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TERREMOTO (2020) | CRÍTICA

Kristian Eikjord é um geólogo que ficou famoso por conseguir avisar ao povo norueguês que um terremoto estava às portas. Inúmeras vidas foram salvas por suas declarações, mas infelizmente muitas também se perderam. Desde então, Eikjord passou a se isolar nas montanhas, longe de todos. Inclusive, longe de sua família. Agora, três anos após o ocorrido, um novo terremoto, muito mais devastador, se aproxima de Oslo, e ninguém está noticiando. Eikjord se vê forçado a travar uma batalha contra tudo e todos para avisar os moradores de Oslo antes que o pior aconteça. Este é o Plot de TERREMOTO, que estreia nos cinemas brasileiros dia 12 de maço, com distribuição da California Filmes, direção de John Andreas Andersen e estrelado por Kristoffer Joner.

TERREMOTO é um Suspense Dramático de Ação que tem a proposta clara de fazer o espectador se sentir imerso no desespero de um terremoto, presenciar a catástrofe de dentro, como se estivesse no local, no exato momento do solavanco. E realmente, nesse ponto o filme entrega, de fato, uma experiência bastante imersiva. De te fazer levantar os pés do chão em alguns momentos. Em outros, constrói tensão com maestria. Mas, como nem tudo são flores, TERREMOTO tem um problema bem incômodo ao longo de sua narrativa: Kristian Eikjord, nosso geólogo protagonista. Ou melhor, a construção de seus “quase dilemas”.

Nesta crítica vamos abordar os pontos altos e baixos de TERREMOTO e discorrer como um protagonista com “quase dilemas” pode prejudicar o impacto emocional de um longa e fazer a plateia se desconectar da jornada do personagem.

Como de costume, o texto a seguir não contém quantidade significativa de spoilers.

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-MUITOS DOS QUE ESTAVAM EM GEIRANGER NO DIA 6 DE MAIO SÓ ESTÃO VIVOS POR CAUSA DO GEÓLOGO KRISTIAN EIKJORD.

Com algumas poucas exceções, filmes de catástrofes naturais (terremotos, maremotos, tsunamis, tornados, enchentes, furacões, erupções vulcânicas, avalanches e etc.) são, de maneira geral, filmes de resgate. São geralmente histórias de pessoas indo ao encontro de outras, enfrentando a natureza para permanecerem juntas. E justamente por ser uma forma de narrativa tão simples, é preciso utilizar muita criatividade para levar uma experiência inovadora ao público, porque simplesmente assistir a uma hora, uma hora e meia, duas horas de revolta da natureza, por mais efeitos visuais que se tenha, pode ser maçante. É então que entra um elemento muito importante: o ser humano.

O que leva pessoas a assistirem produções sobre a fúria da natureza é o Fator Humano. É ver como o ser humano vai lidar com os contratempos da história. É presenciar de que maneira os personagens vão superar as adversidades ao mesmo tempo em que enfrentam problemas pessoais, muitas vezes relacionados à falta de coragem, problemas no relacionamento, deficiência física, traumas… É o Fator Humano que torna uma película de catástrofe natural atrativa. Por esse motivo, conflitos e dilemas são tão cruciais na hora de estruturar os protagonistas numa trama dessas. Porque sem ter o que superar, os personagens viram apenas conchas vazias no meio de um desastre. Ou seja: você, enquanto espectador, não se importa com eles, não sente empatia por eles e acaba não dando a mínima para o fato de estarem no meio de um terremoto, tsunami… Ou seja lá o que for. E isso não é por uma psicopatia ou coisa do tipo, mas pelo fato de que o seu cérebro, verdade seja dita, simplesmente ignora pessoas que não têm problemas a superar.

Nós falamos em outra crítica sobre uma técnica de roteirização chamada Kicking The Dog (pra ler a crítica e entender do que se trata é só clicar aqui). Essa técnica é importante porque ativa em você o Gatilho Mental da Reciprocidade e te faz entrar na pele daqueles personagens, tornando o sofrimento o ponto de imersão da narrativa, porque todos nós temos problemas. Todos já passamos por diversos tipos de traumas, sofrimentos, amarguras, dores, desilusões, traições. Sem falar que seu cérebro é basicamente condicionado a se interessar por solucionar problemas. Sendo assim, o efeito de um Kicking The Dog bem feito em um roteiro te faz calçar os sapatos dos envolvidos na trama, te faz sofrer com eles e te faz querer saber como eles vão superar aquilo, porque você pode vir a aprender algo com aquela situação – mesmo que figurativamente.

