍ TÁ AQUI, TÁ? É QUE EU… ESQUECI QUE… NÃO TEM MAIS PAU.

O último ponto que vale a pena citar nesta crítica é um problema de lógica. O roteiro estabelece que quando Júlio se torna Júlia, isso se dá numa realidade alternativa. E nesta, nem todos os eventos da realidade de Júlio ocorreram da mesma forma que na realidade de Júlia. Ou ainda sequer chegaram a acontecer.

Ao longo da narrativa, o espectador acompanha Júlia vivendo situações diferentes, encontrando conhecidos – ou não – em suas versões diferentes, mas há pessoas e eventos nessa nova realidade que se comportam exatamente como na outra. E o roteiro acerta consideravelmente na forma como brinca com essa mescla, mas o problema está na forma como o roteiro faz o desfecho dessas variações no terceiro ato.

Tá, antes de seguir detalhando este último tópico é preciso deixar claro que não vou me aprofundar nisso, porque entrega muitos spoilers e a ideia aqui não é estragar a experiência do espectador, mas sim instigar o mesmo a ir ao cinema e tirar suas próprias conclusões. Afinal, ainda que minha avaliação não seja positiva sobre a obra, o público pode acabar gostando muito da película. É uma questão de gosto, não de palavra final.

O problema é que há diversos momentos em que SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! apresenta situações e consequências de uma realidade como paralelas à outra. E há momentos em que isso é completamente ignorado. Veja bem, aquilo que acabou de ser estabelecido na narrativa é ignorado alguns minutos depois. Isso ocorre várias vezes ao longo da trama.

Há ainda momentos em que o enredo deixa claro que o que é vivenciado na realidade de Júlia pode não necessariamente ser verdade na realidade de Júlio, mas no terceiro ato isso também é ignorado, sugerindo que ambas a realidades convergem e o que ocorre em “X” também ocorre em “Y”… Mais alguns pormenores ainda.

Bom, não há como detalhar muito esse problema de lógica sem entregar spoilers, então fica o convite para que você vá ao cinema, assista SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! e tire suas próprias conclusões.

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VEREDITO

Nem tão engraçada, exibindo algumas atuações com rebarbas, outras em melhor forma, quesitos técnicos bem trabalhados e uma proposta inovadora não muito bem estruturada, SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! é uma comédia com problemas de linguagem e alguns problemas de lógica, que até tem um enredo bacana, mas mal otimizado.

Focada em ser uma obra de apelo jovem, SOCORRO, VIREI UMA GAROTA! acerta em ajustes técnicos como edição, som e música, mas infelizmente se perde em trechos importantes da narrativa e se vale de exageros em algumas atuações que destoam do todo.

Verdade seja dita, há quem goste de filmes de comédia só por ser comédia e não vê aborrecimentos em tecnicidades. A estes, o filme pode agradar bastante e ser um bom divertimento, afinal é uma questão de gosto, não de palavra final.

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Socorro, Virei Uma Garota!
Lançamento: 22 de agosto de 2019
Direção: Leandro Neri
Roteiro: Paulo Cursino

Elenco: Thati Lopes, Lipy Adler, Bruna Altieri, Leo Bahia, Lua Blanco, Kayky Brito, Giovana Cordeiro, Nelson Freitas, Manu Gavassi, Vanessa Gerbelli, Bruno Gissoni, Victor Lamoglia, Camila Mayrink.

Trailer:

Socorro, Virei uma Garota! : Trailer Oficial : DTF

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.