Agora… Qual o motivo de toda essa explicação prévia? Simples, prezado leitor. Porque a mesma regra que se aplica a você, enquanto espectador, também se aplica aos personagens de um filme, série, livro, animação… O que for. Da mesma maneira que você sente empatia por pessoas desamparadas, injustiçadas, sofredoras e traumatizadas, os personagens de uma história também precisam sentir. “Reciprocidade”, lembra? Por isso o roteiro precisa primeiro apresentar os personagens e demonstrar o que eles sofrem, pra fazer você se conectar. Só que há um fator muito importante nessa frase: “o roteiro precisa PRIMEIRO APRESENTAR os personagens (…)”. Sem essa apresentação de personagem você simplesmente não vai saber por quem sentir empatia. Da mesma maneira, sem conhecer outros personagens, um protagonista não vai ter motivos para sentir empatia. Precisamente aí reside o maior de todos os problemas de nosso geólogo protagonista, Kristian Eikjord.

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-SENTE FALTA DA MAMÃE?
-SIM, ÀS VEZES.

Em TERREMOTO, o geólogo Kristian Eikjord é um homem que vive à sombra do passado. Marcado por um evento traumático que o fez viver em isolamento, abandonado tudo para se martirizar. E qual foi esse evento traumático? A morte de inúmeras pessoas que ele nunca viu na vida. Não interagiu, não esbarrou na rua, não tropeçou, nada. São pessoas completamente randômicas que passaram nos jornais. Nenhuma delas teve qualquer tipo de contato humano com Kristian. É por isso que o excesso de altruísmo do geólogo não funciona. Ainda mais se você pensar que ele não teve culpa na morte dessas pessoas. O aviso foi dado com certa antecedência e uma quantidade bastante considerável dos habitantes de Geiranger foi salva. Sabendo disto, você, prezado leitor, argumenta:

-Então ele se isolou porque não conseguiu salvar a família, certo? Talvez a esposa, os filhos?

Aí encontramos o outro problema: Kristian salvou toda sua família. Conseguiu resgatar esposa, filho mais velho, filha mais nova. Todos os que lhe são queridos. Sua família saiu ilesa. E antes que você fique vermelho de raiva por achar que isso é um Spoiler, permita-me lembrar que esse fato está escancarado no Trailer. Sim, no Trailer.

Não é só isso, porque a família de Kristian não o condena, não o recrimina, não julga. É basicamente a família perfeita, porque mesmo que sintam falta dele, em momento algum existe confronto entre ele e sua família abandonada. A esposa continua o amando, a filha continua vendo ele como herói, o filho continua querendo ver o pai em casa com a mãe. E mesmo em um dado momento do longa, onde nosso protagonista dá uma baita mancada com sua família, ainda assim não há confronto. Apenas explicações meia-boca e uma pseudo-cobrança também meia-boca. Só. Kristian não tem desarranjos com nenhum familiar, não tem problemas a superar em casa.

Somando tudo isso, temos um protagonista que salvou milhares vidas, virou um herói nacional, é amado pela esposa, amado pelo filho, amado pela filha, querido pela comunidade científica… Mas que se vitimiza por não ter conseguido salvar pessoas as quais ele nunca viu na vida, de um acontecimento ao qual ele não tinha o menor controle. E por causa disso abandonou a carreira, a esposa, os filhos e resolveu viver em isolamento. Faz sentido?

Lembra que eu expliquei que a mesma regra que se aplica aos seus Gatilhos Mentais enquanto espectador também precisa valer para os personagens de uma história? Então, vamos fazer um exercício simples, responda pra si mesmo com toda a sinceridade: O quanto você se comove ao ver uma notícia de chacina? Quanto tempo dura a sua comoção pelas vidas perdidas de um grupo de pessoas mortas em um assassinato? Você chega a perder o sono por causa da vida de pessoas que você nunca viu? Você ficaria dias sem comer por ver uma notícia do tipo? Abandonaria sua família, amigos, carreira profissional e até mesmo o local aonde mora por assistir uma notícia dessas?

De fato, há casos em que mesmo sem conhecer alguém pode-se viver um trauma, como um atropelamento, ou mesmo uma batida de carro, por exemplo. Digamos que você esteja dirigindo e acabe ou atropelando algum pedestre, ou colidindo contra outro veículo e esse pedestre (ou outro motorista) morra, mas você saia sem nenhum arranhão. Isso provavelmente é um momento traumático, mesmo não conhecendo aquela pessoa morta. Mesmo não sendo diretamente culpado (seja por falha mecânica, elétrica, ou descuido da outra pessoa). E aqui a pergunta que fica é: por que nesse caso a morte de um desconhecido traumatiza, mas no exemplo da notícia de um assassinato em massa não? A resposta, porém, não está nem na quantidade de vidas, nem no tipo de incidente em si. A resposta está em vivenciar o ocorrido, estar presente no local no exato momento.

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-SEI QUE NÃO É FÁCIL. VOCÊ SOBREVIVEU A UM ACIDENTE. NÃO SIGNIFICA QUE VAI ACONTECER DE NOVO.

Antes de você me xingar e dizer que eu estou me contradizendo e tal, vamos por partes. Sim, conhecer as vítimas é fundamental para fazer um personagem se compadecer de um acidente trágico. Contudo, como visto no exemplo do carro, não é a única forma. Um personagem pode, sim, desconhecer essas mesmas vitimas e ainda assim sofrer por elas e até gerar traumas sérios, mesmo nunca as tendo visto antes. O ponto chave pra isso é o fato de viver a experiência.

-Mas Leo, você disse várias vezes que Kristian viveu a experiência do terremoto de 3 anos atrás. Você até falou que ele conseguiu salvar toda a família. Isso que você tá falando agora não faz sentido nenhum.

Não faz? Sabe por que o exemplo da notícia de uma chacina te comove menos do que o exemplo do acidente de carro? Porque no caso da notícia, a informação do evento está sendo FALADA pra você. Já no acidente de carro, você VIU o caos acontecer. Você esteve lá, presenciou a batida – ou atropelamento, viu a reação nos olhos e nos corpos das pessoas que morreram. E VER é muito mais poderoso do que OUVIR de alguém o que aconteceu.

Essa é uma questão que já foi abordada diversas vezes em diversas críticas aqui do LEPOP. Um pequeno-gigantesco detalhe de roteiro chamado Show, Don’t Tell (Demonstre, Não Diga). Isso basicamente quer dizer que toda vez que você, enquanto roteirista, tiver de optar entre MOSTRAR para a plateia um acontecimento, ou DIZER o que aconteceu, opte sempre por MOSTRAR, porque a experiência visual é sempre mais impactante.

No caso de TERREMOTO, o que o espectador presencia é uma gama de DIÁLOGOS sobre o terremoto de Geiranger, mas nenhuma referência visual do geólogo Kristian Eikjord e sua família lutando pra sobreviver à força da natureza. O público não vê o que de fato aconteceu naquele dia, como as pessoas fugiram, os prédios desmoronando, gente sendo engolida viva pela terra, pessoas caindo de prédios, sendo soterradas, acidentes de carros, pessoas morrendo diante da família de Kristian, nada. Ao espectador não é apresentado nenhum destes fatos. Você só ouve que aconteceu, mas não vivencia, não sabe sequer como Kristian conseguiu retirar a família do local.

Esse detalhe de não fazer o público se inserir no primeiro terremoto, mas em vez disso apenas mencioná-lo, causa um problema sério. Coloca em xeque o sentimento de Kristian pelo valor da vida humana. Levantando questões como: Ele realmente se importa com as pessoas que morreram, ou tá só fazendo showzinho? Se a vida humana realmente é tão importante assim pra ele, como ele não consegue ver valor nas vidas que ele salvou?

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-OSLO JÁ PASSOU POR ISSO ANTES. E TÁ ACONTECENDO DE NOVO.

TERREMOTO ainda tem outro problema com a estruturação de Kristian Eikjord. Ele não argumenta. O que é bastante curioso, porque Kristian é um bom exemplo de Protagonista Ativo (algo que já abordamos diversas vezes em nossas críticas), ele move a história, busca os fatos, direciona os acontecimentos narrativos para os exatos momentos em que deveriam acontecer, dando sentido a eles, não apenas existindo porque o roteiro precisa. Não. Kristian é um bom exemplo de Protagonista Ativo, mas infelizmente, toda vez que é confrontado sobre sua teoria de um novo terremoto se aproximando, Kristian é incapaz de argumentar. Ele não consegue sequer expressar confiança no que fala – mesmo acreditando piamente, como tem algo ainda pior: Kristian também não consegue conversar a nível técnico com outros geólogos.

Sabe aquelas frase cheias de jargões técnicos, que muitas vezes você acha desnecessárias por não entender lá muita coisa, por não ser o seu nicho de atuação profissional? Então, elas existem necessariamente para estabelecer os personagens como profissionais altamente capacitados, dotados de vasto conhecimento e experiência sobre o assunto. Servem para fazer os personagens serem vistos como autoridades naquele tema, como referências. Não são frases jogadas ao vento. Tudo bem que de fato existem filmes por aí que fazem uso desses jargões de maneira expositiva e pobre, chegando a soar forçado. Só que, de contrapartida, retirar completamente essa particularidade de alguém que deveria ser visto como especialista também é um tiro no pé, porque para o público, esse especialista passa a não ser tão especialista assim. E aí o personagem perde o posto de autoridade, de referência científica e vira só um palpiteiro.

Agora, qual o grande problema da somatória desses deslizes de roteiro? No que isso impacta negativamente o desempenho de TERREMOTO enquanto filme? E a resposta está na proposta, descrita no segundo parágrafo deste texto.

TERREMOTO se propõe a inserir o espectador no epicentro, no âmago de um dos eventos mais aterrorizantes da natureza, fazendo esse espectador mergulhar na atmosfera de desespero de estar num terremoto, de ver que não há onde se esconder, se abrigar, dificilmente há como fugir, porque você não pode confiar onde pisa. E toda construção do clímax de um abalo sísmico é muito, mas muito, mas muito bem feita em TERREMOTO. A plateia sente o perigo rondando, como se um novo tremor estivesse pra surgir a qualquer instante. Isto, agregado ao excelente trabalho de efeitos visuais, é uma experiência realmente assertiva. A qualidade técnica dos efeitos visuais é de impressionar, com uma riqueza de detalhes que espanta. Só que nada disso adianta, se o público não se conecta com quem protagoniza a película. Nada disso faz sentido, se é impossível sentir empatia, se importar, se preocupar com o personagem chave da história. Nada disso impacta como deveria, porque os olhos de quem protagoniza não despertam comoção.

TERREMOTO acaba se tornando confuso, porque os efeitos visuais te impressionam muito e tentam te puxar pra dentro do longa, mas os problemas estruturais de Kristian te jogam pra longe da trama.

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VEREDITO

Visualmente competente, com uma proposta muito assertiva em fazer o espectador vivenciar a magnitude de um terremoto, porém com sérios problemas na construção do protagonista da obra, TERREMOTO é um filme que poderia ter atingido maior grau de impacto narrativo, se não tivesse derrapado em pontos tão cruciais da personalidade de quem puxa a história e na apresentação de seus traumas.

Cativante em certos momentos, mas confuso em outros, TERREMOTO infelizmente acaba por ser um filme mediano, em função de decisões mal estruturadas na hora de escrever o roteiro.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Skjelvet
Lançamento: 12 de março de 2020
Distribuição: California Filmes
Direção: John Andreas Andersen
Roteiro: John Kåre Raake, Harald Rosenløw-Eeg
Trilha Sonora: Johannes Ringen, Johan Söderqvist
Edição: Christian Siebenherz
Cinematografia: John Christian Rosenlund

Elenco: Kristoffer Joner, Ane Dahl Torp, Edith Haagenrud-Sande, Kathrine Thorborg Johansen, Jonas Hoff Oftebro, Stig R. Amdam, Catrin Sagen, Per Frisch, Hanna Skogstad, Runar Døving, Agnes Bryhn Røysamb, David Kosek, Fredrik Skavlan, Ravdeep Singh Bajwa, Ingvild Haugstad, Mads A. Andersen, Kyrre Mosleth, Emilia Oldani, Petter Wold Kraglund, Vilde K. Worren, Tina Schei, Hang Tran

Trailer:

Terremoto - Trailer dublado [HD]

Como sempre enfatizamos: No final das contas, indiferente de críticas e de críticos, o que realmente importa é se VOCÊ gostou ou não do filme. Então, conta pra gente o que você achou nos comentários.

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Luiz Leonardo Favaretto

Formado em Gestão em TI, apaixonado por bodybuilding, cultura pop e economia. Gosta de escrever sobre os mais variados temas. Tem planos de lançar uma saga medieval que já vem escrevendo há algum tempo, enquanto se diverte tecendo contos de ação, suspense e terror. Adora podcasts, cinema e vê no mundo das histórias uma das mais fantásticas formas de expressar toda a criatividade humana.